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Deturpação
literária
Vanessa Candia
Adaptado da obra de Jorge Amado, o filme Tieta do Agreste (1996) foi como um renascimento do cinema brasileiro. O projeto criado pela atriz Sonia Braga, que interpreta o papel-título, foi dirigido por Cacá Diegues. Este aceitou prontamente devido a ser uma obra de Jorge Amado e com trilha sonora de Caetano Veloso e Gal Costa. Sem esquecer de mencionar a própria atriz, que por ocasião do filme teve uma breve volta ao cinema nacional.
O filme conta a história de uma jovem que quando moça teve várias aventuras sexuais que escandalizaram a cidade, sua família e principalmente seu pai. Ela é expulsa e volta 26 anos depois.
Participante do Festival Internacional de Havana, Tieta foi vencedor da categoria de melhor atriz coadjuvante para Marília Pêra, no papel da viúva beata e gananciosa Perpétua, irmã de Tieta. Foi também o representante brasileiro durante a escolha para os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1997.
Apesar do sucesso que a novela obteve em 1990, o filme deixou muito a desejar. Salvo as interpretações de Sonia Braga (Tieta), Marilia Pêra (Perpétua) e Claudia Abreu (Leonora), o resto do elenco passa como simples figuração. Nem mesmo no caso entre Tieta e Ricardo (Heitor Martinez) é dado uma ênfase maior.
O autor do livro, Jorge Amado - que aparece no início do filme lendo um trecho de sua obra -, diz que cada vez que uma obra sua é adaptada para televisão ou cinema ele se sente violentado. Na novela, por exemplo, Tieta volta para rever e buscar o amor dos seus familiares e amigos. Mas no original ela volta para se vingar. A mesma deturpação aconteceu no filme.
Devido ao peso do elenco do filme se esperava muito mais das personagens, que na maioria decepcionaram. Um caso é a cena em que o pai (Chico Anysio) enxota a filha de casa. Não precisa ser um cineasta para sentir que faltou muita emoção e realismo na cena. Na verdade, o filme trata-se mais de uma bela campanha publicitária das praias do nordeste. Mas, ao mesmo tempo, um péssimo marketing do povo brasileiro.
No que se refere ao linguajar, Tieta é vergonhoso. Palavrões grosseiros são utilizados como pertencentes ao vocabulário cotidiano do brasileiro. Não se trata de moralismo. É do conhecimento da maioria que a linguagem de Jorge Amado não é lá das mais puritanas, mas já que modificam tanta coisa, não custa nada "segurar" a língua das personagens! Afinal, pelo menos a arte deveria ser transcendental.
Mas seja dado o real mérito à trilha sonora de Caetano Veloso e Gal Costa, que fez mais sucesso e ficou mais conhecida que o filme.
A atuação dos atores na novela foi melhor que no filme. Leve-se em conta que uma Perpétua depressiva e carrancuda - a do filme - sem o toque de humor que a atriz Joana Fomm deu a personagem cansaria e não obteria o sucesso, apesar de toda sua maldade, com o telespectador.
Entretanto, Tieta desencadeou o processo e deu um pontapé (de leve, se for comparado com
Gabriela, por exemplo) àquela idéia de que cinema brasileiro é sinônimo de filmes
"pornotropicalientes". Tem suas cenas picantes? Tem! Mas já melhorou muito.

criação: lisandro staut |
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