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Retrato
de uma época em preto e branco
Megh Barreto
A película do diretor Bruno Barreto O Que é Isso, Companheiro? nasce do âmago da manifestação popular brasileira, nos movimentos estudantis e partidos políticos de esquerda, que movidos por sentimentos nacionalistas e em busca de liberdade, mobilizaram-se contra as pressões sofridas por um povo que até então vivia como se "todo dia era dia de índio". O filme teve grande repercussão na mídia, sendo indicado ao Oscar pelo Ministério da Cultura como melhor filme estrangeiro de 1998.
Dois acontecimentos marcavam a história do momento em que o filme foi embasado: o golpe militar de 64, que censurava a liberdade de imprensa e proibia manifestações públicas de caráter político, por meio de seus Atos Institucionais, e a Guerra do Vietnã, que simultaneamente mobilizava todo o ocidente contra a invasão do Vietnã pelos Estados Unidos.
Em diversos Estados, mais especificamente no Rio de Janeiro e São Paulo, movimentos estudantis universitários e alas extremistas de partidos políticos se organizaram clandestinamente para lutar contra o regime militar instalado a partir do golpe. Como viram que politicamente era inviável encontrar um ponto de equilíbrio, muitos movimentos radicalizaram partindo para a luta armada.
Entre os movimentos radicais, destacaram-se o Movimento de Libertação Nacional
(MLN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Juntos, mas coordenados pelo MR8, os líderes recrutavam estudantes no seio dos diretórios acadêmicos e corredores das universidades, que cheios de sonho de liberdade e filosofias marxistas, ingressavam cegamente nestes movimentos. Inocentes e inexperientes, estes jovens estudantes eram treinados em lutas, expropriações de bancos e seqüestros, a fim de
chamar a atenção para sua causa e levantar fundos para financiar as operações dos movimentos.
No final da década de 60, Fernando Gabeira - deputado estadual na época - envolveu-se nas guerrilhas urbanas que mobilizaram a história do País. Contando os relatos da sua experiência na luta armada e nos movimentos clandestinos, o idealista escreveu em 1979 o livro intitulado
O Que é Isso, Companheiro?. Pela importância histórica que a obra apresenta, a sua adaptação para o cinema acabou sendo indispensável.
O filme ganha mais sentido com o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil pelo MR8, em que o governo militar teve que ceder as exigências do movimento, libertando e exilando em outro país os presos políticos envolvidos com os grupos clandestinos. Entretanto, a trajetória da vida destes estudantes ficou profundamente marcada pela experiência frustrada que tiveram. Aqueles que foram exilados sofreram o choque de viver em um país desconhecido, mas se valeram da Lei de Anistia para presos políticos do governo assinada em 79
pelo próprio governo militar.
Porém, o filme deixa transparecer de forma bem clara que esta não foi a sorte de todos, uma vez que a prática de repressão passava principalmente pelo uso da tortura, desaparecimento e morte. Apesar da democracia haver sido restaurada no Brasil, nos arquivos do governo ainda constam muitos nomes de presos políticos que não foram encontrados, crimes não esclarecidos e culpados não julgados. Heróis de uma luta sem trégua, que não tiveram direito a um nome e um final digno da batalha que travaram em nome da liberdade que hoje vive o País.
A película presta um serviço inquestionável à memória de jovens estudantes e revolucionários, que um dia sonharam com uma pátria livre de regimes de governo autoritários. Pelo caráter histórico, o filme é um documento de grande valor para um povo que não pode esquecer o que é ser livre.
Ficha Técnica
Título Original: O Que É Isso, Companheiro?
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 105 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 1997
Estúdio: Luiz Carlos Barreto Produções Cinematográficas / Filmes do Equador / Pandora Cinema / Quanta / Sony Corporation of America
Distribuição: Miramax Films / Riofilmes
Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Leopoldo Serran, baseado em livro de Fernando Gabeira
Produção: Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto
Música: Stewart Copeland
Alan Arkin (Charles Burke Elbrick)
Fernanda Torres (Maria)
Pedro Cardoso (Fernando / Paulo)
Luiz Fernando Guimarães (Marcão)
Cláudia Abreu (Renée)
Nélson Dantas (Toledo)
Matheus Nachtergaele (Jonas)
Marco Ricca (Henrique)
Maurício Gonçalves (Brandão)
Caio Junqueira (Júlio)
Selton Mello (César / Osvaldo)
Du Moscovis (Artur)
Fernanda Montenegro (Dona Margarida)

criação: lisandro staut |
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