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Obra-prima

Lêda Maria  

A Sangue Frio, de Truman Capote (Companhia das Letras; 2003; 440 páginas; R$ 34,30)

Literatura e jornalismo, parceiros de longa viagem e testemunhas de grandes transformações, adquiriram intimidade e geraram o Jornalismo Literário. Também denominado não-ficção ou new journalism, este estilo combina práticas jornalísticas e estruturas de narrativas da ficção. Às entrevistas e apurações foram acrescentados toques de "irrealidade", e o repórter literário pôde assim imergir profundamente na matéria e proporcionar um novo e fantástico modo de levar a notícia encantando os leitores e revolucionando o mundo da comunicação.

De acordo com Sérgio Villas Boas, jornalista e escritor, a mecanização da notícia levou a um abandono do jornalismo literário. "Há uma defasagem inclusive no ensino das faculdades de Comunicação. O jornalismo literário ficou restrito a trabalhos autorais, trabalhos de conclusão de curso, pesquisas ou a projetos patrocinados por instituições culturais. Assim, há cada vez menos divulgação sobre o gênero, menos o leitor toma conhecimento e, conseqüentemente, há menos desejo pelo tema", argumenta Villas Boas tentando justificar o aparente repúdio do estilo numa sociedade que mostra cada vez mais desinteresse por temas aprofundados, preferindo assuntos enxutos. Tal descaso atesta a "falta de sensibilidade, filosofia humanista, arte, criação, técnica literária, atitudes em relação ao mundo", completa.

No entanto, mesmo olvidado ou desfavorecido, esse estilo agregou grandes nomes que fizeram história e provaram que a arte de narrar boas histórias ainda é valorizada e atrai muitos simpatizantes. Entre as pérolas desse novo modo de fazer reportagens se encontra o best-seller A Sangue Frio (1966), de Truman Capote. O livro ganhou o público no século XX e se tornou mais que um romance literário: uma obra de arte da literatura. 

O assassinato

Holcomb, pequena cidade no oeste do Kansas, Estados Unidos, onde criam gado e carneiros e plantam trigo, beterraba e capim, foi o palco dos acontecimentos descritos por Truman. Caracterizada por "seu duro céu azul e ar límpido do deserto", constitui-se um amontoado incerto de edifícios entre poucas ruas "sem nome, sem sombras e sem calçamento". 

Com 270 habitantes, a vila conta com uma construção abandonada onde se lê um letreiro: DANÇAS; um banco que fechou dando lugar a uma série de apartamentos onde reside a maioria dos professores da escola local; uma agência de correios, o depósito ferroviário, onde nenhum trem de passageiro pára, apenas um ou outro de carga, a lanchonete Hartman's Café e a Holcomb School. Esta é Holcomb, que "até certa manhã, em meados de novembro de 1959, poucos norte-americanos - em verdade poucos habitantes do Kansas - tinham ouvido falar".

Na madrugada de 15 de novembro de 1959, quatro disparos aniquilaram uma família. Ninguém ouviu os tiros que mataram Herbert William Clutter, fazendeiro de 48 anos, respeitado na comunidade, "em excelente forma física", metodista que não importunava com seus conceitos - com exceção do hábito de beber; sua esposa Bonnie Fox, 45 anos. Filha única de um rico fazendeiro e idolatrada pelos três irmãos, Bonnie passou por sucessivas crises de tristezas após o parto dos quatro filhos, o que lhe acarretou problemas nervosos que muito desassossegavam o marido; e seus filhos adolescentes, Kenyon, 15 anos, com mais de 1,80 metro de altura, cabelos cor de linho cortados "rente", caçador de faisões e coiotes, e apaixonado por serviços de carpintaria que fazia em casa; e Nancy, 16 anos, "uma garota engraçadinha, magra, dona de uma agilidade infantil", filha dedicada que cuidava da casa e fazia tortas deliciosas. As duas filhas mais velhas do casal, Eveanna e Beverly, não moravam com os pais. 

Foram encontrados amarrados e amordaçados com fita adesiva. Antes de levar o tiro na cabeça, o senhor Clutter teve a garganta cortada. Nancy levara um tiro na nuca. Bonnie ao lado da cabeça, e Kenyon no rosto. Os responsáveis pelo crime foram Richard Eugene Hickock (Dick) - 33 anos, loiro, filho de um casal de fazendeiros pobres -, era mecânico, assaltante e já tinha assassinado um negro. E Perry Edward Smith - de 36 anos, assaltante, filho de irlandês com índia cherokee puro-sangue, tocador de gaita e violão -, autor dos quatro tiros que mataram a família Clutter. O motivo do massacre foi um cofre que não existia. Como "paga" levaram quarenta dólares, um par de binóculos e um rádio Zenith, que foi tudo o que encontraram. 

Na prisão, enquanto cumpria pena pelo assassinato anterior, Dick encontrou um antigo empregado da família Clutter, Floyd Wells, que falou sobre a prosperidade da família e o fato de gastarem dez mil dólares por semana nos negócios. A partir daí, começou a fazer perguntas sobre a quantidade de pessoas na casa, a planta do domicílio e se tinha um cofre. Floyd disse ter visto uma "espécie de armário, ou cofre ou algo parecido", e isso foi suficiente pra Dick convencer Perry a cometer o crime. Crime bárbaro que chocou todo o estado do Kansas e o Estados Unidos. Dick e Perry foram julgados, condenados à morte e enforcados em 14 de abril de 1965.

Disso constitui-se o clássico relato de Truman sobre a tragédia, uma reportagem que nos remete com detalhes à violência cometida. O maior objetivo do autor não consistiu em narrar os fatos, mas levantar discussão sobre pontos importantes que envolvem a sociedade como um todo: a pena de morte, por exemplo. Até aonde vai o direito das autoridades em decidir o destino das pessoas? Punir o culpado, sim, mas definir se merece vida ou morte, não é exagero? Determinar o ano, mês, dia e hora da morte do réu, não é mais que a emoção humana possa suportar?

"Os ricos nunca são enforcados. Só os pobres e sem amigos", escreveu Perry em seu diário enquanto aguardava o julgamento. "Acho um absurdo tirar a vida de uma pessoa desta maneira. Não acredito na pena de morte, nem do ponto de vista moral nem legal", completou o condenado em seu último discurso, antes de ser executado.

Os bastidores

Truman Streckfus Persons nasceu em Nova Orleans, em 1924, e morreu na Califórnia, em 1984. Aos onze anos adotou o sobrenome do padrasto, Joseph Garcia Capote. Trabalhou como office-boy na Editoria de Arte da revista The New Yorker. Escreveu contos nas revistas Mademoiselle e Harper's Bazaar; publicou coletâneas de seus contos e até uma noveleta, Breakfast at Tiffany's (1961) - no Brasil foi traduzida como Bonequinha de Luxo.

Em 1959, Capote, homem urbano com 35 anos e 1,55 metro de altura, vê uma pequena nota de dois parágrafos sobre o brutal assassinato dos Clutter em Holcomb, estado de Kansas. Vendo nisso um bom argumento para um livro sobre o crime, Truman embarcou rumo a Holcomb na companhia de sua amiga, e também escritora, Harper Lee. Ratifica-se que quando Capote e Harper Lee foram para o Kansas, os assassinos ainda não eram conhecidos e não haviam sido capturados. 

Com muita disposição, gastou sapatos batendo perna pelas ruas que se transformavam "da mais densa poeira na mais profunda lama". Em Holcomb, sua imagem causou quase o mesmo impacto que o crime. Harper Lee foi peça fundamental para que ele conseguisse aliciar a confiança dos entrevistados. E Capote, um conquistador nato, conseguiu de forma extraordinária hipnotizar os moradores e obter as informações que necessitava. Quando Perry e Dick foram presos, Capote fez seus trâmites e conseguiu ter acesso aos dois. Foi um ano e meio no Kansas só analisando os aspectos da "história" e arrecadando o máximo de documentos e dados possíveis.

Descartando o gravador e anotações na frente dos entrevistados, Capote alegava ser capaz de memorizar horas de conversa. Segundo ele, devia à graça, a um amigo com quem treinava lendo partes de um livro. Capote conseguia lembrar cerca de 95% do texto lido. Foram dezenas de pessoas entrevistadas, depoimentos, uma infinidade de recortes de jornal, agendas, diários, cartas dos assassinos e relatórios policiais. Material que culminou em oito mil páginas de anotações, uma averiguação que levou seis anos e deixou como herança a Capote uma mão paralisada de dor.

Em 14 de abril de 1965 ele titubeou em assistir ao enforcamento, mas acabou indo. Diz-se que quando Dick foi executado Capote vomitou duas vezes e se retirou. Ele chorou o tempo todo no vôo de volta para Nova York.

A Sangue Frio foi um dos melhores livros da arte literária e jornalística norte-americana do século XX. Tornou-se sucesso de críticas e de vendas. Certa vez, Truman, Gore Vidal e Norman Mailer debatiam sobre livros. Cada um falando de seu próprio livro. Capote referindo-se ao best-seller, disse: "Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não." Devemos admitir que o baixinho era ousado e pretensioso, mas em se tratando do clássico, ele estava certo. O livro é de fato uma obra-prima do jornalismo literário.