editorial | debate | opinião | perfil 
imprensa em foco
| mídia | cultura
 leitor | e-mail | expediente | inicial

Reprovados na escola

Fabiana Amaral

Caso Escola Base - Os Abusos da Imprensa, de Alex Ribeiro (Editora Ática; 168 páginas; R$ 22,60).

Que se têm notícias de abusos pela imprensa no nosso cotidiano não é nenhuma novidade. Os problemas vão do simples ato de não conferir a informação ou não consultar a fonte primária, até distorcer completamente os fatos para causar as mais constrangedoras e cruéis conseqüências. Um episódio digno de exemplo do que não fazer foi o da Escola Base, um grupo escolar de São Paulo que foi destroçado injustamente e que ficará eternamente como mais uma mácula no jornalismo brasileiro.

O livro Caso Escola Base - Os Abusos da Imprensa, do jornalista Alex Ribeiro, traz uma preciosa narrativa sobre o comportamento da mídia neste episódio ocorrido em 1994. De forma a esclarecer os bastidores do crime cometido pelo jornalismo brasileiro, o autor apresenta a cúpula de culpados que se esconde atrás das cadeiras de chefia, colocando todo descrédito e culpa em cima dos repórteres, na verdade os menos culpados.

Tomando como base a ética na imprensa - ou mais sensatamente falando, a falta dela -, o livro-reportagem analisa cada fato, desde o dia em que um garotinho fala que já tinha visto imagens obscenas e seus pais atribuem o "crime" à escola e suas professoras. Na verdade toda a salada começou quando os pais deram queixa na polícia e um repórter da Rede Globo se preocupou mais com o "furo" do que com a seriedade do trabalho. O repórter em questão é Valmir Salaro, até hoje funcionário da referida emissora.

Todavia, cabe lembrar que nem tudo nesta história foi sujeira. O Diário Popular saiu incólume do episódio, por manter a postura ética e não noticiar um só parágrafo sobre o assunto. É importante ressaltar, pelo fato de que este jornal diário teve verdadeiro acesso ao suposto local do crime e informações da polícia em primeira mão. Mas comunicando aos superiores, o repórter afirmou durante todo o tempo não ter nenhuma prova contra os acusados. Então o Diário mostrou o que deveria ser adotado como jornalismo sério por toda a imprensa tupiniquim.

A narrativa séria e consistente apresenta o desenrolar dos fatos, desde que a imprensa toda - mesmos os veículos tradicionais - se alvoroçou sobre a escolinha como abutres. Todos os veículos acusaram, expuseram, julgaram e condenaram aqueles que, na verdade não tinham culpa de nada. O fim deste episódio todos conhecem, mas a maldade e falta de profissionalismo da imprensa brasileira no caso Escola Base, merece ser lido e relido por todos os que se preocupam com o tipo de informação que recebem.

Mais que isso, o livro deveria ser obrigatório a todos os estudantes de Jornalismo, que desde cedo são estimulados ao sensacionalismo barato que de nada serve a não ser para acariciar o próprio ego. É bom lembrar que além de sórdido tem que ser muito retardado para achar que é jornalismo o que fazem. Tem que ser muito medíocre para pensar que destruir a honra de várias famílias em nome da notícia é jornalismo.

Não é muito diferente do que se vê hoje nos noticiários. Mesmo porque não teria como ser diferente, já que não ser refere a um período tão remoto. O estranho é que esses mesmos imbecis que destroem a vida alheia não têm a menor vergonha - ingenuidade minha querer que tenham - de falar que são jornalistas. São é assassinos, psicopatas, sem-vergonhas, que nada de útil acrescentam à sociedade e que nem mereciam ser considerados por esta.

Entretanto, se juntam a outro bando, ou bandos, melhor dizendo. Neles podemos incluir os pseudopoliciais, que prestam um desserviço à comunidade que obrigatoriamente deveriam servir; os diretores dos jornais que têm o dever e o poder de cortar de suas laudas abusos grotescos como estes; o público que delira e alimenta essa industria carnificina. Todos fascinados com a amplitude de alcance da imprensa.

São, em meu ver, uma sociedade paralela de abutres, ou pior que isso. A leitura desta obra enoja os seres comprometidos com jornalismo de verdade e que sofrem as conseqüências de maus profissionais. Seria interessante que toda a massa tomasse conhecimento das tramas que envolveram esse crime, mas seria pedir demais. A menos, é claro, se viesse o livro carregado de sangue de outros inocentes, daí sim os vermes o devorariam. A imprensa mostrou novamente que foi reprovada na escola.

                   

criação: lisandro staut