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Termos contraditórios
Elmer Guzman
História Indiscreta da Ditadura e da Abertura. Brasil: 1964-1985, de Ronaldo Costa Couto. (Record; 517 páginas; R$ 34,00)
Inteligência e Militarismo são dois termos contraditórios. Assim ressurge o período militar (1964-1985) que durou 21 anos. O palco que subsidiou o pesadelo militar, de acordo com o economista Ronaldo Costa Couto em
História Indiscreta da Ditadura Brasileira, foi instável. Em meados de 60, o mundo estava no auge da guerra fria. O capitalismo atacado pelo socialismo, sem contar com a Guerra do Vietnã, símbolo da fragilidade capitalista. Tudo agregado para aumentar a insegurança nacional.
Em meio a este contexto tenso, Jango surge com um discurso digno de Lênin. O receio internacional estava em uma possível transformação do Brasil em uma Cuba continental. Instabilidade internacional é um binômio que o Brasil conhece bem, afinal de contas, a história é cíclica.
Segundo Costa Couto, o golpe, através dos fardados, em nome da democracia abafou a esquerda e os grupos subversivos. E pelo mesmo nome suprimiu a expressão pública. A priori, o golpe teria caráter cirúrgico e provisório, de forma que rapidamente um civil assumisse o poder. Este era o pensamento do general Humberto Alencar Castelo Branco, primeiro presidente militar, mas, infelizmente, o exército não era um bloco monolítico. Muito pelo contrário, ele possui inúmeras facções e correntes. Dentre essas correntes a Linha Dura é a mais radical. Corresponde à direita da direita, a responsável pelo golpe dentro do golpe de 64. Deixando a ditadura mais dura.
Uma história interessante, evocada com uma pesada carga de drama e incerteza. Tudo era documentado nos jornais através de espaços em branco, textos de Camões ou receitas culinárias. O golpe militar machucou a irmã mais nova da democracia: a mídia. Esta foi amplamente reprimida pelos milicos, os quais a utilizavam injustamente. Uma prova disso foi o presidente Médici, que em meados de 70, utilizou o marketing governamental para divulgar a conquista do tri-campeonato para aumentando a auto-estima nacional. Ou até mesmo os incontáveis slogans:
Prá Frente Brasil; Brasil: Ame-o ou deixe-o; Esse é um País que vai pra
Frente.
Os meios de comunicação foram bem explorados pela equipe governamental, na qual participavam, jornalistas, psicólogos, sociólogos, agências de publicidade, sob a batuta da Assessoria Especial de relações públicas, órgão da presidência da República. De acordo com Costa Couto, em 1960, no inicio da ditadura, menos de 10 % tinham aparelho receptor. Em 1970, já eram mais de 40%. A comunicação quadruplicou deixando o povo quatro vezes mais bravio.
Costa Couto retrata a ditadura como um período contraditório. Conforme ele, o período não seguiu totalmente o dizer grafado na bandeira "Ordem e Progresso". Enquanto no pano se lia "Ordem", nas ruas viam-se inúmeras greves, movimentos populares e assassinatos de jornalistas, como Vladimir Herzog pelo SNI (Sistema Nacional de Informações), preso no
DOI-Codi, uma verdadeira masmorra digna do período da inquisição. Enquanto no pano grafava-se "Progresso", a inflação e a dívida externa e cresciam e a moeda se desvalorizava. Ou até mesmo nas palavras do autor, um pseudomilagre econômico.
No parâmetro acadêmico, a fermentação estudantil era crescente. De acordo com o autor, as greves estudantis são consideradas precursoras das greves operárias que brotariam a partir de 1978, sendo que primeira foi a dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Esta projetou nacionalmente o líder Luiz Inácio Lula da Silva, presidente dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Realmente os capítulos finais colocam, de forma crítica, este período de 21 anos como um espinho na garganta dos brasileiros. Mas será que muita coisa mudou de lá pra cá? O que estava ontem no palanque gritando hoje esta nas revistas e jornais dialogando. O dinheiro mudou de nome, mas será que não equivale a mesma coisa? Naquela época o aumento de mais uma estrela na camiseta da seleção aumentou a auto-estima nacional, e hoje?

criação: lisandro staut e
siloé joão |
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