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Jogo das intenções

Allan Novaes

Pragmática do Jornalismo, de Manuel Carlos Chaparro (Editora Summus; 136 páginas; R$ 20,00).

Imagine a seguinte cena: Em uma reunião de pauta de um dos maiores jornais do País, além de editores e pauteiros, verifica-se a presença de um pós-graduando em Jornalismo e uma pesquisadora-bolsista financiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) - pessoas não-pertencentes ao corpo de funcionários do veículo e não muito benquistos por ele. As sugestões temáticas são seguidas por olhadelas desconfiadas e mal-humoradas. 

Na rua, o repórter designado é acompanhado pela pesquisadora, que faz suas próprias anotações para compará-la com o texto a ser publicado no dia seguinte; a contragosto do repórter, é claro. Depois, lê-se o texto publicado e se reconstitui o percurso do repórter até chegar à conclusão, captando-se também os depoimentos de pauteiros, editores, repórteres e fontes. Esse trabalho, cuja aplicação provocou previsível resistência dos jornalistas do veículo, foi feito por Manuel Carlos Chaparro e exposto no livro Pragmática do Jornalismo - Buscas Para uma Teoria da Ação Jornalística.

Essa pesquisa polêmica originou-se da preocupação de Chaparro em investigar as intenções que motivavam um jornal na produção de informação. O jogo de intenções que molda o cotidiano das redações, das mensagens e dos princípios éticos do jornalismo é o objeto central da proposta do livro. Exibindo as incongruências e contradições do fazer jornalístico, derrubando os muros da objetividade e revelando as peripécias do poder manipulador de informações, Chaparro contribui para "um entendimento crítico da práxis jornalística no Brasil", respondendo aos seguintes questionamentos: Como se manifestam as intenções que controlam as mensagens jornalísticas na imprensa brasileira? Que interesses estão conectados a tais intenções?

Em iniciativa pioneira, Chaparro conseguiu descobrir algo que todo leitor assíduo, e até inúmeros profissionais da área - cuja posição hierárquica inferior impossibilita - desejam saber: quem são os poderosos do jornalismo que, com um sim ou com um não, modificam a opinião pública e como a própria pesquisa levantada para a confecção da matéria pode ser adulterada pela opinião e sugestão do profissional.

Além disso, a capacidade de decidir o quê e como informar é amplamente discutida por Chaparro como determinante da ação jornalística. Leitura essencial àqueles que buscam fugir do óbvio ou do que é revelado mediante os manuais de redação, assim como fascinante para aqueles que esperam conhecer mais o trabalho de ombudsman, embora com linguagem teórica.

A análise das reportagens em suas minúcias e tendências revela os bastidores da prática jornalística, fazendo cair por terra o dogma da imparcialidade. Depois de Pragmática de Jornalismo é difícil ler qualquer jornal sem lembrar-se das censuras dos manuais de redações, dos mandos e desmandos dos editores e das intervenções incômodas e pessoais dos próprios repórteres nas matérias. Após envolver-se com a obra, resta ao leitor de jornais a surpresa desagradável de descobrir que a menina de seus olhos é uma legítima Lolita. Já os jornalistas experientes se contorcerão de raiva - assim como fazem os mágicos ao descobrir que um dos seus revelou segredos e truques ao público mortal.

Por fim, ressalta-se a mensagem conclusiva de Chaparro encontrada propositadamente na dedicatória da obra. Ao desmascarar a tendenciosidade dos jornais brasileiros em tom pessimista, Chaparro destina seu trabalho a todos os leitores "que ainda confiam no seu jornal", "para que não acreditem tanto".

                   

criação: lisandro staut