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Ética
minada
Thiago Campossano
A Caverna Ilu-minada, de Genival Mota (Editora
Uniderp; 2001; 126 páginas)
Já é comum de muitos e, contraditoriamente, inexistente para outros "muitos", a realidade da
mídia: a falta de ética no jornalismo. A realidade da massa facilmente comandada. A cultura da atual sociedade. Não como forma de repetição, mas de perseverança, as linhas
a seguir revelam a preocupação com tudo isso. O professor de Jornalismo, Genival Mota, é a base. De forma muito criativa e ousada,
ele revela em seu livro,
A Caverna Ilu-minada, uma explanação dos problemas atuais envolvidos com a ética. Seu espírito crítico e indagador traz notáveis soluções.
O livro se traduz por uma comparação com a alegoria de Sócrates dita a Glauco e registrada por Platão, no livro
A República. Nele, uma analogia admirável é feita mostrando o que de mais importante deve reinar na sociedade midiática: a ética.
A alegoria
"Sócrates convida Glauco a imaginar o seguinte quadro: alguns prisioneiros estão amarrados no fundo de uma caverna, com o corpo e a cabeça imobilizados e, diante de si, vêem algumas sombras desfilarem sobre as paredes da caverna e escutam ecos de vozes. De onde vêm essas sombras? De figuras de madeira e de pedra que representam homens e animais sobre um muro sendo conduzidos, como num teatro de marionetes. Atrás, num plano superior, mas sempre dentro da caverna, um fogo arde. Sua luz, ao passar pelo muro, ilumina essas figuras ou marionetes e projeta suas sombras sobre a parede do fundo da caverna".
Liberta-se um dos prisioneiros. Ele pode olhar para trás, ver os objetos, as figuras das quais só tinha visto as sombras, mas a presente claridade chega a ofuscar. Caminha para perto do fogo, cujo brilho ofusca ainda mais. Em seguida, ele caminha para a porta da caverna, onde a luz do dia brilha. Caminha para fora da caverna. Incapaz de suportar a visão do dia centraliza o olhar, primeiramente, sobre as sombras das plantas, dos animais e dos seres vivos que se encontram sobre o solo em torno de si, bem como sobre os seus reflexos na água, antes de pouco a pouco, levantar os olhos em direção aos seres que o cercam e, por fim, para o próprio sol.
O prisioneiro, após contemplar tamanha maravilha, não mais quer retornar para a caverna, mas quer contar o que viu aos companheiros. Quando penetra na escuridão, seus olhos, ainda inundados pela luz solar, são incapazes de discernir as coisas e os seres que habitam na caverna. Quando fala para os amigos o que existe lá fora e o que viu, torna-se objeto de riso de seus companheiros aprisionados. Consideram-no um louco."
A analogia
Logo na introdução, o professor Mota expõe a razão em comparar a alegoria de
Sócrates: "Toda comparação corre o risco de exagerar as semelhanças e/ou dissimular as diferenças. Porém, sem comparação não há
lição." Assim, durante os cinco blocos de capítulos da obra, as semelhanças são apresentadas com a realidade e a alegoria, o que causa admirável atração.
Como diz o relato, há prisioneiros na caverna que estão amarrados e com a cabeça imobilizada. Inicialmente, o tema corre em torno de como a mídia consegue amarrar os espectadores. Saber quem, ou o quê, mantém as cabeças imobilizadas? A imprensa. A imprensa e seus efeitos formam o poder principal. Claro, faz-se necessário entender que ela não é a única responsável pelos males da atualidade. Mota esclarece que "a mídia não pega ninguém à força e o coloca sentado, imobilizado. Cada um tem a liberdade de ver ou não ver, ler ou não ler, ouvir ou não ouvir". É aqui que se encontra um dos principais objetivos da obra: a postura da sociedade ante a tudo o que é apresentado.
Mas os tais prisioneiros estavam vendo sombras nas paredes e escutando ecos de vozes. Isso lembra televisão. Sua influência, conseqüências e intenções são apresentadas sem medo algum, característica indispensável para acertar o alvo mirado pelo livro. Conclui-se que o aprisionamento se dá pela admiração não do real, mas da sua sombra. "Viver sob o domínio das sombras. É isto que vivemos hoje. A mídia joga com as sombras da 'realidade' para atrair e 'prender' na 'caverna global'", critica
Mota.
Mas nessa altura, você deve estar se perguntando onde está a ênfase na ética, visto que é um dos grandes focos da obra. Claro que o problema maior dos veículos de comunicação não está no que eles são, mas sim como são usados. "Uma ética possível faz tremular no seu mastro a bandeira da vida", pronuncia Mota. Um o convite à retidão e a ética.
A imprensa não fica escusa de reflexões. Na continuação da alegoria, percebe-se a presença de um fogo num plano superior que ilumina os objetos que, com suas sombras, servem de espetáculo aos prisioneiros. "O que alimenta o fogo da imprensa?", pergunta o autor. O jornalismo será o centro das atenções. A postura dos produtores das notícias é corajosamente exposta e encarada com a seguinte sentença: "A imprensa - é preciso ficar claro - não é a única janela para se ver o mundo". Mota explica que a razão de existir do jornalista, e do jornalismo, é o cidadão, e que isso deveria ser levado em consideração primeiramente ao se preocupar com a ética no exercício da profissão. "Para que isso aconteça é preciso que desçamos do pedestal. Quem não tem espírito de humildade, não pode ser jornalista".
Aproxima-se o fim do livro e da alegoria, onde um prisioneiro se liberta de todas as posteriores descobertas com relação ao exterior. Esse indivíduo, antes de sair da caverna olhou para trás, se aproximou do "fogo que arde" até, enfim, sair!
Todo os problemas éticos vividos atualmente não são resolvidos apenas com a atitude da sociedade, nem dos veículos. Mas, quem consegue sair da caverna não quer mais voltar, visto que o mundo fora dela, é muito melhor. As pessoas dentro da caverna até ouvem o que é dito pelo, agora livre, companheiro. Mas o ridicularizam.
O uso de hífen, A Caverna Ilu-minada, é proposital. Segundo Mota, a mídia está mais para minar o espectador do que iluminar.
criação: lisandro staut
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