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Grande,
mas indiferente
Vanessa Candia
Elefante (2003) de Gus Van Sant não é, assim como Tiros em Columbine (2002), uma reconstituição do crime ocorrido em 2 de abril de 1993, em Columbine, Estados Unidos. O objetivo maior do autor é ressaltar um problema que rodeia as escolas norte-americanas - e, conseqüentemente, as brasileiras: a violência.
Tanta agressividade gerou muitas coincidências. No mesmo ano em que os dois garotos, Alez Frost e Eric
Deulen, mataram mais de treze alunos e um professor, no Brasil, o estudante de medicina Mateus da Costa Meira entrou no
cinema atirando e matou três pessoas, deixando outras feridas. Muitos filmes foram feitos, contudo,
Tiros em Columbine, do polêmico Michael Moore e Elefante foram os mais comentados. Ambos foram premiados: o primeiro com o Oscar, o segundo com a Palma de Ouro em Cannes.
No entanto, apesar do homicídio ser o tema principal das películas, a forma com a qual os diretores abordam o assunto são bem diferentes. Moore reconstitui o fato. Já Sant quis levar a uma reflexão, uma profunda - bem profunda - reflexão. Na verdade, é o tipo de filme que faz com que o telespectador permaneça por um bom tempo sentado na poltrona se perguntando: Por quê? Por que aqueles garotos fizeram aquilo? Por que aquelas pessoas? Por que
Elefante?
O filme retrata como foram a primeiras e as últimas horas dos alunos de Columbine, que era considerada uma das melhores escolas dos Estados Unidos. Sem muito diálogo, o diretor explora fatos comuns do dia-a-dia de estudantes normais, causando ao mesmo
tempo uma aproximação e uma frieza frente aos personagens. Sem muito diálogo, eles são mostrados por vários ângulos e perspectivas.
O que pode ser ressaltado como ponto forte do filme é sua filmagem não-linear, o abuso de ângulos e uma repetição das cenas que, ao mesmo tempo em que pode ser entediante, é fascinante como
Van Sant consegue transformar cenas monótonas em atrativas. Apesar dos poucos 80 minutos, a imersão do telespectador é tamanha que parece ter passado, literalmente, toda a manhã do crime.
Mas, por que Elefante? Van Sant alega que quis prestar uma homenagem ao cineasta inglês Allan Clarke que usou um ditado chinês num de seus filmes sobre a violência na Irlanda:
"um elefante na sala de estar". Ou seja, o problema está ali, mas ninguém se incomoda com ele.
Muitos motivos são trazidos à tona como prováveis causas do crime. Preconceito, humilhação, descaso dos pais,
games, acesso fácil a armas e outros. No entanto, entre tantos motivos, é possível perceber uma maior ênfase para os jogos de videogames. Enquanto Alex e Eric matam as pessoas, as cenas são semelhantes com as de um jogo mostrado cenas antes da matança. Sant mostra a arma do mesmo ângulo de visão da tela do computador, quando Eric jogava o
game. E até durante o assassínio, eles correm pelos corredores como se estivessem competindo entre si, para ver quem mataria mais pessoas.
Mas até onde um crime como esse pode afetar ou até influenciar outros adolescentes é uma questão que incomoda. Pois, juntamente com o crime em Columbine, adolescentes em vários lugares dos Estados
Unidos e mesmo do mundo cometeram atentados semelhantes. Até que ponto imagens ou fatos como esse podem influenciar adolescentes aparentemente
inofensivos?
Segundo o jornalista Mauro Malin, o "impacto de uma imagem, de uma palavra, de uma vivência pode levar dias, semanas, meses ou anos para se cristalizar em ato". Quanto aos suicidas de Columbine é sabido que eles eram admiradores de Hitler e, coincidência ou não, 20 de abril era aniversário do ditador.
O final do filme leva a alguns questionamentos, pois termina não mostrando que punição os adolescentes tiveram. Muitos sabem que os adolescentes se mataram, no entanto, mostrar uma matança gratuita daquela, sem nenhuma conseqüência não seria um incentivo para que outros jovens cansados de serem rejeitados e excluídos sigam o mesmo caminho?
Elefante, apesar de ser um filme feito por adolescentes, não é um filme para adolescentes. É um filme feito para os pais e para pessoas responsáveis pelos adolescentes.
O intuito de Van Sant era simplesmente apresentar o problema e, principalmente, o modo com que as autoridades responsáveis tratam o assunto: uma frieza perturbadora do início ao fim do filme. Quanto ao elefante, enquanto ele está quieto e imóvel na sala, nada acontece. O problema é quando ele resolve se
locomover - aí o resultado é devastador.


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