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Cada um tem o que merece
 

Começarei este texto comentando nossa última edição do semestre passado. E afirmo que foi uma edição deveras interessante. A grande maioria dos textos esteve acima da média 8,5. O que me satisfaz duplamente. Primeiro por ter o prazer de ler algo bem escrito e depois porque percebo a evolução inquestionável dos trabalhos. A discussão da referida edição veio corroborar uma opinião que tenho há algum tempo. Existem três produtos: humor, humor lixo, humor inteligente. Conseqüentemente, existem três públicos: falsos sagazes, povão (alienados e ignorantes assumidos), população “antenada”.

O jornalismo é uma arte/utilidade notória por encontrar saídas entre as naturais censuras do labirinto sociopolítico e cultural. O humor, (a charge em si), atesta o sucesso dos caminhos alternativos na profissão. Sem qualquer intenção de parecer ingênua, idealista ao extremo, afirmo que hoje, talvez este seja um dos poucos caminhos que ainda preserva certa pureza da função jornalística. Que, sem 90% das interferências comuns que enfrenta o jornalismo formal, chama à atenção e produz reflexão, denuncia, critica, forma opinião. (Vejam bem, não estou dizendo que é o único caminho, estou simplesmente dizendo que faz isso de forma mais pura).

Analisando o que acabei de escrever acima, (ainda que pareçam pensamentos esparsos), quero refletir sobre algumas questões com vocês. De tudo que li, observo que há certos equívocos na análise das coisas. Por exemplo, não é a assiduidade de leitura do periódico (ou sua ausência) que determina o grau de compreensão da charge. Ler o jornal todos os dias, estar “supostamente a par” das realidades do país, não faz ninguém compreender a discussão proposta na ironia. A compreensão da profundidade da “piada” é que separa “falsos sagazes” de “leitores inteligentes”. Entender a crítica, refletir sobre ela, é algo relacionado a bagagem cultural, educacional, do indivíduo. Claro, certamente essas coisas devem estar aliadas à uma leitura assídua de jornal, mas sem elas não se pode compreender a crítica social.

Os “falsos sagazes” lêem a piada e entendem que o Lula está no poder e enfrenta um momento ruim. O “leitor inteligente” entende o que levou Lula ao poder e que chegar lá foi como levantar o tapete que cobria os alicerces apodrecidos que sustentam a organização social de nosso país. Enfim, ainda pior que tudo isso, é a maior parte da população, que se divide entre “alienados” e “ignorantes assumidos”. Os primeiros nem lembram quem governa o país, a segunda fatia (gorda, por sinal) prefere mesmo é ver “Pânico na TV”, Zorra Total e outras bizarrices completas. Como foi citado pertinentemente em um dos artigos, esta é uma sociedade voltada à cultura do espetáculo. (Se colocassem frente aos olhos destes, material humorístico de teor jornalístico, formativo, jamais entenderiam). O que me leva a concordar com outra autora quando diz que o sucesso de tanta porcaria se deve ao mau gosto do povo, que foi educado para receber jornalismo de segunda e besteirol de primeira qualidade.

Também faço coro às brilhantes declarações de nossa entrevistada. Fazer humor inteligente não é para qualquer um. “Somente jornalistas com sólida formação cultural e habilidade para divertir” é que alcançam este objetivo. (Cito Millôr como exemplo). Da mesma forma, para entender a boa piada é preciso mais que senso de humor, é preciso bagagem de conhecimentos. E aproveito para voltar a um dos tópicos abordados em parágrafos acima, (que a Dra.Quadros esclareceu muito bem). O jornalismo tem caminhos alternativos. Faz uso de inúmeros recursos sem perder a seriedade. O humor é um desses caminhos. Informa, critica, reflete e ao fim alcança alguns, certamente não todos.

Parabenizo os textos, “Mau humor”, “Sociedade das covinhas”, “Ria custe o que custar”, pela excelente escrita. E também a todos os textos pelo nível de conteúdo e reflexão. Creio que a entrevista, levando em consideração as declarações da entrevistada, poderia ter se aprofundado mais no assunto.

Mudando totalmente de tema, reitero meu desejo de que nossos textos continuem evoluindo. Para isso, nossos autores precisam continuar a incansável busca pela excelência da escrita e profundidade da pesquisa. Aviso que em nome dessa busca não amolecerei minhas alfinetadas. Estou segura de que estamos galgando pouco a pouco os degraus que levam ao profissionalismo. Concordo plenamente com o jornalista Carlos Henrique Nunes, (que escreveu a coluna do ombudsman na edição de aniversário), quando afirma que nosso objetivo deve ser unicamente alcançar excelência.

Voltando ao princípio, repito que me satisfez muito ler a edição CoMídia. Me acrescentou algo, e isso é o que mais vale. Acrescentar, fazer refletir. Termino dizendo que, geralmente, “cada um tem o que merece”. Aqui no Brasil o Lula tem cerveja e nós temos samba e bolsa família...

Nos falamos em 15 dias.

Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br