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Espaços
demarcados
Fernando Torres
Êxtase, repulsa e euforia são algumas das expressões mais adequadas para descrever o turbilhão de reações suscitadas pela exibição do polêmico e controverso
A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, Estados Unidos, 2004), de Mel Gibson. Tudo ou quase tudo já se falou a respeito do conteúdo da película. Contudo, a carnificina extensa e o impacto causado pelas cenas chocantes e interpretadas em latim e aramaico impediram que o espectador médio passasse do nível da sensação para o da percepção.
Nesse contexto, é mais relevante interpretar o efeito do que a forma, apesar de ambos estarem interligados. A recepção diversa que
A Paixão teve em vários segmentos religiosos revela que estes demarcam cada vez mais seus espaços ideológicos, o que, inevitavelmente, gera guerra e preconceito.
Uma análise pormenorizada sobre a recepção de A Paixão revela duas espécimes dessa demarcação. A primeira, mais óbvia e mais propagada, é a visão da comunidade judaica. Segundo a maioria dos rabinos, o filme reafirma a idéia de que foram os judeus os verdadeiros e únicos responsáveis pela crucifixão de Jesus, suscitando o anti-semitismo.
Ora, o filme não é anti-semita. Enfatiza, é verdade, a participação histórica dos judeus no assassinato, mas não busca responsabilizá-los. O próprio Gibson garante que não teve nenhuma intenção preconceituosa ao produzir o filme. Infelizmente, o purgatório dos católicos e o inferno dos judeus está repleto de boas intenções.
A Paixão não escapa dessa máxima.
A perseguição e o sofrimento milenares ainda fazem parte do cotidiano dos judeus. Somente o Holocausto seria um bom exemplo. Como o cinema, por si só, pressupõe certa subjetividade, o que dá vazão a várias interpretações da mesma imagem, é compreensível que as cenas de Jesus sendo espancado por uma turba judaica e a clara exigência de sua morte por seus líderes religiosos reabram feridas que, vez ou outra, ainda insistem em sangrar.
Na defensiva, essa gente denuncia que ainda não se perdoou pelo triste episódio e que o preconceito, por mais paradoxal que isso possa parecer, renasce em seus próprios corações dia após dia. Os judeus demarcam, assim, seu próprio espaço.
De um católico para evangélicos
Num foco distante da Palestina,
A Paixão de Cristo também denota a demarcação dentro da própria religião cristã. Ironia: apesar de Gibson praticar o catolicismo ultraconservador, o grande público apreciador de seu filme concentra-se na ala evangélica. Recepção no mínimo curiosa, principalmente quando se constata que os evangélicos sempre condenaram a produção de Hollywood.
Com o lançamento do filme no Brasil, ocorreu verdadeira fidelização por parte desse segmento. Registraram-se peregrinações de grupos evangélicos ao cinema, compra e aluguel exclusivo destes por alguns segmentos e a exibição pública no interior de seus templos durante a sexta-feira da paixão.
Ao analisar-se o perfil da película e do discurso evangélico em geral, percebe-se que ambos se assemelham. O primeiro faz uma leitura das doze últimas horas da vida de Jesus, com ênfase em sua dor física, e deixa em segundo plano sua vida e seus ensinamentos; o segundo - apesar de protestos contrários - faz basicamente o mesmo. Apelos em pregações, produção literária e musical e aplicação para a vida cotidiana sempre acabam levando para a cruz, seja qual for o caminho.
Adicione às similaridades o alto grau de emoção e sensação que ambos, filme e culto evangélico, proporcionam. Fiéis dirigem-se ao cinema como quem vai a um culto: emocionam-se, choram, ensaiam conversões.
Por outra senda se enveredam os membros da Igreja Católica. Para seus praticantes mais conservadores (com exceção do próprio Gibson), a forte carga de violência é desnecessária. Na doutrina católica, a cruz é um pouco menor, a fim de dar espaço para a santidade de Maria, ausente na película. Já a conversão emocional é substituída pelas rezas e terços, também inexistentes em
A Paixão. Por fim, o filme acerta na divulgação de duas de suas doutrinas, o lenço de Verônica e o Santo Sudário. Mas não é dos melhores; é preferível o poder francamente catequizador de
Maria, Mãe do Filho de Deus.
Sem preconceitos. Estes são apenas dois vieses do cristianismo escolhidos pelo segmento evangélico e católico, respectivamente, para visualizar a fé. O fato é que uma observação atenta do público de
A Paixão demonstra o abismo ideológico entre as denominações. O filme dá, assim, munição para a guerra entre católicos e evangélicos.
Cinema ecumênico?
Mel Gibson não pretendia ser ecumênico; a produção cinematográfica também não. Vieses e estereótipos são ingredientes garantidos ao se tratar de cinema. O problema é que produções religiosas sempre causaram e sempre causarão espasmos e vertigens. O grande problema é que a polêmica não traz remissões, mas espaços demarcados com cada vez mais ênfase.
Serve de consolo que o próprio Cristo afirmou que não veio trazer paz, mas sim espada. Ao que parece, Gibson achou-se no direito de agir sob o mesmo princípio.
Ficha Técnica
Título original: The Passion of the Christ
Gênero: Drama
Tempo de duração: 126 minutos
Ano de lançamento (EUA): 2004
Site oficial: www.thepassionofthechrist.com
Estúdio: Icon Productions / Marquis Films Ltd.
Distribuição: 20th Century Fox / Icon Entertainment International
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Mel Gibson e Benedict Fitzgerald
Produção: Brce Davey, Mel Gibson e Stephen McEveety
Música: John Debney
Fotografia: Caleb Deschanel
Desenho de produção: Francesco Frigeri
Figurino: Maurizio Millenotti
Edição:
Efeitos especiais: Keith Vanderlaan's Captive Audience Productions
Elenco
James Caviezel (Jesus Cristo)
Maia Morgenstern (Maria)
Monica Bellucci (Maria Madalena)
Hristo Jivkov (João)
Hristo Shopov (Pôncio Pilatos)
Rosalinda Celentano (satã)
Francesco Cabras (Gesmas)
Claudia Gerini (Esposa de Pilatos)
Sergio Rubini (Dismas)
Danilo Maria Valli (Lázaro)
Matti Sbraglia (Caifás)

criação: lisandro staut |
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