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Vida
dita: dura
Rabo
de foguete - Os anos de exílio, por Ferreira Gullar (Editora Revan; 1998; 269 páginas; R$
40,00)
Larissa Garcia
O golpe militar de 1964 instaurou um governo ditatorial no Brasil. Aos poucos, direitos civis básicos como o direito
à liberdade de expressão foram privados dos cidadãos. Os militares governavam por meio de Atos Institucionais, decretos com a mesma autoridade que as leis do País.
O Ato Institucional N.º 5, promulgado em 1968, foi o mais cruel de todos os decretos militares. Suspendeu os direitos políticos, proibiu a manifestação a respeito de questões políticas e decretou medidas de segurança contra aqueles que se opusessem ao regime.
Entre os que se opuseram ao regime estava o poeta, escritor, jornalista e membro da direção estadual do Partido Comunista do Brasil, Ferreira Gullar. Quando os militares decretaram a prisão dos membros do PCB, Gullar se viu obrigado a fugir. Ali começava uma longa peregrinação por vários países,
como Chile, Argentina e União Soviética. Em
Rabo de Foguete - Os anos do exílio (1998), o escritor narra as memórias dos anos que passou fora do Brasil fugindo da repressão. É um excelente relato autobiográfico sobre a política nos anos do regime militar. Ao presenciar três golpes de Estado, o autor traçou um perfil da situação política e cultural da América Latina em 1960 e 1970, período crítico para o exercício da profissão de jornalista.
Ele não pensava em escrever o livro. Mas, em 1975 teve seu primeiro despertar quando o famoso pedagogo Paulo Freire solicitou alguns textos sobre seu tempo no exílio. Naquele momento ele recusou temendo atrapalhar a vida de alguns amigos. E foi só pelo pedido de sua companheira, a poetisa Cláudia Ahimsa, que Gullar decidiu escrever sobre os anos de exílio.
Tudo começou quando Gullar foi denunciado e teve de arrumar suas coisas para fugir do País. Seu destino era incerto, mas a opção era ir para a
União Soviética onde tinha alguma ajuda por parte do partido socialista das Comunistas Internacionais.
Na União Soviética, Gullar estudou no Instituto Marxista-Leninista, uma escola que formava dirigentes do Movimento Comunista Internacional. Após sua
estada em Moscou, ele se dirigiu ao Chile onde presenciou a queda do governo socialista de Salvador Allende e o golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder.
Persona non grata
Em uma das facetas do livro, Gullar relata uma de suas peripécias para conseguir passar pela vistoria dos representantes do governo chileno. Depois de ter ido embora da
União Soviética, deslocou-se para Lima, capital do Peru, onde tinha ligação comunista com o que
sobrou da esquerda chilena. Lá, arrumou-se como corresponsal
estranjero pelo Colegio de Periodistas de Chile. Com número de inscrição e tudo... Porém, constantemente recebia ameaças da polícia.
Num ímpeto de horror pelas noites dormidas em meio ao medo e desolação, Gullar, que no Chile atendia pelo nome verdadeiro José Ribamar Ferreira, recebeu uma visita inusitada. Era a polícia batendo à porta por volta de seis da manhã. Preocupado, apresentou identificação de corresponsal estranjero e o policiais ficaram
desconfiados.
Gullar mandou que eles ligassem para o Colegio de Periodistas de Chile para verificar a informação. Conseguiram, depois de duas horas desarrumando todas as coisas de Gullar. E ainda, queriam saber de um tal José Serra - é, aquele mesmo que disputou a
Presidência com Lula nas últimas eleições e hoje é prefeito de São
Paulo. Serra passou algum tempo naquela mesma casa e os policiais queriam informações sobre ele. Como de costume, Gullar afirmou que não sabia de nada.
Ele passou boa parte do exílio no Peru. Mas a situação financeira se
agravou e seu filho começou a apresentar sintomas de esquizofrenia. Resolveu partir para a Argentina. Chegando
ao país ficou sabendo da morte de Juan Domingo Perón. Isabelita, a vice-presidente, assumiu o governo, mas sua falta de autoridade e competência abriram caminho para um novo golpe militar. Em meio a tantas idas e vindas, somente em 1977 o poeta voltou, finalmente, para o Brasil.
Além de tudo, percebe-se no livro que Ferreira Gullar tinha uma angústia muito grande em sair do Brasil. Como qualquer brasileiro que lutava contra a ditadura, ele tinha o anseio de ter a sua vida no seu País. E, em alguns momentos do livro, ele menciona: "Já ia para nove meses de clandestinidade e isso me cansava. Sentia falta das noites conversando no bar com os amigos, das manhãs de sol na
praia e, sobretudo, de minha casa, meus filhos meus livros, minha vida."
É uma autobiografia como outras, mas o fato de ter sido escrita por um dos poetas vivos mais admirados do meio intelectual, dá um tom mais prosaico à história da ditadura. Foi uma forma poética de contar a história, diferente de tantos outros relatos sobre a ditadura. Ferreira Gullar não se preocupou com modismos lingüísticos na narrativa. É escancarado. O livro é recheado de palavrões e termos chulos, mas reflete bem a forma como as pessoas viam a ditadura e seu desprezo por ela. Era a sua vida. Felicidades, desesperos, medos e desilusões e esperanças. Era uma vida dita: dura.


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