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Narcoditadura, o crime S.A.

Leandro Oliveira

Narcoditadura - O caso Tim Lopes, de Percival de Souza. (Labortexto, 2002; 272 páginas; R$ 35,00,)

Ser um repórter investigativo não é querer ser polícia e resolver todos
os casos. O jornalista investigativo deve ajudar a sociedade e alertar as autoridades que deveriam agir em repressão aos crimes. Era exatamente isso que o jornalista Tim Lopes fazia antes de ser assassinado.

Narcoditadura, escrito por Percival de Souza, apresenta o caso do jornalista Tim Lopes e traça o cenário do jornalismo investigativo no Brasil. Como se aproveitasse a oportunidade de expressar sua indignidade com a morte de seu amigo, o autor faz críticas, análises e revela um lado cruel da profissão.

Descrevendo sobre a morte de seu companheiro, Percival usa de sua experiência profissional e faz um paralelismo entre o bem e o mal. Arcanjo Antônio Lopes do Nascimento, o bem, morto cruelmente por indivíduos com nomes bem sugestivos para a representação do mal - André Capeta, que levou Lopes para ser "degolado" pelo chefão, Elias Maluco.

Em Narcoditadura, Percival traça uma seqüência interessante na abordagem de cada capítulo. Começa descrevendo com detalhes a fria e lenta morte de Tim Lopes, chamado quase sempre de Arcanjo. Segue contando sobre a excelência da carreira e serviços prestados por Tim Lopes, seus prêmios recebidos e matérias que realizou e repercutiram como bombas. "Na TV, era o homem atrás das câmeras que permitiu a Globo fazer reportagens de grande repercussão", escreve Percival.

O autor mostra que Tim Lopes estava no local exato e na hora exata; seu principal interesse era representar as classes minoritárias. Quem nunca deveria nem pensar em estar ali era André Capeta e Elias Maluco. "Quatro longos anos não foram suficientes para a sentença de Elias ficar pronta na 31.ª Vara Criminal", relata Percival, na tentativa de afirmar que se a Justiça fosse um pouco mais ágil, os traficantes estariam em algum presídio.

Crime organizado

O quarto capítulo começa com um pensamento chinês que até poderia resumir todo o seu conteúdo: "A verdade é o mais eficiente instrumento de mudança social, por isso os homens a temem." A expressão "Narcoditadura" também dá título ao capítulo, sendo o modo escolhido por Percival para mencionar as ações do crime organizado. Em seus domínios, até policiais têm medo de se aproximar. Só vão quando o reforço é grande.

Percival cita e faz críticas a várias pessoas, entre elas o ex-ministro da Justiça, Reale Júnior. Pouco antes de deixar o cargo, o ministro esteve em Corumbá para incinerar drogas. Ao arremessar um pacote de cocaína, a droga caiu na parte superior do forno e não nas chamas. "Um sinal, talvez, de que não conseguiria acertar no alvo da dignidade e da decência, e em nome delas, embora devoto do partido político do governo, só restaria ir embora", ironiza Percival.

Souza cita vários casos de pessoas que apenas eram usuários e foram mortas ou se suicidaram, mas em nenhum momento houve uma ação preventiva das autoridades governamentais responsáveis.

Ao final, o livro focaliza-se na desilusão de dias melhores. Percival fala de um País que tem liberdade de imprensa, mas não tem liberdade de acesso; um País que tinha o investigador do povo, Tim Lopes, que foi trucidado pelo investigador do tráfico, Elias Maluco.


Conclui-se que Narcoditadura reflete acerca do atual sistema criminal, da fraqueza da Justiça em relação ao tráfico. Numa obra que contém uma linguagem de fácil entendimento, jornalistas e, principalmente, estudantes de jornalismo não poderiam perder a chance de lê-la.

                   

criação: lisandro staut