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| Seis anos de um olhar crítico sobre a mídia | |||||||
| Ultimamente não só os programas de entretenimento apresentam falta de compromisso e responsabilidade para com o público, mas também, salvo algumas exceções, o próprio jornalismo. Diante dessa situação, as mídias destinadas à analise e crítica dos meios de comunicação assumem um papel imprescindível. É o caso do Canal da Imprensa que há seis anos analisa, critica e reflete sobre o trabalho jornalístico produzido no Brasil e no mundo. | |||||||
| Ellen Ribeiro e Luzia Paula | |||||||
| É domingo. João chega da feira e se joga no sofá. De repente, sua esposa o avisa que o almoço está pronto, mas ele não se levanta para buscar. Até que ela, já impaciente, entrega o prato na mão do marido. Na TV, a Turma do Didi cativa o feirante de uma forma que ele mal olha pra comida. Logo depois começa a Temperatura Máxima e os filhos são proibidos de falar alguma coisa. Ao terminar o filme, a esposa respira aliviada, pois agora poderá bater um papinho com o marido. Ela tenta conversar, mas ele mostra-se fechado ao diálogo. Então, ela decide ir visitar a mãe juntamente com os filhos. Nessa altura dos acontecimentos, João já assistiu o Domingão do Faustão e agora está assistindo a semifinal do campeonato brasileiro entre Vasco e Palmeiras. Com os olhos arregalados e a boca cheia de pipoca ele grita: “É goool! Eu sabia que meu time não ia me decepcionar.” Esse é o típico cidadão que assiste ou lê tudo que vê pela frente, apenas por costume ou por não ter nada interessante para fazer. Geralmente, pessoas desse perfil recebem o entretenimento sem nenhuma reflexão. Assim, ficar vidrado no jogo do campeonato brasileiro no domingo a tarde é algo corriqueiro. Nesse contexto, o profissional de comunicação assume um papel fundamental. Como produzir informação com qualidade para um público que, em geral está acostumado à apelação e ao sensacionalismo? Para o estudante de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), Moabe Giudice, o Brasil ocupa hoje as últimas posições no ranking mundial de educação porque ainda não aprendeu a investir em políticas públicas educacionais. Para ele, isso acaba gerando cidadãos desprovidos de análise crítica, como o personagem que introduz essa reportagem. “Ter a oportunidade de refletir ainda no ambiente acadêmico é um caminho para nos tornar seres mais conscientes e atuantes na sociedade em que vivemos”, analisa. Ultimamente não só os programas de entretenimento apresentam falta de compromisso e responsabilidade para com o público, mas também, salvo algumas exceções, o próprio jornalismo. Diante dessa situação, as mídias destinadas à analise e crítica dos meios de comunicação assumem um papel imprescindível. É o caso do Canal da Imprensa que há seis anos analisa, critica e reflete sobre o trabalho jornalístico produzido no Brasil e no mundo. Informando com responsabilidade Idealizado inicialmente em 2001 pelos alunos da primeira turma de Jornalismo do Unasp, o Canal da Imprensa seria uma revista literária. No entanto, no ano seguinte a segunda turma abraçou a idéia tornando o veículo o que ele é hoje – um espaço de análise e crítica do trabalho midiático e ao mesmo tempo, aprendizado para os acadêmicos. Aproveitando que a censura, bem como a independência do Brasil estavam em pauta, a primeira edição abriu com o tema: “Brasil 500 anos... de censura”. Depois desse primeiro número inaugural, vários temas pertinentes foram amplamente discutidos em suas páginas eletrônicas. Ao longo desses seis anos, por meio do Canal da Imprensa diversos alunos tiveram a oportunidade de discutir sobre o trabalho da imprensa e dos próprios textos produzidos. Por meio do veículo, os alunos produzem reportagens e artigos analisando o que foi pautado e divulgado nos grandes veículos. Algo que antigamente era impensável. A crítica de mídia universitária tem conquistado um espaço cada vez maior. E isso é motivo de comemoração. Hoje, veículos laboratoriais como o Monitor de Mídia, Portal Puc-Minas, Mídia e Política, SOS Imprensa e Olhar Crítico desafiam os futuros profissionais a refletir sobre a atual situação das políticas públicas de comunicação e a “interferir” de forma indireta na qualidade da informação veiculada. Isso porque o papel da crítica de mídia é “incomodar” os veículos que não cumprem sua função de maneira correta. Mas obviamente nem todos os estudantes que ocupam as cadeiras de jornalismo no Brasil têm essa experiência. Os motivos de comemoração são muitos, mas ainda é necessário percorrer um longo caminho. Muitas universidades ainda não despertaram para essa necessidade, e tal postura incomoda muitos alunos. O estudante de jornalismo da Universidade de Franca (Unifran), Fernando Freiria, explica que as universidades precisam se aprimorar. “Em minha opinião, as escolas de jornalismo deveriam ter um veículo que nos possibilitasse fazer uma análise crítica sobre o próprio trabalho. Durante as aulas discutimos sobre o papel da imprensa, no entanto, não temos um veículo para divulgar nosso ponto de vista”, lamenta. Paula Santos, estudante do 4º ano de Jornalismo do Centro de Ensino Unificado de Teresina (CEUT) compartilha a mesma opinião “Na minha universidade tudo o que produzimos é regulado pelos professores. Não se pode falar mal dos patrocinadores e nem dos demais veículos de comunicação. Acho isso um grande erro”, desabafa. Ela acrescenta que em sala de aula os alunos discutem e criticam o que é veiculado na mídia, mas não têm uma disciplina específica na grade curricular voltada para o assunto. Mesmo sem ter contato com esse formato jornalístico, os alunos dessas instituições conseguem perceber a importância de uma crítica de mídia universitária. Portanto, eles afirmam que as instituições deixam a desejar nesse sentido. Paula ressalta que falar em investimento nessa área é fácil, mas sem um compromisso, os debates gerados pelos professores perdem o sentido. Idéias inovadoras O Monitor de Mídia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) surgiu em agosto de 2001 com o objetivo de lançar um olhar atento e minucioso sobre a mídia catarinense. Ao longo desses sete anos, o veículo se propôs não apenas a analisar o trabalho da imprensa, mas também a destacar e elogiar os trabalhos feitos com qualidade e responsabilidade. De acordo com o coordenador do veículo, Rogério Christofoletti, a academia tem o papel de contribuir para a formação de novos recursos humanos. Segundo ele, quando a crítica de mídia é feita na universidade ela tem um cunho pedagógico não somente para os alunos, mas também para a sociedade que começa a dar mais atenção para o que a academia aponta em suas leituras críticas. Christofoletti acredita que as universidades estão investindo nesse ramo. Segundo ele, os laboratórios estão em processo de consolidação. “Nós estamos buscando essa consolidação e aperfeiçoando ferramentas. O que já é um trabalho significativo”, argumenta. Ele explica que o objetivo do Monitor de Mídia é trabalhar com pesquisa e ensino e, para os acadêmicos, tem funcionado como uma experiência paradidática e de complementação pedagógica. O Canal da Imprensa completa hoje seis anos de “vida”. Ao longo desse período, foram publicados 60 reportagens, 101 entrevistas e 1599 artigos. Ainda há muito o que fazer. Mas o primeiro passo já foi dado. Nesses anos, vários alunos puderam e continuam aprendendo como fazer um jornalismo consciente e de qualidade. Além disso, as análises feitas pelo Canal estimulam a reflexão e se mostram ser um olhar crítico diante da mídia. “O Canal da Imprensa tem contribuído para minha formação profissional. Ao escrever cada artigo tenho aprendido a pensar, refletir e me posicionar diante da notícia”, conclui Giudice. |
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