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Quando é Dia de Futebol

Dayse Bezerra 

Quando é Dia de Futebol, de Carlos Drummond de Andrade (Editora Record; 2002; 276 páginas; R$29,90)

Quem pensa que só narradores e comentaristas esportivos são os mais entendidos de futebol, enganou-se. É de se admirar que tal paradigma fora quebrado pelo escritor Carlos Drummond de Andrade em sua obra Quando é dia de futebol, publicado em 2002, que reúne a seleção de artigos, crônicas, poesias e cartas de sua autoria. Uma revelação inédita do esporte brasileiro, "paixão nacional", com um ar literário futebolesco, acompanhada de críticas, ironias e fazendo um paralelo à política do País em variados períodos que coincidem as copas mundiais.

Pra quem já escreveu e publicou sobre diversos assuntos, o futebol não poderia ficar de fora de seu acervo. E mesmo sem a intenção de publicar um livro a respeito do assunto, o escritor externou o instinto brasileiro de legítimo torcedor. Seus netos, Luiz Maurício Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, descobriram por meio de pesquisas em bibliotecas, acervos e manuscritos, que seu avô já escrevia sobre o tema há mais de cinqüenta anos e que também torcia pelo Vasco da Gama.

Numa minuciosa seleção de textos de Drummond, seus netos fizeram a obra Quando é dia de futebol, pela Editora Record. E surpresas não faltam no livro, pois fragmentos selecionados, e outros extraídos de jornais, retratam o histórico das Copas do Mundo de 54 e de 86, apresentando o torcedor brasileiro em seus momentos de derrotas e vitórias.

Carlos Drummond de Andrade revela nos textos um pouco de sua identidade, seu lado revoltado, preocupado, realista e até sugestivo sobre o futebol. Pode parecer sem nexo envolver a política com o esporte, mas num jogo de palavras a harmonia se completa ao fazer o paralelo com a política brasileira, que na época parecia querer consolar a população com os "feitos heróicos" do futebol, escondendo a verdadeira crise do País, que era de inflação, desemprego, dívida e confusão política. Perdendo ou ganhando o jogo, parece que o futebol era só festa. E não mudou muita coisa.

Com um vocabulário rebuscado de significados e palavras em outros idiomas, o escritor descreve a agonia torturante de ser um torcedor brasileiro - sendo esse o que mais sofre em uma partida de futebol. Como torcedor, ele procura alertar seus companheiros, e para reforçar a ajuda, escreveu a "Prece dos torcedores", outros versos poéticos e até o "Sermão da planície" com as bem-aventuranças do futebol.

Em uma de suas crônicas enfatizou que a solução para muitos brasileiros quanto à democracia política no período das eleições poderia ser resolvida com a vitória do futebol. Como exemplo, a Copa de 78 com a Argentina. As esperanças para muitos estavam sendo esquecidas, mas como ele já dizia: "Perder implica remoção de detritos: começar de novo." (Jornal do Brasil, 7 de julho de 1982). Um conselho ideal para a política do País.

Um destaque para as homenagens. O páreo duro entre Pelé e Carlos Drummond. O futebol na ponta dos pés com o futebol na ponta dos dedos. A dupla perfeita de quem fez história por "dominar o que faz". O autor caprichou num capítulo, "Pelé, o mágico", afirmando que o rei do futebol era uma máquina de fazer gols, e que o resultado disso era seu caráter competente, humilde e determinante, cujo melhor amigo era a bola nos pés. Talvez o poeta se identificou com tais qualidades. E mesmo não sendo um craque nos pés, com as mãos escreveu: "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé."

A homenagem foi recíproca. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, prefaciou a obra de seu torcedor Carlos Drummond de Andrade com admiração pela competência de dominar a arte de escrever com as mãos ao dizer que "recebeu dos céus atenção privilegiada". E com a mesma intenção parafraseou: "O difícil, o extraordinário, não é escrever mil textos, como Drummond. É escrever um texto como Drummond."

O futebol existe no campo, na política e na vida de cada brasileiro. Como símbolo de união, o Brasil pára, ouve e assiste ao momento mágico da partida. Para Drummond "é como um ato de amor". Paixão entre torcedores e jogadores em uma única data: Quando é dia de futebol.  


                                        

criação: lisandro staut