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Um grito de liberdade ou de dor?

Sergio Telles

Imagens de crianças em espancamento, mulheres desesperadas gritando, homens tentando se defender de agressões covardes são apresentadas de forma marcante nas cenas de Um Grito de Liberdade. E mais: invasões de tanques de guerra a locais sem as mínimas condições de higiene, propícios ao surgimento de doenças, onde vivem milhares de pessoas. Tudo isto sendo apresentado diante dos olhos de uma platéia em choque.

Fixada pela mídia, a violência tornou-se parte do dia-a-dia. Exemplo disso é a falta de humanidade estampada na maioria das cenas de Um Grito de Liberdade. As imagens são da década de 1970, ocorridas na África do Sul, num subdistrito de Capetown (Cidade do Cabo). As vítimas: os negros. Os agressores: os brancos.

A base de toda a história está em dois livros, escritos pelo jornalista sul-africano Donald Woods, que vivenciou os acontecimentos e pôde, dessa forma, fazer relatos denunciando toda a violência e a intolerância características do regime de segregação racial sul-africano, o apartheid.

Além de presenciar tudo isto, Woods teve a oportunidade de viver próximo ao ativista Steve Biko. O militante se tornou uma liderança respeitada dentro de sua comunidade desde os tempos em que era estudante, aproveitando-se das poucas chances concedidas pelos governantes brancos sul-africanos à maioria negra do país.

A estruturação da sociedade do apartheid fazia prevalecer a lógica mesquinha da divisão injusta dos meios e recursos. A humilhação de ter que pedir autorização para locomoção, a separação de famílias para que pudessem sobreviver - os empregos eram concedidos em locais distantes. Homens e mulheres acabavam se encontrando apenas nas folgas e nos finais de semana -, os salários irrisórios, as moradias que eram verdadeiros guetos (favelas, cortiços).

A violência aplicava-se sob a égide de um estado de caráter fascista, à base de pancadaria e de submissão a condições totalmente desumanas. Woods (Kevin Kline) é um jornalista liberal, que faz críticas à ação desmesurada do governo, mas apesar de suas críticas, vive num "subúrbio luxuoso", afastado dos bairros pobres onde residem os negros. Parece atento ao que acontece ao seu redor, mas não consegue perceber todas as mazelas e diferenças que matam milhares, que mutilam outros tantos. Um fato interessante é que tudo ocorre por um único motivo: a cor da pele.

Biko (Denzel Washington) é um dos alvos mais freqüentes dos editoriais escritos por Woods. Do alto de toda a sua sabedoria de membro da classe dominante, o jornalista acredita que a ação de líderes negros como Biko aumenta o ódio racial, faz crescer o número de situações de enfrentamento, distancia a comunidade negra dos brancos e estimula a segregação ao invés de combatê-la.

Quando Woods e Biko se conhecem, as barreiras do silêncio impostas pelo estado racista a Biko se quebram. Eles estabelecem conexões entre si, formando a idéia de que o diálogo, a compreensão e as concessões são o melhor caminho para solucionar o problema sul-africano. 

A admiração mútua logo se torna mais marcante e o carisma do líder Biko atinge em cheio o jornalista liberal, que passa a utilizar seu espaço no jornal para pregar em favor do fim do apartheid. A perseguição aos negros atinge então seu confortável lar de classe dominante num luxuoso distrito reservado à elite branca.

O que lhe parecia distante, próprio dos subúrbios poeirentos em que residiam os negros, também podia chegar a sua casa, atingir sua família, obrigá-lo a se calar. Os amargos "remédios" dados pelos racistas sul-africanos a Biko e Mandela - preso desde a década de 1960, tendo sido solto apenas no final dos anos 1980 - também atingiam Woods.

O doce sonho de que toda a situação vivida pelo país poderia ser superada às custas de planos de governo e boa vontade da população ia por água abaixo. Que alternativa resta senão a luta? Que possibilidade se apresenta que não seja o enfrentamento? Biko acreditava ser possível alterar os rumos do país seguindo as máximas de Gandhi e Martin Luther King: sem violência.

Após toda esta guerra civil instalada entre os sul-africanos, quais as vantagens que se podem destacar? Quantos morreram com a discriminação? Poderemos esquecer estas lutas e termos então uma cicatriz perfeita? Um dia deixaremos de lado toda esta diferença racial?

Assistir a Um Grito de Liberdade faz-nos refletir sobre essas questões. Alimenta um debate que a humanidade ainda não conseguiu resolver. Permite falar sobre problemas que ainda existem. Apesar do fim do regime do apartheid, será que a situação de vida dos negros na África do Sul melhorou? Como serão as relações entre negros e brancos neste país hoje em dia? Será que este filme continua até hoje? Ou o roteiro pode ser alterado em detrimento a mudanças?

Ficha Técnica
Título original:
 Cry Freedom
Gênero: Drama
Tempo de duração: 157 minutos
Ano de lançamento (EUA): 1987
País de produção: Inglaterra
Direção: 
Richard Attenborough
Roteiro: John Briley e Donald Woods

Elenco

Kevin Kline (Donald Woods)
Penelope Wilton (Wendy Woods)
Denzel Washington (Steve Biko)
John Thaw (Kruger)
Sophie Mgcina (Evalina)
Joseph Marcell (Moses)

                    

criação: lisandro staut