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Minhas costelas doem

Fernando Torres

Quando se fala a respeito do espaço conquistado pelas mulheres no campo jornalístico, predomina o otimismo. Alardeia-se que pouco mais de 50% das redações são compostas por mulheres; dessas, 16% ocupam cargos de chefia. Lamento, mas não consigo me unir à exaltação desses números. Chego até a pensar que o estado lastimoso no qual se encontra nosso jornalismo é culpa de tal índice.

Antes que me apedrejem, vamos aos fatos. Comecemos dando uma olhadela na mídia feminina. Entre todos os libertinos, devassos e despudorados magazines femininos, Nova, Marie Claire e Claudia são os piores. A imprensa cor-de-rosa busca apenas suscitar a sexualidade de suas leitoras, transformá-las em máquinas sexuadas. O nível é baixo, muito baixo. Pior, é feita por mulheres.

Em contrapartida, os programas femininos ignoram a modernidade e fazem jus ao ditado "a mulher esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque". Bolos, tortinhas, assados, pães e outros quitutes para deixar o marido e os filhos gordos e contentes compõem a pauta diária - tudo regado às notícias da vida alheia.

Pelo menos o estilo "casa-cozinha-e-roupa-lavada" tem lá sua utilidade, pois aí vai mais um dado negativo da ascensão da mulher: o ingresso no mercado de trabalho piorou as condições de vida da maioria das mulheres. Agora elas conciliam duas jornadas diárias. Tolinhas...

Falemos agora da mídia convencional, invadida pelo sentimentalismo feminino. Em vez de levarem trabalho pra casa, as mulheres trazem a casa ao trabalho. Por qualquer bobagem, deságuam em lágrimas. Quem não se lembra de Madalena Bonfiglioli, a chorona do extinto Aqui e Agora (SBT), mais tarde posta de escanteio por não conseguir se controlar diante de qualquer cena um pouco mais forte? Aí vêm as feministas de plantão me lembrar do ex-global Léo Batista que ao noticiar a morte de Ayrton Senna não conseguiu resistir ao choro. Um caso isolado.

Quando não choram, elas riem. É impossível esquecer o vexame dado por Lílian Witte Fibe, em seu Jornal da Lílian (Terra). Ao noticiar a prisão de uma senhora e seu namorado por tráfico de drogas, a jornalista começou a rir descontroladamente, tendo que encerrar o jornal online antes do previsto. Nem parecia a mesma que, anos antes, assentava-se à bancada do Jornal Nacional, com ar de intelectual e olhar feio para Bonner a cada vacilo.

Vale dar uma espiada nos programas esportivos. Até a santíssima área do Bolinha foi invadida em pleno meio-de-campo, para alegria dos marmanjos. Veja, por exemplo, Ana Luiza de Castro, apresentadora do Esporte Total (Band). Responda-me, rapidamente: o que aquela menina tem?

Desafio-o a se assentar diante do televisor e acompanhar o jornaleco do início ao fim. É impossível! A cada dez palavras ditas pela tal apresentadora, oito são abobrinhas - aliás, o programa é uma plantação de abobrinhas. Mas Ana Luiza já está lá há um tempão. Por quê? Bem, uma rápida passada de olhos pelos atributos físicos da moçoila responde a questão.

A razão do sucesso das meninas concorrentes do Globo Esporte não fica muito atrás. Certo dia, em um consultório médico, dignei-me a assistir excertos do telejornal. Era Mylena Ciribelli quem estava no comando aquele dia. Após transmitir algumas matérias insossas, a garota chama os comercias. Viro-me para o lado a tempo de ouvir o comentário de um cinqüentão: "Eu gosto dessa menina". Intrigado, decidi perguntar o porquê. "Ele é uma gracinha", foi a resposta. 

[Em tempo. Fátima, a "musa do penta", não fica muito atrás na preferência do público. O mesmo pode se dizer das ninfetas da TV Globinho, de olho nos "baixinhos" e nos pais dos "baixinhos".]

Mas nem tudo é perdição. Mulheres são ótimas cronistas, excelentes ficcionistas. Veja o exemplo de Martha Medeiros, Rachel de Queiroz ou Clarice Lispector. O problema é que isso não é jornalismo. As mulheres escritoras não deveriam tentar entrar no jornalismo, pois acabariam quebrando a cara, odiando a profissão, como aconteceu a Clarice. Ou então acabariam com a objetividade jornalística, substituindo o lead por floreios literários mais condizentes com as poesias de Drummond.

Queridas, para seu próprio bem, contentem-se com o espaço das crônicas. Quando muito, o caderno de Cultura. Ou então, façam como Marilene Felinto: usem barba!

Isso não significa que o jornalismo brasileiro está nessa miséria por culpa exclusiva das mulheres. Pelo contrário: existem muitos jornalistas homens ruins. Mas tudo tem uma explicação. As mais afoitas já estão dizendo que nos deram músculos em vez de neurônios. Não é nada disso; surrupiaram-nos uma costela.

Desculpem-me se feri o ego de alguma feminista. Sinto não poder pular de alegria com vossa vitória; minhas costelas doem. Feliz Dia Internacional da Mulher.

                                        

criação: lisandro staut