editorial | debate | imprensa | mídia
 cultura | perfil | nostalgia | opinião
  cotidiano | olho vivo leitor | e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições
| inicial

A oferta de uma dama

Ágatha Lemos

Publicidade da Kaiser: vendem-se cervejas ou seios? Já não é tão difícil discutir assuntos que envolvam a mulher. Ao contrário, tornou-se tão comum à tentativa de definir os papéis dos sexos, que é grande o número das participantes assíduas de seminários, debates e palestras que englobam o tema.

Também é grande o número de pessoas que, de forma mais discreta, buscam um apoio na literatura psicológica que justifique sua postura. Outras ainda procuram num terapeuta as definições básicas de como ser mulher.

O conflito que o sexo feminino tem enfrentado está mais relacionado a sua função ontológica do que com sua produção física, respaldada por um arsenal de acessórios e modismos, capazes de criar uma imagem sem rasuras. Se por um lado, as culturas industrial e de massa consolidaram a figura feminina através de sua presença e divulgação, por outro enfraqueceram sua totalidade, dando-lhe a opção de ser ou inteligente ou sedutora.

Enquanto são analisados os prós e contras das opções, a mídia escolhe, autoritariamente, a mulher-objeto, a mulher sensual, a mulher padrão dos desejos masculinos. A publicidade, em especial, está carregada de um erotismo incoerente. Vendem-se chocolates ou bocas? Meias ou pernas? Cervejas ou seios? Perfumes ou corpos?

A criatividade pós-moderna não segue uma linha racional; não confia no valor do produto para convencer seu público-alvo a consumi-lo, mas o vende fazendo uso do impulso emocional da busca do prazer inerente ao ser humano. O prazer do homem em se envolver, ilusoriamente, com a mulher ideal. O prazer da mulher simples em se projetar na provocante.

O uso mercantil do corpo da mulher é um resultado da desconstrução social não só de seu papel, mas principalmente do papel masculino. A ascensão feminina aliada à revolução sexual constrói uma mulher mais independente e ameaçadora. O homem, acuado, por esse "triunfo feminino" perde suas habilidades de "conquistador", entregando-se a um passivismo frágil e inseguro. 

A oferta da dama atual transborda sobre a modesta demanda masculina. Para disfarçar o enfraquecimento viril, a mídia machista elege a mulher-objeto, despreza a mulher-sujeito e rejeita, indiscutivelmente, a mulher-sujeito e objeto, capaz de produzir, desejar sem tabus e ser desejada como, essencialmente, espera ser.

Então, qual seria o passaporte social da feminilidade? A mulher deve se acostumar à formatação ortodoxa, tão insistentemente proliferada pela mídia? Será preciso dissimular, render-se à superficialidade? Qual dos gêneros é capaz de despertar desejo e respeito, admiração e sedução, amor e paixão, sem parecer antagonismo?

Provavelmente essas são as inquietações mais freqüentes da mulher autônoma. Mulher que no seu íntimo ainda acredita ser percebida com amplidão em detrimento aos focos unilaterais de sua existência. Mulher que pretende fazer conhecida sua capacidade de valorizar a própria individualidade, sem, contudo, esquecer-se do quanto é bom ser sócia de um homem.

                                        

criação: lisandro staut