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Um
Jesus diferente
Cíntia Sandri
O
Auto da Compadecida, inicialmente em formato de minissérie exibida pela Rede Globo, com direção de Guel Arraes, adaptado da peça de Ariano Suassuna, teve sua estréia no cinema em 1999. Filmado no nordeste do Brasil, o filme retrata a história de João Grilo (Matheus Nachtergaele), um nordestino mentiroso que luta por sua sobrevivência e que ao lado do covarde amigo Chicó (Selton Mello) tenta enganar os poderosos da sociedade.
A Igreja era completamente manipulada pelo dinheiro, e Suassuna deixa isso transparecer ao mostrar a corrupção do padre João (Rogério Cardoso) e do bispo (Lima Duarte). Estes, mesmo sendo ameaçados de morte pelo cangaceiro Severino (Marco Nanini), se recusam a entregar todo o dinheiro das ofertas, quem sabe intencionando comprar um bom lugar para onde estavam sendo mandados.
Na cena em que Nossa Senhora Aparecida (Fernanda Montenegro) intercede junto a seu Filho pelos homens, Suassuna levanta uma questão quanto à autoridade de Jesus. Mostra um Jesus submisso às vontades de sua mãe, ou melhor, somente acatando as decisões tomadas por ela.
Quando as ações dos personagens entram em conflito com a Igreja, geram algumas reflexões sobre os dogmas da Igreja. Defendendo seus "filhos", Jesus (Maurício Gonçalves) argumenta que todos são iguais diante de Deus ou do
Diabo.
As cenas finais de O Auto mostram um julgamento e uma briga entre Deus e o Diabo - para decidir o futuro das almas dos personagens.
O momento mais chocante do filme é quando aparece um Jesus negro. Espanto enfatizado pelos próprios personagens ao verem um Jesus completamente oposto ao que sempre imaginaram.
O filme questiona a inclinação do homem para a maldade, o medo da morte vivenciado pelos atores, e o perdão o qual todos têm direito. A história termina com um contexto social, destacando a terra pobre, falando sobre os retirantes que vão para o litoral em busca de uma vida melhor. E critica a sociedade comparando o inferno com uma repartição pública que existe, mas não funciona.
O Auto da Compadecida é uma crítica em vários aspectos, onde revela toda a sujeira da sociedade e não esquece de todas artimanhas usadas pela Igreja e seus representantes. Onde um Jesus diferente foi preciso para determinar de uma vez por todas o preconceito embutido nessa sociedade capitalista.
Título Original: O Auto da Compadecida
Gênero: Comédia
Ano de Lançamento (Brasil): 2000
Estúdio: Globo Filmes
Distribuição: Columbia Pictures do Brasil
Direção: Guel Arraes
Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão, baseado em peça de Ariano Suassuna
Produção: Daniel Filho e Guel Arraes
Direção de Fotografia: Felix Monti
Desenho de Produção: Eduardo Figueira
Direção de Arte: Lia Renha
Figurino: Cao Albuquerque
Edição: Paulo Henrique
Elenco
Matheus Natchergaele (João Grilo)
Selton Mello (Chicó)
Diogo Vilela (Padeiro)
Denise Fraga (Dora)
Rogério Cardoso (Padre João)
Lima Duarte (Bispo)
Marco Nanini (Cangaceiro Severino)
Luís Melo (Diabo)
Maurício Gonçalves (Jesus Cristo)
Fernanda Montenegro (Nossa Senhora)
criação: lisandro staut |
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