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Desabafo norte-americano

Dayse Bezerra

Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas, de Michael Moore (Editora Francis; 2003; 288 páginas; R$ 22,60) 

Ofender uma pessoa é um ato ousado e corajoso, imagine intitular uma nação inteira de "idiotas". O crítico norte-americano Michael Moore superou a ousadia, com muita sátira e provocação em sua obra que se transformou no best-seller do momento, Stupid White Men - Uma Nação de Idiotas. Sua mira: o atual império do mundo, os Estados Unidos e seu governante atual, o "presidente" George W. Bush, de cujo título nunca tira as aspas. 

Se Michael Moore quis chamar atenção com o título Stupid White Men, conseguiu. Pois mesmo sendo um ataque à própria nação, os norte-americanos, curiosos ou enraivecidos, buscaram ler o polêmico livro. Sem poupar palavras, o título dos capítulos desperta para a ousada leitura ainda mais apimentada, com palavras duras, humorísticas, outras diretas e ríspidas ao "presidente" Bush. Este, segundo Michael, não foi eleito pelos votos da população americana, e sim resultado de uma manipulação na contagem dos votos por "estúpidos homens brancos". Ou seja, pela cúpula do governo mais poderoso, de origem familiar.

Quase como um enterro precoce, Stupid White Men, antes mesmo de ser lançado, enfrentou conflitos que podemos definir como censura. Mas seu autor lutou por seus direitos à liberdade de expressão e imprensa para com a editora Haper Collis, que tentou impedir a venda. Tudo porque, próximo à data do lançamento, aconteceu o ataque às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Isso fez com que a editora por "razões de segurança" não colocasse à venda os 50 mil exemplares já impressos. 

Com o incentivo de alguns bibliotecários, Michael decidiu entrar na internet e propagar via e-mail na sua lista de contatos. E qual foi sua surpresa? Em poucas horas, os primeiros 50 mil exemplares foram vendidos, chegando ao quinto dia em sua nona edição. Nem a editora conseguia entender e acompanhar a grande demanda, pois o livro que parecia "não estar em sintonia com o povo americano", conforme afirmara o escritor, estava a caminho de tornar-se um best-seller.

Por que escrever contra sua própria nação? Parece que Moore está bastante revoltado com o seu país. Não se conformou com a posse do "presidente" Bush nas eleições de 2001, e pensou: tem algo estranho nessa vitória. Então resolveu ir a fundo em suas investigações, por meio de contatos confidenciais, artigos de jornais impressos e televisivos, telefonemas e o uso constante de sua inteligência irônica para descobrir o grande golpe. 

O livro deixa bem claro com todas as palavras que o "presidente" George W. Bush é um "ladrão-chefe", e quem deveria assumir era Al Gore, do partido oposto. Uma disputa entre republicanos e democratas, chefes e chefões. E o povo? Irrelevantes que continuaram acreditando no discurso sobre a paz mundial. Moore não se calou, e com verdades apuradas resolveu acordar sua nação.

Pode ser até uma controvérsia, mas como se fosse "amigo íntimo" do seu inimigo número um, o escritor escreveu um capítulo dedicado ao "presidente" Bush, "Caro George". Sem medo de desmascarar seu "presidente", revela os segredos de família Bush, suas decisões governamentais e mancadas políticas como "presidente" dos Estados Unidos. O mais ousado é que ele encerra a carta dizendo: "Em suma, você já foi bêbado, ladrão, um possível criminoso, um desertor não processado e um bebê chorão. Você pode classificar essa declaração como cruel. Eu chamo 'amor de verdade'. Respeitosamente, Michael Moore."

Quem não conhecia a outra face do país, agora os norte-americanos descobriram que seu mundo não é tão perfeito assim. Moore afirma que a economia norte-americana está nas mãos dos mais ricos, e quem paga por meio de impostos as regalias desses poderosos é a população de classe média baixa. Algo familiar. 

Mas para quem procura deixar os norte-americanos nervosos basta chamá-los de branquelos. Moore foi um destes que escreveu em letras grandes "Matem os branquelas". Além de expor os problemas sociais de seu país, como a forte discriminação racial entre brancos e negros, criticou a educação norte-americana e a crescente deficiência da população quanto à informação sobre assuntos políticos e econômicos. Apesar de provocar, sua intenção também era despertar o senso crítico dos eleitores americanos e, quem sabe, futuros presidentes da nação.

Com todas as suas forças, Uma Nação de Idiotas busca alertar o povo americano, "os 4% mais arrogantes do mundo", segundo o autor. Moore descreve uma lista enorme destacando as vinte nações mais industrializadas do mundo. Nem o sistema judiciário ficou de fora das críticas de Moore, quando relembrou que todos os cidadãos possuem direitos humanos, e "com liberdade e justiça para todos".

Tanta revolta implícita no livro foi o meio encontrado pelo escritor de desabafar e representar muitos que não tiveram a coragem de enfrentar o grande império, e alertar aqueles que se encontram no perfil de Michael Moore. Estúpidos homens brancos.

                   

criação: lisandro staut