editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
mídia eletrônica 
| cultura | perfil | nostalgia
  olho vivo | canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial


O evangelho de Bush segundo Michael Moore 

Fernando Torres

Lila Lipscomb, uma assistente social moradora de Flint, no Estado de Michigan, só percebeu a inutilidade da Guerra do Iraque quando seu filho, um dos soldados americanos responsáveis pela ocupação, faleceu no campo de batalha. Nas palavras dela, durante os minutos finais de Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11, Estados Unidos, 2004), foi necessário uma tragédia para que houvesse conscientização. 

Infelizmente, consciência é a última coisa que este mais recente documentário de Michael Moore consegue produzir. Grande expectativa rondou o lançamento de Fahrenheit, em parte por causa da ovação de seu filme anterior, Tiros em Columbine, vencedor de Oscar em 2003, em parte por sua temática bombástica. Contudo, a discussão do grande mal do século 21, o terrorismo, e, por extensão, da guerra, transformou-se, somente, em uma grande contra-propaganda eleitoral contra George W. Bush - ao que parece, a única intenção do cineasta. Além disso, o filme não é exatamente o que poderia se chamar de "empolgante".

Este primeiro ruído de Fahrenheit é puramente uma questão de cinema. O filme é truncado, chato e cansativo em muitos momentos e, à platéia casual de quarta-feira à noite deve servir como sonífero. A presença física de Moore, explorada em Columbine, raramente acontece e compromete o ritmo do filme. A fórmula satírica, por sua vez, continua a mesma, mas dá sinais de desgaste. A linha do tempo também é abrangente demais, ocasionando conexões vagas.

Mas também há bons momentos, como a metáfora western de Bush e sua "gangue" ou o confronto com deputados em prol do alistamento de seus filhos na guerra e, até mesmo, o hilário comercial de pára-quedas. Tais alfinetadas conseguem deixar a narrativa mais leve, mas, ainda assim, não solucionam o todo. 

Desonestidade

O outro ruído é mais sério, pois envolve a ideologia da trama. Não se espera de um documentário imparcialidade, mas exige-se dele, como jornalismo de extensão, honestidade e responsabilidade. Isso é tudo que Fahrenheit não é. Além de supor "com exatidão" - isso mesmo, o filme supõe - o que estaria por atrás das atitudes e decisões de Bush e até seus pensamentos, Moore coloca todo o peso do imperialismo norte-americano sob as costas de uma pessoa só, o presidente.

O cineasta não se concentra no problema, mas dedica forças para retaliar aquele que, para ele, seria seu causador. Assim, o filme se resume à via sacra de um governante relapso, apalermado e mais preocupado com as finanças da própria família. Não que não haja verdade parcelas de verdade nisso, mas a superfície é insuficiente para detectar as raízes dos problemas norte-americanos.

Ironicamente, Moore age como o próprio Bush ao tentar convencer o povo americano a apoiar a Guerra do Iraque - divide o mundo entre bons e maus, conduz estatísticas, manipula, sensacionaliza e omite fatos. Tome-se como exemplo as imagens do Iraque antecedentes à guerra, exibindo crianças felizes e mulheres sem burca, viventes em um delicioso paraíso. Ora, apesar da proximidade geográfica, Iraque e Jardim do Éden atendem por endereços diferentes, vale lembrar.

Pessoas medianamente bem-informadas sabem que Bush não foi um bom presidente e que a Guerra do Iraque foi inútil. As mesmas também não se surpreendem com a relação das famílias Bush e Bin Laden e a realeza saudita ou com a ausência de armas de destruição em massa no Iraque: aqui e acolá, esses dados estiveram na mídia brasileira e, certamente, perpassaram pela imprensa americana. Estas, portanto, saberão separar o joio do trigo. O problema é que o filme, mesmo sendo um documentário, não se dirige à elite, mas às massas desinformadas, incapazes de filtrar os dados. Com elas não ocorre conscientização; apenas manipulação. A compreensão dos males do terrorismo e da guerra só fica mais distante após Fahrenheit.

Por conta do maniqueísmo infantil, mas eficiente para ludibriar as massas, Moore perde uma ótima oportunidade de refletir sobre os horrores e inconseqüências da guerra. Neste sentido, o final do brasileiro Olga (Jayme Monjardim), para ficar em um exemplo atual, é muito mais útil, mesmo ao dar nome às vítimas da Segunda Guerra e beirar o sentimentalismo. Nos minutos finais, Fahrenheit também segue essa fórmula e ensaia princípios nobres. Apenas para, logo em seguida, voltar ao argumento inicial. 

Conta bancária, linchamento e documentário

O saldo das reinações de Michael Moore equilibra-se entre o positivo e o negativo. No caso do próprio cineasta, há algumas vantagens: sua conta bancária está bem mais polpuda por conta da renda mundial próxima dos 140 milhões de dólares e da repercussão do filme. Em contrapartida, o grande objetivo de Moore, impedir que o presidente republicano candidato à reeleição vença o pleito em novembro, está longe de ser alcançado. Eleitoralmente, Fahrenheit tem o mesmo peso da Copa de 2002: nenhum. Segundo as mais recentes pesquisas, Bush tem muitas chances de continuar no governo dos Estados Unidos por mais quatro anos.

A consciência política do povo também não deve sair do lugar. Por enfatizar pessoas e não problemas, emoções e não reflexões, o máximo que ele consegue é causar repulsa. Terminada a sessão, a platéia sangüínea conclui que Bush é a própria encarnação do mal e seu desejo imediato é linchá-lo. Pode ser até funcionar como catarse, mas não traz solução alguma.

Os maiores saldos são cinematográficos. O fato de ter recebido a Palma de Ouro no Festival de Cannes, principal prêmio de cinema europeu, mostra uma mudança de pensamento em relação ao cinema documental. Michael Moore conseguiu abrir espaço para um gênero até pouco tempo ignorado e esta é sua grande virtude. Super Size Me, de Morgan Spurlock, demonstra essa tendência.

Fahrenheit, portanto, deve ser lembrado como um filme mediano, ideologicamente desonesto e duvidoso, mas, ao mesmo tempo, responsável por inserir definitivamente o gênero documentário na rotativa do cinema.



   


Ficha Técnica

Título Original:
Fahrenheit 9/11 
Gênero:
Documentário
Tempo de Duração:
116 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
2004
Site Oficial:
www.fahrenheit911.com
Estúdio:
Miramax Films / Lions Gate Films Inc. / Fellowship Adventure Group / Dog Eat Dog Films 
Distribuição:
Lions Gate Films Inc. / IFC Films / Europa Filmes 
Direção:
Michael Moore 
Roteiro:
Michael Moore
Produção:
Jim Czarnecki, Kathleen Glynn e Michael Moore 
Música:
Jeff Gibbs e Bob Golden
Fotografia:
Mike Desjarlais
Edição:
Kurt Engfehr, Todd Woody Richman e Chris Seward

 

Elenco 

Michael Moore

                   

criação: lisandro staut