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Perseguição contínua

Lísye Rizziolli

Rota 66 - A História da Polícia que Mata, de Caco Barcellos. (Record, 2003; 352 páginas; R$ 40,00)

Brasil, o retrato de 55 mil crimes de morte por ano. Vítimas desarmadas, indefesas, apavoradas com a perseguição policial, amedrontadas com os tiros inconseqüentes disparados e, enfim, mortas, com requintes de crueldade, já que o número dos disparos foi muito além do necessário para o homicídio. É esse cenário que o jornalista Caco Barcellos propõe-se a reconstruir, em Rota 66 - A História da Polícia que Mata.

A Polícia Militar de São Paulo foi responsável por 12 mil mortes inocentes. E, por mais incrível que pareça, 97% das pessoas encarceradas e torturadas brutalmente têm um rendimento inferior a 50 reais.

Foi estimado também, entre (1970 a 1992, data da primeira publicação do livro Rota 66) um saldo de 7.500 vítimas. Atualmente, este é um número de suma importância, que supera o número de soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial (foram 454) e as vítimas da Guerra dos Farrapos (cerca de mil).

Pode se acreditar nisto? Polícia Militar matando pessoas por desconfiar que são bandidos? Sem contar que as vítimas, em geral, são pessoas pobres, negras ou pardas e com nenhum envolvimento com o crime.

O porquê dessas mortes ficou sem explicação até hoje. A época da ditadura foi terrível por tal brutalidade e puro prazer em fazer simples cidadãos morrerem.

Para muitos, a sucessão dos tiros era para fazer sofrer, para o fuzilamento ter um sentido exemplar. Com certeza só podia ser fruto de uma mentalidade doentia e violenta, de policiais que se mostravam indignos da própria farda.

A obra de Caco Barcellos foi de suma importância, esclarecendo às pessoas o que realmente aconteceu com o povo brasileiro diante da ditadura. "Eu gostaria que o livro Rota 66 fosse uma página virada. Infelizmente, eles continuam agindo de forma semelhante. Ainda não é uma página virada", afirma Barcellos.

O autor

Barcellos nasceu em 5 de março de 1950, na Vila São José do Murialdo, em Porto Alegre. Estudou Jornalismo na Famecos, da PUC-RS, onde se formou. Começou a sua carreira no Rio Grande do Sul na imprensa alternativa, durante a ditadura, e, também na Folha da Manhã, tendo passado por importantes veículos de circulação nacional, como a revista Veja.

Além de repórter consagrado e premiado de jornal, revista e televisão, Caco Barcellos é também escritor. Sua primeira obra publicada foi em agosto de 1982, intitulada Nicarágua, a Revolução das Crianças, sobre sua experiência com a revolução sandinista.

Após sete anos de investigação, Barcellos publicou o livro Rota 66, em que narra a história dos polícias de um carro, o 66, das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), que matam três jovens. Por meio dessa obra, denuncia toda a história de 22 anos de execuções desta unidade especial.

Em 2001, Barcellos ganhou da revista Imprensa o título de melhor jornalista do ano e ficou entre os mais votados pelo público como o melhor jornalista vivo do século. O livro Rota 66 deu-lhe o prêmio Jabuti de Literatura e suas matérias mereceram vários prêmios Esso de Reportagem e outros na área dos Direitos Humanos.

Atualmente, Caco Barcellos é repórter na TV Globo em Londres, onde só trabalha em investigação. Ele faz parte do Grupo Repórter e que apresenta uma reportagem de uma hora. Agora, em abril, a editora Record lança outro livro seu, O Abusado, que narra a experiência de Marcinho VP nos morros cariocas.

                                        

criação: lisandro staut