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Nos
palcos da mídia
Victor Drummond
Jornalismo e arte sempre tiveram algo em comum. Pode não ser aparente, mas têm. Talvez porque a arte trabalhe com o imaginário, o surreal o "impossível-possível". E os veículos de comunicação, mais especificamente, levam as pessoas para o mundo do palpável, do real, do factual. E em algum momento esses dois extremos precisam se debruçar um sobre o outro.
Exemplo disso é o fato do jornalismo ser retratado com freqüência em filmes. Personagens jornalistas já ocuparam lugar de destaque, como o famoso repórter Clark Kent, na série
Superman. Ali o super-herói vivia em um ambiente que revelava os bastidores do jornalismo. Outros filmes exploram os bastidores das notícias e dos veículos de comunicação. Os jogos de interesses, os favores, a manipulação da informação ou a influência que os veículos de comunicação podem exercer sobre os indivíduos. Nas novelas é comum ver uma personagem obtendo alguma informação por meio do rádio ou jornais. A mídia é mostrada como fazendo parte da vida deles ou exercendo algum tipo de fascínio. É o caso da novela
Celebridade que explora o processo da fama gerado por meio desses veículos.
E nos palcos?
Mas e o nosso velho e bom teatro? Esse não é retratado com a mesma intensidade na televisão. Abrindo um parêntese, diria que as manifestações teatrais não são realizadas e procuradas com a mesma intensidade como novelas, filmes, seriados, minisséries, enfim. O ator Raul Cortez explica porque muitas pessoas, inclusive da classe A, nunca foram ao teatro: "Nunca foram ao teatro, também nunca ouviram uma boa música, nunca leram um bom livro, nunca viram um bom filme. Nunca se interessara por nada. São profundamente aburguesadas. Hoje em dia você não vê tupiniquins. Vê nativos americanizados, sem a menor curiosidade." Voltando à relação do teatro com a mídia, mesmo que seja pouca, existem bons textos de autores consagrados que procuram explorar nos palcos as possíveis relações que podem haver entre os personagens e a mídia.
Juca de Oliveira é um desses autores. Na peça A flor do meu bem
querer, Juca interpreta o protagonista Zé Otávio, um senador candidato à Presidência da República. Em um dos atos da peça, o assessor pessoal do senador atende a um telefonema da imprensa. "É de onde?", pergunta. "Da
revista IstoÉ ou IstoÉ gente?". Perceba aí a ironia no texto de Juca, que retrata a preocupação dos políticos brasileiros em estar sempre na mídia. Que inclusive faz parte de suas estratégias na campanha política. Mais à frente Chico Lima, o assessor, informa à Zé Otávio que ele conseguiu um espaço para estar no programas da Adriane Galisteu, do Ratinho e do João Kleber. Insatisfeito, o senador informa que queria era aparecer nos programas do Faustão e da Hebe Camargo. Usando de muito humor, a peça mostra sutilmente como a mídia desempenha um papel importante na candidatura e construção da imagem de um político.
Falabella e a Falecida
Miguel Falabella também não deixa de lado a influência que os veículos de comunicação desempenham na vida das pessoas. Em sua peça
Veneza, a personagem chamada Gringa (Laura Cardoso) tem o sonho de conhecer a cidade italiana para encontrar uma grande paixão do passado. Seus amigos, comovidos com o desejo de Gringa, fazem tudo para que ela realize o sonho. Mas como são pessoas com quase nenhuma educação, eles não têm a menor noção de onde fica Veneza. Até que o personagem Tonho (Ewerton de Castro) se recorda que Veneza fica na Itália, porque ele viu na televisão. E foi também por meio da telinha que conheceu "as ruas de água e os barquinhos" da cidade, como ele descreve. Tonho é apenas uma verossimilhança da relação da mídia com os cidadãos, que muitas vezes só conhecem lugares ou pessoas através dos veículos de comunicação.
O dramaturgo, romancista e jornalista Nelson Rodrigues, cujo nome está inscrito na história do teatro brasileiro, expõe em sua peça
A Falecida - que estreou na Inglaterra em 1998 e está em cartaz em São Paulo desde 1999, no Teatro Fábrica São Paulo, com uma montagem incrível - o poder que um veículo de comunicação tem para mudar histórias. O personagem Tuninho, um desempregado que vai a busca de dinheiro para realizar o enterro de sua falecida mulher, Zulmira. Para isso, vai ao encontro de Pimentel, um milionário dono de frotas de lotação e amante de Zulmira. Pimentel nega-se a dar o dinheiro. Tuninho então ameaça denunciar suas falcatruas para
O Radical, um poderoso jornal da época. O empresário, mais que depressa, muda de opinião e financia o enterro de Zulmira. Além disso, é através desse jornal que Tuninho se informa sobre o desempenho de seu time favorito, o Vasco.
E por aí vai. A arte não nega a mídia. Novelas, filmes, seriados, estão aí para provar que os personagens da ficção são tão influenciados pelos jornais quanto na vida real. E de vez em quando o jornalismo sobe aos palcos para lembrar ao espectador que ele e a arte sempre tiveram algo em comum.

criação: lisandro staut |
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