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Ficção
de carne e osso
Elmer Guzman
Fama
& Anonimato, de Gay Talese (Companhia das Letras; 2004; 504 páginas;
R$40,50)
A reedição de Aos Olhos da Multidão trouxe paz aos sebos e
às máquinas de fotocópia. Centenas de jornalistas vorazes tentavam garimpar essa raridade publicada em
1973 pela editora carioca Expressão e Cultura. Mais de três décadas após a publicação ressurge do esquecimento
esta fina flor do jornalismo literário, mas agora batizada com outro nome:
Fama & Anonimato (2004).
A publicação original em inglês foi para as livrarias em 1960, mas o frescor dos detalhes
deste livro, escrito por Gay Talese, faz com que a obra não tenha data de validade, muito semelhante a um vinho envelhecido. Na adega de Talese
se encontram best-sellers como O Reino e o Poder e A mulher do
Próximo, ambos publicados pela Companhia das Letras. Cartilha básica para jornalistas que querem a fama e não o anonimato. Gay Talese trabalhou no
The New York Times e outras revistas semanais. Lá, cimentou um novo estilo de reportagem.
Sujando os sapatos
Com certeza Talese sujava os dele. Um repórter incansável que apurava à exaustão. Conversava com prostitutas e primeiras-damas, artistas e mendigos, ricos e miseráveis, não importava com quem fosse. Ele dava sangue, suor e champanhe pela matéria, um pouco diferente do que se faz hoje. O repórter não precisa mais sair às ruas para garimpar novidades. Apenas com o Google, uma agência de notícias e um telefone, matérias inteiras são produzidas, editadas, confirmadas e publicadas. É o famoso jornalismo interno. Decorrente deste fenômeno, surgem casos como o de Jayson Blair, ex-funcionário do
NYT.
Como disse Humberto Werneck no pós-fácil do livro, "fotos podem ganhar legendas antes de existirem, e redações há em que a rotina do repórter inclui o absurdo pirandelliano das aspas à procura de um autor: 'Precisamos de alguém que diga o seguinte, dois pontos', prescrevem editores com receitas prontas". Tudo isso, difama a função pública do jornalismo.
Como não entrevistar
Entrevistar significa mais do que um diálogo e menos do que um romance. Infelizmente existe um aparato que embebeda o jornalista: o gravador. Por causa dele, entrevistas se tornam em monólogos, superficiais e
escravos de uma pauta ditatorial. Mas para o entrevistador isto não tem problema porque as rodinhas do gravador estão girando.
Enquanto que alguns repórteres conseguem fazer uma matéria de uns três mil toques com duas entrevistas e algumas horas de gravação, Talese, sem conseguir falar com Frank Sinatra, entrevistou quase uma centena de seus amigos e o acompanhou em quase todos os lugares públicos. De tanto perseguir, conseguiu.
Mas Sinatra estava resfriado. Como descreveu, "Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível - só que pior". O factual tornou-se literatura real, quase uma ficção de carne e osso.
Fama & Anonimato é uma coletânea de contos de não-ficção, publicados em revistas como
Esquire e The New Yorker. Devido ao sucesso das matérias foram reunidas e transformadas num livro.
A primeira parte descreve a vida em Nova York. Talese descobriu minúcias da cidade. Como por exemplo, um nova-iorquino pisca 28 vezes por minuto, ou que acontecem menos suicídios em dias nublados. Essas descobertas podem até ser inúteis, mas nas mãos de Talese ganham vida e adquirem o cheiro das padarias, o barulho do trânsito, o estresse de
Manhattan e a sensualidade das prostitutas da 49th Street.
A segunda parte da coletânea é um relato da construção da ponte
Verrazano-Narrows. Com um olhar cirúrgico, e ao mesmo tempo sociológico, Talese reuniu
as nuances da vida pública e privada de seus
entrevistados.

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