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Grandes Pecados pecou

Fabiana Amaral

Grandes Pecados da Imprensa, de Sebastião Nery. (Geração; 2000; 292 páginas; R$ 30,00)

Sebastião Nery é o que poderíamos chamar de eclético. Foi professor de Latim e Português, vereador, deputado estadual e federal, até chegar ao topo: jornalista. Com uma bagagem cultural - de anos e anos, passando por quatro dos cinco continentes -, somada à vasta lista telefônica de amigos poderosos, ele, sem humildade alguma, não desmente que conhece a história do Brasil como poucos. Bem poucos, aliás, se somarmos também sua idade.

No livro Grandes Pecados da Imprensa, Nery se debruça a atacar e desvendar os mistérios da imprensa brasileira em sua sórdida missão de impor e afastar os dirigentes da nação. Faz um levantamento da vida de Rui Barbosa, hoje reconhecido por sua postura honesta e ética, mas veementemente atacado pela imprensa à sua época. O jornalista levanta diálogos e documentos, mostrando pelo que passou a celebridade brasileira, avidamente entretido com a política até 1923.

Depois dele, Nery volta os holofotes sobre Juscelino Kubitschek, o ex-presidente que deu notoriedade para Brasília, transferindo a capital brasileira para lá. Nesse capítulo, ele descreve como a imprensa atormentou a vida desse homem fazendo com que pensasse, por diversos momentos, em suicídio. É nessa seção do livro que o autor deixa evidente sua convicção de que o "acidente" automobilístico com Juscelino não foi tão acidental assim. Ele afirma que os militares cuidaram de tirar a chance de Juscelino voltar ao poder, depois da imprensa, como urubu, se fartar com sua carne.

Ao mencionar o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia e Alceni Guerra, ministro da Saúde do governo Collor, ele mostrou o que se passa atualmente nos bastidores da política e imprensa. O primeiro, com uma carreira a jato, foi biografado com muito mais incisão que os demais, o segundo passou por coitado. Mas mesmo com os inflamados discursos de Nery, contra a imprensa e em prol dos tais, a história ainda não os absolveu totalmente como fez com os dois anteriores.

Nesta obra, o discurso berrante é justamente contra a honestidade e credibilidade da imprensa. O autor mostra fatos que foram registrados nas páginas dos jornais, mas não nas da história. O fato de Nery participar de maneira significativa nos três últimos casos é uma faca de dois gumes. O leitor vê com os olhos de quem presenciou os fatos, mas também fica impregnado com a paixão e indignação do mesmo.

Embora o foco nas quatro personagens seja interessante, faltou um pouco mais de aprofundamento em fatos, a despeito de opinião particular. Outro problema que saltou aos olhos foi a incrível "semelhança" do último capítulo, falando de Alceni Guerra, com o mesmo relato no livro de Mário Sérgio Conti, o clássico Notícias do Planalto.

De mais a mais, um grande feito que o autor conseguiu foi a dúvida permanente nos veículos de comunicação, inclusive nas edições históricas, que proliferam nesse burburinho atual. Embora o reflexo histórico seja proveitoso, em termos de parcialidade e profundidade, o Grandes Pecados pecou.

                                        

criação: lisandro staut