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Santidade
interrompida
Delton Unglaub
Em nome de Deus homens têm feito grandes milagres, e também muitas maldades. Principalmente, católicos e protestantes têm usado o nome de Deus no decorrer da
História para converter e justificar o extermínio de inúmeras vidas. João Paulo I - o antecessor de Karol Wojtyla - usou o nome de Deus para fazer e pregar o bem. Sua vida tinha apenas um objetivo: fazer da Igreja Católica uma "igreja para os pobres". No entanto, os princípios de João Paulo I entraram em conflito com os "princípios do mal" - daqueles que queriam uma
igreja rica, ou melhor, enriquecer a si mesmos.
Livros foram escritos sobre esta morte, um tanto misteriosa, mas quem mais comoveu foi David Yallop. Seis anos após a morte do papa João Paulo I, Yallop alcançou seu ápice com o livro-reportagem
Em nome de Deus (1984). O livro foi traduzido para quarenta idiomas e vendeu mais de seis milhões de exemplares em todo o mundo.
A pedido de integrantes do próprio Vaticano, Yallop investigou a morte de um papa que pensava diferente da cúria. Os três anos de investigação levaram às verdadeiras
circunstâncias a respeito da morte encomendada. Como aconteceu no passado com outros papas - seres humanos - que pensavam diferente da liderança da igreja, Luciani foi envenenado. A causa da morte, na noite de 28 de setembro de 1978, segundo o Vaticano, foi um "infarto do miocárdio". Porém, não foi feito um laudo pericial de uma
necropsia. A morte foi tomada por mistérios e dúvidas, e com esta motivação, Yallop colocou em dúvida os ensinamentos da Igreja Católica. Seria o Vaticano capaz de assassinar "em nome de Deus" ?
O investigador descobriu como Albino Luciani havia descoberto, durante seu governo, a existência de uma rede de corrupção. Esta era mantida por integrantes de círculos financeiros, políticos, clericais e da máfia num âmbito mundial. Logo, a teoria se comprovava.
Surgiu, então, um dos mais polêmicos e contundentes relatos sobre a morte de Albino Luciani.
O "papa sorriso", como ficou conhecido, era intelectual, influente e falava muitas línguas, inclusive o português. Sua luta era contra a corrupção, que teve início ainda em sua época como padre - Luciani preferia ser chamado de pastor de um rebanho - e perdurou até sua época de bispo, cardeal e, enfim, papa. Luciani era humilde, cortês e se preocupava com as pessoas. Não apresentava interesse por bens materiais. Seu perfil era o idealizado pela maioria dos cardeais e, por isso, indicado por quase 90% deles. Albino Luciani teve apenas 33 dias de pontificado e quando tentava colocar
a casa em ordem, morreu. Ou foi morto?
O autor conta que o novo papa havia iniciado uma revolução. Logo nos primeiros dias de trabalho, João Paulo I iniciou uma investigação sobre o Banco do Vaticano e sobre o presidente, o
bispo Paul Marcinkus. Um pouco antes de sua morte, João Paulo I estava prestes a efetuar uma mudança total nos postos da liderança do Vaticano. A lista de clérigos continha os participantes de um grupo de maçonaria e do P2 - grupo semelhante à maçonaria liderado por Licio Gelli, que justificava a imediata excomunhão de padres, bispos e até mesmo cardeais da Igreja Católica Romana.
Suspeitos de um crime
Para David Yallop, havia seis homens que tinham razões poderosas para
desejar controlar as atividades do papa João Paulo I. Além de Marcinkus e Villot, o banqueiro siciliano Michele Sindona. Ele temia perder sua mais poderosa máquina de "lavagem" do dinheiro da máfia. Outros personagens centrais incluíam o presidente do Banco Ambrosiano, Roberto Calvi; o chefe da mais rica arquidiocese do mundo,
cardeal Cody; e o "Titereiro", que controlava a loja maçônica P2 e por meio dela controlava a Itália, Licio
Gelli.
Em pouco mais de um mês, João Paulo I havia começado diversas ações que, se prosseguidas, teriam um efeito direto e eficaz sobre seu governo. Alguns ficaram assustados, mas a maioria aprovava suas decisões. Uma análise de sua interrompida administração deixou absolutamente claro
que o papa Paulo VI foi sucedido por um homem honesto. E o colapso do império financeiro construído por aqueles que não tinham a mínima ligação com os ensinamentos básicos da
igreja cairia. Não havia dúvida de que Albino Luciani era o homem perfeito para o cargo.
David Yallop evidencia que Cody, Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona e Gelli tinham razões de sobra para temer o papado de João Paulo I. Eles tinham muito a ganhar com a morte súbita do papa. Ele afirma que os fatos e as circunstâncias completas descritas em seu livro contêm a chave para a verdade sobre a morte do papa. "Estou convencido de que um desses seis homens já iniciara, no começo da noite de 28 de setembro de 1978, um curso de ação para resolver os problemas apresentados pelo pontificado de Albino
Luciani. Um desses homens se encontrava por trás de uma conspiração que aplicou a Solução Italiana",
relata Yallop.
A morte de João Paulo II ressurgiu à mesa de discussões as dúvidas que David Yallop desvendou. Na história de Em nome de
Deus, percebe-se que João Paulo I tinha princípios claros, e que estes eram diferentes da liderança do Vaticano. A luta contra a corrupção o levou à morte. Já seu sucessor não teve problemas com a cúria. Por quê?


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