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A vida publicada pelos palcos 

Rômulo Gomes 

Drama, comédia, suspense, terror, aventura. A vida tem seus momentos célebres. E toda manifestação dessas facetas provoca sensações nas pessoas que só são possíveis de serem verificadas contando e revivendo histórias. Talvez, esta seja a mais simplória e sucinta explicação do que é o teatro. Entretanto, descrever o que é o teatro, da maneira que seja, torna-se uma ação que minimiza sua importância. A solução mais simples seria inventar um estilo teatral que trate do teatro em si. Uma função metalingüística do termo. Como ainda não existe nada a respeito, resta retratá-lo como é publicado e comentado. Neste caso, cada teatro tem a sua peculiaridade. 

Desde o surgimento e afirmação da editora Abril no Brasil, muitos foram os motivos que levaram a editora a se preocupar de maneira mais prática com o seu público. Uma delas deu-se com a criação do Teatro Abril, em 2001. Uma iniciativa que deu muito que falar, contar, rir, chorar e todos os sentimentos e reações que se possa imaginar. Porém, a história do teatro é um pouco mais antiga e gera outras complicações.

Inaugurado em 1929, sob o nome de cine-teatro Paramount, o Teatro Abril foi uma iniciativa que se afirmou como referência da cultura paulista. Considerado "um dos mais tradicionais teatros da cidade", segundo o site Guia SP, é uma das principais referências em promoção de eventos da cidade. O Guia menciona ainda que o Teatro Abril "foi o pioneiro na América Latina em exibição de filmes sonoros", além de receber artistas como Nat King Cole, Louis Armstrong e Maurice Chevalier. Foi ainda palco dos famosos festivais promovidos pela TV Record em 1960. Nele foram descobertos artistas como Edu Lobo e Capinam, que venceram o Festival da Record de 1967, com a música Ponteio. No ano seguinte, Tom Zé levaria o primeiro lugar no mesmo festival com São, São Paulo, Meu Amor.

Publicações teatrais

Entre o que já foi publicado sobre o Teatro Abril, quando ainda cine-teatro Paramount, encontra-se a descrição que Otávio Gabus Mendes, correspondente paulista da revista Cinearte, faz na edição de 24 de abril de 1929: "São Paulo lucrou com isso. Principalmente, por ter um dos melhores cinemas da América do Sul, e além do mais pelo fato de terem sido nele introduzidos, antes de qualquer outra localidade da América do Sul, aparelhos movietone e vitaphone, que tanto vem dando comentários às empresas cinematográficas mundiais", escreveu Gabus Mendes. 

No livro, Salas de cinema em São Paulo (1990), de Inimá Simões, é encontrado um comentário do jornalista, advogado e poeta, Guilherme Almeida, durante o período em que trabalhou para o jornal O Estado de S.Paulo. Nele, o jornalista também menciona o luxo e beleza do teatro: "Paramount acaba de dotar esta capital com um novo cinema perfeitamente à altura do nosso progresso. Sóbrio e elegante, todo construído, decorado e mobiliado com o intuito de proporcionar o máximo conforto". Era a visão que os paulistanos tinham da cidade e dos recursos culturais que ela oferecia.

Mas um baque em 1969 fez com que o teatro fechasse por dez anos. Um incêndio foi responsável por destruir grande parte de suas instalações e, a partir daí, uma série de insucessos aconteceram entre fechamento, interdição e recuperação do teatro pelo Grupo Abril e a Corporación Interamericana de Entretenimiento (CIE). Parte deste problema aconteceu durante um período curioso em que várias redes de televisão pegaram fogo. No mesmo ano ocorreram incêndios no Teatro Consolação da TV Record, na TV Globo de São Paulo e na TV Bandeirantes. 

Porém, mesmo com a reconstrução, outros assuntos tornaram-se polêmicos a respeito desta e outras casas de espetáculo com a responsabilidade cultural. Segundo o musicólogo, crítico, historiador e professor titular da área de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, Arnaldo Daraya Contier, em palestra proferida no Colóquio Internacional Cultura Século XXI - Cooperação Internacional, Sociedade Civil, Educação e Cultura, a discussão torna-se ferrenha quando se admite que "as companhias de teatro, durante as décadas de 1960 e 70 (...) que basicamente tinham elencos fixos baseando-se num teatro de repertório de altíssima qualidade (...), sobreviveram em função, basicamente, da arrecadação da bilheteria", comenta. Enquanto, atualmente, preocupam-se com patrocínios, eventos de grandes marcas entre outros. 

Ele afirma, ainda, que o que se vê hoje é fruto de uma certa monopolização cultural. Para ele, muitas marcas patrocinam algumas casas de espetáculos para evitar seus possíveis fechamentos. Daraya Contier afirma ainda que isso é tido como "moda" hoje em dia. Como exemplo, ele cita o ex-Palace que se transformou no Direct TV Music Hall, o ex-Paramount no atual Teatro Abril, a ex-sala São Luis no Espaço Promon, o Credicard Hall, o Teatro Alfa (do Grupo do Banco Real), o Teatro Vivo, entre outros exemplos.

Por outro lado o arquiteto, mestre e doutor, professor da Universidade São Marcos, assessor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e conselheiro do Conselho Regional de Arquitetura e Urbanismo (CREA) de São Paulo, Haroldo Gallo, acha que a iniciativa pode ser uma boa ajuda para a reforma dos teatros tanto na recuperação do espaço físico quanto cultural. De acordo com ele, "trata-se de um bem de propriedade privada tombado que tem seu uso mantido e foi restaurado e restituído à vida pela ação total da iniciativa privada". Gallo afirma que isso se tornou possível com o despertar da iniciativa privada ao reconhecer que "o fato de que o bem de interesse cultural também é um negócio e tem valor econômico agregado".

Gallo compreende que o Estado tem uma grande responsabilidade, mas que não é capaz de fazer todo o trabalho sozinho. "O estatuto do tombamento, que defendemos ardorosamente, é um mal necessário e está longe de se constituir como a forma ideal de preservação cultural", afirma.

Responsabilidade cultural

Mas, de fato, o que preocupa o historiador Daraya Contier é a alienação e baixa produção cultural que pode ocorrer com a produção artística baseada nos negócios e não na cultura. Como exemplo, pode-se citar a CIE, mesma corporação que junto com o Grupo Abril comprou e reformou o Teatro Abril. Além deste, a CIE possui também o Credicard Hall, DirecTV Music Hall e Claro Hall.

Isso criou não só uma programação dependente, como também mesclada de elementos incomuns da cultura erudita e popular. Para o público, não há distinção entre um e outro. A revista Bravo! exemplificou isso na edição de fevereiro de 2004, mostrando como Zeca Pagodinho uniu a "baixa com a alta cultura" por ter vendido 400 mil CDs e 80 mil DVDs. Daraya Contier complementa que "a distinção entre a cultura erudita e a popular foi substituída". Para ele, o "pensamento crítico pausadamente vai desaparecendo num mundo onde se valoriza a cultura do dinheiro, do mercado, da velocidade e da eficácia das gestões marcadas pelos enxugamentos e fantasias (os musicais da Broadway encenados no Teatro Abril, de São Paulo: Os Miseráveis, A Bela e a Fera e Chicago) são alguns exemplos".

O que se percebe hoje é que realmente as pessoas têm se envolvido mais com teatro e manifestações culturais afins. E o Teatro Abril foi uma iniciativa efervescente dessa proposta. O que se vê hoje no Brasil é um crescente interesse público pelo teatro comparado com décadas anteriores.

Se por um lado, tem-se vários teatros em São Paulo, ao mesmo tempo parece não existir nenhum, ou melhor só um, já que o que se passa nele é o mesmo que aparece em outros. O Teatro Abril com toda a sua "suntuosidade", conforme os guias culturais de São Paulo, realmente tem muita história para contar, mas, fazê-lo nos palcos tem se tornado uma árdua tarefa.