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Sonho e realidade de mãos dadas

Thiago de Melo

A Hollywood Brasileira, de Mauro Alencar (Senac; 2002; 176 páginas; R$ 52,00)

Conhecida mundialmente por suas produções cinematográficas, Hollywood é hoje responsável tanto pela imagem que o mundo tem do povo norte-americano, quanto pela maior transação financeira dos Estados Unidos: as bilheterias que somam um capital de bilhões de dólares.

Não muito diferente aqui no Brasil. As novelas têm desempenhado este papel e revelado a vários países a "cara" do País. País das telenovelas.

Em seu livro, A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no Brasil, o mestre em telenovela Mauro de Alencar traça detalhadamente um histórico da telenovela brasileira. A cronologia inicia paralela ao surgimento da primeira emissora de televisão, a TV Tupi de São Paulo, e segue contando a saga de suas sucessoras, com destaque para a Rede Globo e seu padrão de qualidade. Acompanha a obra um CD com 18 temas de telenovelas.

Parte do livro trata de assuntos técnicos, como, por exemplo, a função de cada profissional que está ligado direta ou indiretamente à produção de uma novela ou minissérie. Mauro destaca ainda a roteirização as novelas e a evolução das gravações, que, conforme ele, inicialmente eram feitas totalmente em estúdio. Com o surgimento das novas tecnologias, as imagens externas passaram a ser mais freqüentes.

A partir daí, o autor aborda mais o plano ideológico, a influência que as novelas têm exercido em relação à opinião e aceitação da sociedade: uma extensão de suas próprias vidas. Isso ocorre devido a técnicas que foram se aprimorando e permitindo cada vez mais a identificação do telespectador com o personagem representado.

Segundo Alencar, a linha divisória entre ficção e realidade torna-se quase imperceptível, sendo esta uma das razões do gênero televisivo ter aceitação maciça da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que vê sua realidade na telinha, o telespectador começa a viver fantasias que só a ficção pode lhe oferecer.

A Hollywood Brasileira apresenta como grande trunfo das novelas, principalmente daquelas produzidas pela Rede Globo, o fato de cumprirem papel social, debatendo assuntos delicados e colocando em questão valores sociais. No entanto é preciso esclarecer que mesmo quando debate questões importantes, as novelas fundem a verdade ao conto de fadas; a realidade à ficção. Seria então seguro o cidadão brasileiro basear suas opiniões em meias verdades?

Na dissertação de mestrado Consumo, Logo Existo, de Maria Clara Gueiros, encontra-se a seguinte constatação:

"(...) Neste país desescolarizado, a TV há muito tempo superou o poder da igreja e o do colégio e já começa a ultrapassar o poder da família."

As novelas vão se desenvolvendo à medida que seus criadores percebem a reação do público. Daí conclui-se que a TV não mostra o que o telespectador precisa ver e ouvir, mas sim o que ele quer. Astutamente, satisfaz os anseios de seu público e intrinsecamente recebe doses de uma ideologia que, por muitas vezes, vai de encontro com suas próprias idéias. Vale lembrar ainda da grande indústria capitalista que existe por trás de cada marca divulgada pelas novelas, conduzindo a sociedade ao consumismo, até certo ponto inconsciente.

O conceito da novelista Janete Clair é bastante interessante: "Novela o próprio nome já define: um novelo que vai se desenrolando aos poucos." Eu diria mais: Novela o próprio nome já define: um novelo que vai "nos enrolando" aos poucos.

                   

criação: lisandro staut