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Apertem
os cintos,
o Oriente Médio sumiu!
Fernando Torres
Ferida
Aberta - O Oriente Médio e a nova ordem mundial, de Jayme Brener. (Atual;
110 páginas; R$ 14,00)
Muitos séculos de história separam o Ocidente das raízes dos conflitos do Oriente Médio. Entram aí o fundamentalismo islâmico, o anti-semitismo e a eterna luta entre muçulmanos xiitas e sunitas, datada do século VIII. E, claro, a dominação do petróleo.
A imprensa em geral transmite definições vesgas a respeito da região - como os termos "radical"
versus "moderado" -, tão reais quanto as miragens do deserto. A amnésia decorrente da Guerra do Golfo é apenas um exemplo de como o Oriente Médio é um grande desconhecido da população ocidental. Somam-se a ela a Guerra Civil do Líbano, a Guerra Irã-Iraque, o eterno conflito entre árabes e palestinos, a Guerra do Afeganistão e muitos outros embates.
O livro Ferida Aberta - O Oriente Médio e a Nova Ordem Mundial, do jornalista, sociólogo e historiador Jayme Brener, tenta explicar as razões de tantos conflitos na região e suprir as parcas informações ocidentais. Brener, que já foi redator internacional dos jornais
Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Em Tempo e do mexicano
El Día, além de editor assistente do Jornal da Tarde e da revista
Veja, recorda que as normas do Ocidente simplesmente não se encaixam no Oriente Médio. Para entender os árabes do deserto, o leitor precisa se despir de toda espécie de preconceito.
Realmente, segundo Brener, a maior causa dos embates internos - e externos - é o domínio do petróleo. Para se ter uma idéia da riqueza da região, em 1989 a Arábia Saudita exportava cerca de 27 bilhões de dólares só em petróleo.
Não é de hoje que o Oriente Médio se divide em dois campos: as monarquias petrolíferas, representadas pela Arábia Saudita, Kuwait e os emirados do Golfo Pérsico, e os regimes ultranacionalistas, correspondentes ao Iraque, Líbia e Síria. Os primeiros caracterizavam-se pela lealdade ao Ocidente; os segundo à União Soviética.
Ora, interessava à Casa Branca que os níveis de produção petrolífera se mantivessem altos; assim o preço do combustível não subiria. Para os regimes nacionalistas, contudo, a produção de petróleo deveria ser limitada, pois com a valorização do produto, os países obteriam recursos para projetos sociais e compra de armamentos.
Estava criado o conflito. Porém, com o fim da União Soviética, o tabuleiro de xadrez foi ao chão. Caminhar na direção dos Estados Unidos, única potência restante parecia a solução.
Não para Saddam Hussein, chefe tribal do Iraque desde 1979, após um golpe de estado. Em agosto de 1990, o líder iraquiano invadiu o Kuwait - lembre-se, aliado dos Estados Unidos - exigindo sua anexação. Mais que isso: recém saído da Guerra Irã-Iraque (1980-1989), na qual pretendia barrar o fundamentalismo islâmico, Saddam procurava recuperar os 50 bilhões de dólares investidos no conflito, aumentar sua capacidade de exportação petrolífera e obter maior controle sobre os negócios do Oriente Médio.
Chapeuzinho Vermelho
"Saddam não era exatamente como Chapeuzinho Vermelho", define Brener. "Porém, a coalizão internacional anti-Saddam foi comandada pelos mesmos Estados Unidos que em 1983 invadiram a ilha de Granada e em 1989 o Panamá, depondo governos que consideravam hostis", completa. Ironicamente, o Conselho de Segurança da ONU não tratou a Casa Branca com a mesma severidade com que puniu o Iraque. Deve-se lembrar também que a Guerra Irã-Iraque teve amplo apoio dos Estados Unidos.
Pressionado, Saddam apelou para o instinto islâmico: o ataque a Israel, o "inimigo comum" dos palestinos. Não funcionou. Apenas os países que dependiam diretamente da economia iraquiana apoiaram a estratégia anti-semita; o restante se mobilizou a favor da Operação Tempestade do Deserto. O ditador foi vergonhosamente derrotado em fevereiro de 1991, assistido ao vivo por quase todos os terráqueos, obviamente com a devida censura da Casa Branca.
[Em tempo. Ao contrário do que se apregoou na época, a Guerra do Golfo não se caracterizou pelo combate civilizado. Segundo José Arbex Jr., em
Showrnalismo - A Notícia como Espetáculo, a CNN, que transmitiu ao vivo o conflito, escondeu os cem mil mortos iraquianos decorrentes do conflito. "A mídia conquistou a capacidade política e tecnológica de ocultar até genocídios de grandes proporções", critica Arbex Jr.]
Com o status quo de vencedores, os Estados Unidos decidiram proclamar sua hegemonia no Oriente Médio e resolver outra questão: a criação do Estado palestino. "Com a criação do Estado judeu, em 1948, os israelenses ocuparam 77,4% do território total da antiga Palestina, para não mais devolvê-lo", contextualiza Brener. As guerras dos Seis Dias (1967) e a do Yom Kippur (1973) - todas ganhas pelo minúsculo Israel, grande aliado dos Estados Unidos, com seus quatro milhões de habitantes, contra um milhão e 700 mil palestinos - representam as inúmeras tentativas palestinas de criar um estado.
Então veio a Conferência Internacional da Paz, sediada em Madri, em outubro de 1991. "Palestinos e israelenses trocaram apertos de mão, milhares de flashes espocaram, mas a Conferência ficou só nisso. A falta de uma vontade política regional de paz revelava-se a cada momento", expressa Brener. O jornal francês
Liberatión chegou a definir o encontro como a maior coletiva de imprensa da história. Cômico, se não fosse trágico!
Foi o presidente Bill Clinton quem conseguiu estabelecer o acordo de paz entre o primeiro-ministro israelense, Itzhak Rabin, e o líder palestino Yasser Arafat, em 13 de setembro de 1993. Infelizmente, o histórico aperto de mãos não finalizaria o tormento. Dois anos depois, Rabin era assassinado, dando término ao processo de paz. Até hoje, a criação do Estado palestino não passou do papel, assim como a maioria de todos os outros problemas do Oriente Médio.
Depois da leitura de Ferida Aberta, pode concluir que o Oriente Médio conhecido pelo Ocidente não existe. Apenas a leitura completa do livro proporcionará o quadro real, pois os embates são tantos que seria impossível listá-los acima. Para o futuro, porém, cabe à imprensa não terminar de sepultar a verdadeira história do Oriente Médio sobre as areias do deserto.

criação: lisandro staut |
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