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Os
altares da Segunda Guerra
Cléia Kattwinkel
"Eu orei com eles e implorei para o meu Deus e deles. Como eu seria feliz se pudesse ter estado dentro das câmaras de gás com eles! Como estaria satisfeito se tivesse morrido a mesma morte deles! Então um uniforme do SS seria encontrado nas câmaras de gás. As pessoas teriam acreditado que fora um acidente, e a história teria sido queimada e esquecida. Mas eu não podia fazer isto ainda. Eu sentia que não podia sucumbir à tentação de morrer com aquelas pessoas. Eu sabia o grande segredo daqueles assassinos."
Esta é uma parte do testemunho escrito por Kurt Gerstein a respeito do que viu e viveu nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1940, ele se alistou no Waffen SS, na tentativa de se infiltrar no Terceiro Reich e obter informações a respeito do
nazismo e seus segredos sujos depois de ter sido informado pelo bispo de Stuttgart que doentes mentais estavam sendo mortos nos manicômios de Hadamar e Grafeneck. Em 1941, sua sobrinha, Bertha Ebeling, morreu misteriosamente em Hadamar. Tremendamente chocado pela morte de Bertha, determinou-se a encontrar a verdade a respeito das numerosas mortes em Hadamar e instituições semelhantes.
Em março de 1941, Gerstein foi integrado ao Waffen SS. Em 1942, foi nomeado para o Departamento Técnico de Desinfetação do SS. Ele era responsável pela produção e eficiência do Zyklon B, produto que deveria ser usado para o tratamento da água dos soldados, mas que acabou sendo deturpado e usado para matar milhares de judeus nos campos de concentração.
Como cristão protestante e pai de família, ficou atordoado com as cenas que presenciou meses depois nos campos de concentração de Belzec e Treblinka. Ficou horrorizado diante da idéia de
se envolver, mesmo que indiretamente, nestas mortes. Ele sabia que era seu dever alertar a todos sobre o que realmente
acontecia, e arriscou a vida falando do que vira para todos aqueles que tinham alguma influência política ou social, inclusive para a Igreja Católica, que nunca chegou a se pronunciar durante o Holocausto - do qual estava bem ciente.
É exatamente esta a discussão que o filme alemão Amém (2001) levanta. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se o Vaticano
agisse energicamente, como quando doentes mentais estavam sendo exterminados nos manicômios. Sob a direção de Constantin Costa-Grava, o filme é uma reprodução fiel do drama vivido por Kurt Gerstein durante o horror do Holocausto. Gerstein reparte o cenário com Riccardo Fontana, um padre que se interessa em saber a verdade sobre as atrocidades praticadas nos campos de concentração. Juntos, eles lutam contra a indiferença do Vaticano, chegando até às últimas conseqüências.
Mesmo não apresentando cenas fortes, como mortes ou sofrimentos dos judeus,
Amém é um filme carregado de uma ideologia muito distinta, bem-explícita durante todo o filme, o que o torna ainda mais marcante. Seu lançamento na Europa, em 2002, foi polêmico em função do cartaz, produzido por Oliviero Toscani, que trazia as cruzes suástica e católica combinadas. O cartaz chegou a ser proibido nos cinemas franceses. Porém, obteve reconhecimento e foi premiado, na própria França, conquistando o Cesar de melhor roteiro, e sendo indicado para outras seis categorias. Verdadeiramente, um retrato fidedigno sobre a indiferença da Igreja Católica para com seus fiéis.
Ficha
Técnica
Título Original: Amen
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 130 minutos
Ano de Lançamento (França): 2001
Site Oficial: www.amen-lefilm.com
Estúdio: Le Studio Canal+ / KC Medien AG / KG Productions /
Katharina / Mediapro Pictures / Renn Productions / TF1 Film Productions
Distribuição: Pathé
Direção: Costa-Gavras
Roteiro: Costa-Gavras e Jean-Claude Grumberg, baseado em peça
teatral de Rolf Hochhuth
Produção: Claude Berri, Andrei Boncea e Michèle Ray-Gavras
Música: Armand Amar
Fotografia: Patrick Blossier
Desenho de Produção: Ari Hantke
Direção de Arte: Maria Miu
Figurino: Edith Vesperini
Edição: Yannick Kergoat
Elenco
Ulrich Tukur (Kurt Gernsten)
Mathieu Kassovitz (Riccardo Fontana)
Ulrich Mühe (Médico)
Michel Duchaussoy (Cardeal)
Ion Caramitru (Conde Fontana)
Marcel Iures (Papa)
Friedrich von Thun (Pai de Kurt)
Antje Schmidt (Frau Gerstein)
Hanns Zischler (Grawitz)
Sebastian Koch (Höss)
Erich Hallhuber (Von Rutta)
Bernd Fischerauer (Bispo Von Gallen)
Pierre Franckh (Pastor Wehn)
Richard Durden (Embaixador Taylor)
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