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Jornalismo
cor-de-rosa
Paulo Mondego
O Jornalismo na Era da Publicidade, de Leandro Marshall
(Editora Summus; 2003; 180 páginas; R$ 24,80)
Desde a virada do século XX para o XXI, o universo da comunicação
sofre forte influência do sistema econômico vigente, o capitalismo. Sabemos que esta palavrinha gerou, e ainda gera, grandes discussões políticas e econômicas. Porém, nunca foi tão necessário o questionamento sobre até que ponto a imprensa pode - se é que pode - sofrer influência do livre mercado, da livre competição, da marketização, da estetização, da pluralidade, da globalização e da publicidade. Essas são características de mutações das quais os meios de comunicação, sobretudo a imprensa,
sofrem de forma brutal e consciente.
O jornalista Leandro Marshall, professor de Sociologia da Comunicação da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná, responde essa indagação em
O Jornalismo na Era da Publicidade (2003), um livro que mostra as principais facetas envolvidas na mutação que a imprensa
sofre em decorrência da subserviência do jornalismo ao mercado e à publicidade. Com este enfoque, o autor pretende contribuir para um debate e para uma investigação do que é o jornalismo pós-moderno.
Segundo Marshall, "o jornal moderno virou um veículo sem palavras, já que prioriza a cor, as letras garrafais e a foto hiperdimensionada em detrimento do conteúdo da informação". A esse tipo de linguagem jornalística ele chama de "jornalismo cor-de-rosa", no qual o objetivo é agradar a todos. Seja leitor, usuário, consumidor, cliente, dono, anunciante, etc.
Mutação dos jornalistas
Em conseqüência desse tipo de jornalismo, os profissionais da área de
comunicação passam por uma mutação. O autor justifica que "o jornalista pós-moderno vira refém de uma lógica avessa ao interesse da informação, mas simpática aos interesses da empresa e do mercado". Diz ainda que o jornalista da era pós-moderna anula o senso crítico e a capacidade de reflexão, permitindo-se o ato de submeter o lead e a pirâmide invertida à lógica do mercado. Ou seja, quem determina a matéria é o que dá mais audiência ou mais lucro.
Marshall dá veracidade a esse comportamento analisando a questão da situação profissional do jornalista no campo de trabalho. Para ele, "os comunicadores no mercado de trabalho, no geral, são jovens, incautos, sem vivência e idolatram a life-stile internacional. Possuem um nível cultural baixo e, por isso, viram reféns fáceis do senso comum e do ideário neoliberal". Diante desta situação, ele dá o terrível diagnóstico de que a profissão jornalística se revela como uma atividade em profunda crise de identidade.
Se quem faz o produto está nesta situação, quem dirá o produto! O jornal também passa por mudanças bruscas.
De acordo com Marshall, "o jornal perde sua mácula e passa a transmitir os interesses que cercam a informação e seus atores, num regime de licenciosidade e relatividade até então proibidos no jornalismo". Isso se dá em função do condicionamento do veículo ao sistema econômico e cultural que o produz. Um reflexo do modo de produção capitalista.
A imprensa
Aquela que deveria ser o reflexo da sociedade e, por isso, a imagem da verdade, "falsifica informações mediante produções distorcidas, manipula os fatos, inventa elementos fantasiosos e forja acontecimentos ou depoimentos. No fundo, esses exercícios de falseamento demonstram um objetivo básico: favorecer interesses sejam eles dos jornalistas, da imprensa ou do poder econômico ou político". Marshall se apóia
nesta afirmação baseado no paradoxo que a imprensa vive hoje: ser elemento-chave da produção industrial capitalista e ter de desempenhar a missão de apresentar a verdade e defender o interesse público.
Ao longo da obra, o autor apresenta pesquisas demonstrando que "o jornalismo atual divorciou-se do modo clássico de fazer jornal". Sem dúvidas, conseqüências do processo de transgenia e "rosificação" que o jornal
passa. No quinto e último capítulo o autor apresenta a realidade do jornalismo atual, na ótica da Escola de Frankfurt e dos pensadores mais contemporâneos, como Haug, Marcondes Filho, Albertos, Baudrillard, etc.
Leandro Marshall chega à conclusão de que a publicidade obriga o jornalismo a se submeter às suas imposições ameaçando a verdade e o objetivo jornalístico como tribuna do povo.
Marshall acredita que "se cria um jornalismo pautado apenas pela estética da mercadoria, do marketing e do ultralivre mercado, distanciando dos dias e das preocupações éticas que originam o ideal da linguagem".
Enfim, O Jornalismo na Era da Publicidade é uma denúncia corajosa do processo de erosão sofrido pelas esferas da comunicação e da cultura.
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