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Cultura
para todos
Thiago Melo
Jornalismo Cultural, de Daniel Piza ( Editora Contexto; 2003; 144
páginas; R$19,10)
O
simples fato de uma pessoa estar lendo um livro pode significar muito. Interesse por assuntos que ela não domina totalmente e que pretende utilizar no futuro, busca de respostas para suas dúvidas e informações do mundo a sua volta, entre tantas outras justificativas.
No filme MIB, Homens de Preto, Will Smith, que atua como um policial de Nova York é convidado a ser o novo agente da MIB. Em um dos testes Smith deixa de atirar em todos os monstros e acerta fatalmente uma menina de aparência ingênua. Ao explicar diz o seguinte: "Podem ver o livro que ela carrega em seus braços? Vocês não imaginam o que estes livros ensinam. Quando esta menina crescer poderá ser uma ameaça à humanidade". Era um livro de Física Quântica.
Daniel Piza é jornalista. Trabalhou no Caderno2 do jornal O Estado S.Paulo e na
Folha Ilustrada. Em seu livro, Jornalismo Cultural, deixa clara sua preocupação em reverter esse quadro que em nada contribui para o crescimento de uma população carente por textos que faça refletir. É neste contexto que o jornalismo cultural tem seu maior trunfo.
O conceito de que cultura é algo inatingível. Exclusivos dos que lêem muitos livros e acumularam muita informação. Ao lerem autores filosóficos e pensadores, como Adorno e Horkheimer, este conceito se solidifica ainda mais na mente da maioria daqueles que leram ou ao menos tentaram.
O autor traça um histórico internacional e nacional do jornalismo cultural que nasce com a revista
inglesa Spectator, criada por Richard Steele e Josef Addison na década de 70. A finalidade da revista era tirar a filosofia dos gabinetes e bibliotecas, escolas e faculdades e levar para os clubes e assembléias, casas de chá e cafés. Falava de tudo. Livros, óperas, costumes, festivais de musicas, teatro e política, num tom de conversação espirituosa. Reflexiva e acessível, apostava num texto charmoso e irônico.
Outro marco no jornalismo cultural é a revista New Yorker. Criada em 1925, revelou grandes escritores como John Cheever e Irwin Shaw e até hoje é inigualável em seu estilo incisivo e humorístico.
No Brasil em 1928 O Cruzeiro, que teve como colaborador Mario de Andrade, vendeu mais de 700.000 exemplares, por ocasião do suicídio de Getúlio Vargas. A revista lançou conceito de reportagem investigativa. Entre as décadas de 28 e 30 se tornou a publicação mais importante do Brasil pelo público abrangente.
A crônica se tornou a forma mais apreciada pelo brasileiro e atraindo a literatura ao jornalismo. Os anos 40 e 50 foram marcados por nomes como Sérgio Buarque de Olanda, Augusto Meyer e Brito Broca. Mas a década de 60 reservava surpresa. Foi a mais memorável do jornalismo cultural brasileiro, com pensamentos como o de Décio de Almeida: "Uma publicação que se intitula literária nunca poderia transigir com a preguiça mental, ou com incapacidade de pensar, mas partir do princípio de que não há vida intelectual sem um mínimo de esforço e disciplina."
De acordo com Daniel Piza a crítica foi contínua sendo a espinha dorsal do jornalismo cultural em todo o mundo. Na Europa, durante a segunda metade do século XX os críticos começaram a ganhar maior espaço nos jornais e revistas. Atingindo seu apogeu num momento em que ocupavam posição de status dentro das redações e no meio político. Eram constantemente convidados pelas emissoras de televisão, e suas palavras indicavam o veredicto final a respeito de uma obra literária ou produção cinematográfica.
No entanto é visível hoje uma crise em âmbitos gerais. Os críticos parecem não mais poder definir o sucesso ou fracasso de uma obra ou evento. Os chamados "fenômenos de audiência" tomaram o lugar dos jornalistas culturais. A imprensa cultural tem o dever do senso crítico, da avaliação de cada obra cultural e tendências que o mercado valoriza por seus interesses.
Jornalismo Cultural tenta relembrar, àqueles que se esqueceram e mostrar àqueles que não sabiam, a íntima ligação entre a forma de expressão do jornalista cultural e a visão que o leitor possui da cultura nacional. O jornalista cultural precisa saber observar a história de desenvolvimento do acesso a produtos culturais sem preconceitos ideológicos e sem parcialidade política. Em meio à confusão de valores, perde-se a credibilidade crítica e a submissão aos cronogramas dos eventos anula uma análise consciente.
O livro de Piza explica porque atualmente o jornalista cultural não consegue desempenhar essa função com clareza e eficácia. É preciso que o profissional esteja atualizado, saiba ver e ouvir, mesmo que não goste, de vários assuntos e temas para que não comprometa a análise do conteúdo, pois isso limita e vicia a sua sensibilidade. O crítico cultural deve sempre estar por dentro das novas produções locais, ler os clássicos da língua, tanto do seu país quanto obras estrangeirais. O jornalista cultural deve expandir sua cultura e seus horizontes.
Segundo o autor, existem ainda outros males que beneficiam a vigente diminuição de influência dos cadernos culturais. O tamanho dos espaços reservados a crítica cultural diminuíram, resumindo-se, na maioria das vezes, em listas enumerando os livros mais lidos ou filmes mais vistos. Em outros casos se perde o foco principal da crítica. Engrandecendo o autor e esquecendo da obra ou vice-versa. Existem ainda aqueles que atacam o autor por motivos pessoais, e outros que pelo mesmo motivo bajulam a produção em análise.
O nível de qualidade dos textos produzidos é cada vez menor. Ocorre uma marginalização da crítica. O profissional se baseia em "achismos" e seus comentários não possuem bases fundamentadas. São apenas palpites, quando muito, perdendo assim a credibilidade da profissão e colocando em risco a integridade dos poucos que procuram desenvolver um trabalho sério. O jornalista cultural deve saber convidar e provocar o leitor por meio da energia e clareza do seu texto e pela riqueza intelectual de sua profissão.
Além dessas observações, o autor discorre sobre o preconceito sofrido pelos profissionais da área. É comum dizer que trabalham menos, pois não precisam cavar "furos"
jornalísticos - notícias quentes. Pensamentos como esses afastam o crítico do público e diminuem a eficiência de seu trabalho.
Mas como em todos os casos, a profissão também possui seu lado bom. O jornalista cultural está sempre em contato com o melhor da arte. Assiste antes de todos filmes e peças de teatro. Tem acesso a obras bem antes de serem lançadas. Sem falar no conhecido jabá, que são aqueles presentinhos: Cds, livros e vídeos oferecidos por seus produtores. Não podendo esquecer que tais gentilezas não devem interferir na análise, nem ir de encontro ao regulamento estipulado pelo meio de comunicação o qual se está trabalhando.
Daniel Piza e seu livro Jornalismo Cultural são um incentivo a nova geração que pretende seguir a profissão de crítica cultural. A presença de excelentes profissionais nesta área é de suma importância para a construção cultural de nossa sociedade. É preciso que o jornalismo cultural brasileiro avance, reconquiste uma qualidade perdida e tenha uma importância mais decisiva na formação das pessoas.
Num mundo globalizado, ideologias se fazem presentes da água que tomamos ao carro que compramos. Mundo em que técnicas de manipulação são aperfeiçoadas tornando previsíveis e controláveis ações e pensamentos dos indivíduos. Saber pensar por si só já é uma grande realização. Ser um formador de opinião, um gerador de reflexão e estimulador de mentes levando pessoas ao pensamento crítico na chamada Era da Comunicação de Massa, sem dúvida é uma tarefa árdua, mas não impossível.

criação: lisandro staut |
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