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Veredicto
de uma ave antropomórfica
Daniel Liidtke
Pica-Pau - Herói ou vilão?, de Elza Dias Pacheco (Loyola;
1985; 255 páginas; R$ 12,90)
Julgamento. Promotor e advogado tomam seus lugares. O clima é tenso. A platéia, composta excepcionalmente por crianças, espera ansiosamente a chegada do condenado. Logo as portas são abertas e entra um policial trazendo em suas mãos uma televisão; coloca o aparelho sobre uma mesa e liga-o na tomada. Seguidamente, surge você, o juiz, que trará solução ao caso.
O silêncio é intenso. Todos olham para o relógio. Qualquer um sabe que o acusado sempre chega às 9h da manhã. Pontualmente, o policial liga a TV. A música soa. A imagem aparece. O público, entusiasmado, percebe que está começando seu desenho preferido:
Pica-pau.
Com a chegada do réu, inicia-se a seção de julgamento. Todos assistem ao desenho animado. Por um momento você até esquece que é o juiz e dá altas gargalhadas com as peripécias do Pica-pau. As crianças também têm a mesma reação que você. Afinal, quem não admira aquele passarinho de topete vermelho?
O episódio transmitido é "Freeway Fracas" - traduzido ao português como "Auto-estrada fracassada". Conta a estória de um engenheiro que constrói auto-estradas e precisa derrubar uma velha árvore que bloqueia o traçado da pista. Assim, Homero, o empregado, recebe a função de derrubar aquele empecilho natural. Isso faria com sucesso, caso não fosse ali o
"home sweet home" do Pica-pau.
Indignado com a "ameaça domiciliar", a ave protagonista usa tudo para não ter que ir procurar outra árvore para morar: machado, betoneira, dinamite, guindaste, trator e rolo compressor. Resumindo, ele espanca, explode e amassa tudo para defender seu lar da destruição. Terminados os 6min e 25s do desenho, a platéia aplaude de pé. Você pede silêncio e, meio sem entender o porquê o julgamento, dá a palavra ao promotor.
Neste julgamento, a promotoria é representada por Elza Dias Pacheco, por meio de seu livro
Pica-pau: Herói ou Vilão?. Longe de um combate tenaz ao personagem, ela aponta características do desenho que moldam garotos e garotas a partir de padrões pré-fabricados, sobretudo norte-americanos.
Ideologia
A obra não trata de especulações, mas é fruto de pesquisas realizadas com crianças de sete a oito anos, além de embasamento teórico de diversos especialistas. Com análises minuciosas da reação delas e entrevistas, o trabalho em análise é resultado da tese de doutorado em Psicologia Social, defendida por Elza em 1981 na PUC-SP.
A autora salienta que os meios de comunicação de massa, principalmente na América Latina, tornaram-se propulsores da ideologia dominante e do poder político. Ela mostra a indústria cultural como manipuladora de mentes, principalmente a infantil - uma verdadeira tabula rasa.
O episódio "Freeway Fraco", comentado acima e exemplificado em
Pica-pau: Herói ou Vilão?, traz consigo o mito americano do lar indevassável. O "lar doce lar" do Pica-pau é a sua propriedade privada. É um lugar "sagrado". Este não pode ser destruído por ninguém, por nenhum outro interesse que não seja o dele. E ele faz tudo para conseguir isso; não abdica de seus direitos à parte para a agressão.
Vê-se aí nitidamente o capitalismo impregnando a ideologia infantil, enquanto que valores morais, como tratar bem os outros, ficam em segundo plano. Dessa forma, o protagonista massacra Homero, o empregado que está ali apenas cumprindo ordens.
O desenho também faz apologia ao automóvel como fonte de lazer. Criado em época em que a indústria automobilística estava em crescimento, a narrativa relaciona a história do
freeway, solução adotada pelos Estados Unidos para atender à demanda das linhas de montagem, incentivando os veículos próprios, ao invés dos públicos.
Outro mito apresentado por Elza no episódio analisado é o do herói. Sempre bons, eles fazem somente o que é certo, mesmo que da maneira errada. No caso de Pica-pau, há uma inversão de valores. No caso da construção da auto-estrada, o representante do bem ficaria ao lado do bem público, facilitando a vida dos usuários da estrada e, assim, derrubando o obstáculo: a árvore. Todavia, não é isso que acontece. Egoísta, o Pica-pau isoladamente defende os seus direitos em detrimento do bem social.
Ave chata
O desenho do Pica-pau foi criado em 1940 por Walter Lantz. Ele foi muito perturbado por um pássaro destes que bicava seu telhado. Irritado, criou um personagem violento, inspirado na chata ave de seu teto.
Dessa forma, embora engraçado, o bicho antropomorfizado passa uma imagem distorcida da realidade a seu público. As crianças passam a identificar-se com o personagem. Prova disso é que 97,5% dos meninos e meninas da pesquisa disseram preferir o Pica-pau aos outros personagens do episódio, sendo que 90% delas gostariam de ser como ele.
As crianças entrevistadas por Elza comentam o porquê da preferência: "ele engana os outros, ele sabe se defender", "ele engana os outros e se sai muito bem", "ele é esperto e danado". Quanto a querer ser como o Pica-pau, defendem: "o Pica-pau, porque ele voa", "o Pica-pau, porque ele é safado", "o Pica-pau, porque ele é sabido e esperto". Depois de atribuir tantas características "negativas" ao protagonista, 67,5% ainda o julgaram como o mais bonzinho da estória.
Em outro momento da pesquisa, crianças afirmaram o porquê de gostarem tanto, sendo que muitos outros desenhos animados existem. Sabe por quê? Porque "ele rói a árvore e ela cai na cabeça dos outros", "ele destrói árvores e faz malvadezas", "ele gosta de dar bicadas nos outros".
Elza discorre: "(...) mostram-nos um mundo irreal onde as coisas simplesmente acontecem não se sabe como, quando e onde. Por outro lado, as contradições não são mostradas, pois enquanto o Pica-pau lutou e venceu pelos seus direitos de posseiro, nós aqui não temos isso e não podemos reagir como ele. Então até que ponto tais conteúdos não geram uma forma de alienação?".
Finalizando, Pica-pau: Herói ou Vilão? diz que "os divertimentos devem ser criativos, mas não a partir da fuga do real, mas sim a partir do real. Será que para um País como o nosso, a indústria do desperdício nos interessa? Será que a moral deles, a esperteza - em que o 'bem' é salvar o que é seu - é útil para as nossas crianças?".
Terminada a argumentação de Elza Dias Pacheco, você dá a palavra ao advogado. Por fim, o veredicto é seu. E então, a ave antropomórfica é culpada ou inocente?
criação: lisandro staut
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