editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Espelho do mundo

Grace Spínola


Dentre as muitas coisas que tornam o Brasil mundialmente conhecido, as novelas ganham atenção especial. Considerada como inutilidade pública, perca de tempo e o auge da futilidade, a famosa novela continua controlando altos pontos de Ibope. Elas fazem o maior sucesso entre um público cada vez mais composto por homens e mulheres, seja em horário nobre ou não. Quem poderia dizer que nunca assistiu sequer um capítulo?

A despeito do que alguns acham, novela é arte. Com temas românticos ou não, elas conseguem despertar a magia da arte, do belo, da trama. É capaz de transformar elementos ilustres em corriqueiros detalhes do dia-a-dia. Os elencos nobres dão o toque da interpretação; os elencos fracos realçam a estória. As novelas produzem um subproduto chamado degustação. Nos testa a paciência, nos prende pela ansiedade do que está por vir; nos faz chorar por um amor impossível e nos faz sorrir por um beijo sincero de saudade fraternal. É um verdadeiro mar de emoções.

Falando das mais "recentes", podemos nos lembrar da delícia que era a investigação de A Próxima Vítima (Globo, 1995). Ou os romances de época de Forças de um Desejo (Globo, 2000) e O Cravo e a Rosa (Globo, 2000-2001). O Tonho da Lua também fez sua história em Mulheres de Areia (Globo, 1993). E a novela mais feliz do SBT, Éramos Seis (1994)? E as da saudosa Manchete, como Dona Beija (1986), Pantanal (1990) e Ana Raio e Zé Trovão (1991)? Afinal, quem matou Odete Roitman (Beatriz Segall), em Vale Tudo (Globo, 1988-1989)?

Desde os tempos áureos, a novela já tinha seu espaço garantido no coração das românticas francesas que liam os folhetins no final do século XVIII. Eram estórias carregadas de um romantismo comum, mas natural.

Já as fotonovelas utilizavam basicamente os mesmos recursos dos quadrinhos. Elas chegaram sendo uma espécie de subliteratura, questionada muitas vezes pela despreocupação com a estética. Mas o gênero também não fugia muito do cotidiano das moçoilas.

As radionovelas fizeram uma grande "revolução": trouxeram o som, mexeram com a imaginação. Era possível saber, por meio da voz, como eram o mocinho e a donzela; apenas o som das situações dava a sutileza das peças. A primeira radionovela brasileira, Em Busca da Felicidade, foi ao ar em 1942, transmitida pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro.

Mas foi a chegada da telenovela que suscitou interrogações. A imagem provocou um rebuliço na mente de muitos, que agora viam suas personagens encarnadas, muitas vezes em papéis não tão distintos, mas já existentes na antiga sociedade hipócrita.

Mas, afinal, o que é novela? O termo, derivado do francês "nouvelle", indica uma narração em vários episódios ou capítulos. Adiciona-se à poção o romantismo, para que se crie envolvimento com o espectador.

Realidade obstinada

A revista Veja (9/7/03) fez de sua capa o set de gravação da atual telenovela da Globo, Mulheres Apaixonadas, tendo como matéria principal "A paixão pela novela das oito". Por quê? Simplesmente porque a trama retrata o cotidiano de muitos.

O autor, Manuel Carlos declara somente escrever sobre aquilo que conhece, sobre coisas do dia-a-dia. Veja o taxa como um "realista obstinado". O novelista faz questão de que suas novelas sempre tenham algum assunto polêmico, mas que faça parte do cotidiano. A atual novela já abordou sobre vários assuntos, dentre eles a violência e o lesbianismo. Escândalo? Não, puro realismo.

Que a sociedade brasileira está ficando cada vez mais liberal, todos sabem. O que muitos questionam é a qualidade daquilo que a TV transmite. Há quem diga passar somente sexo e violência; que as novelas não servem para nada. Mas, por que a novela Mulheres Apaixonadas consegue mais de 35 milhões de espectadores por dia?

Um espelho. As novelas são espelhos do que as pessoas querem e daquilo que já têm. Nenhum autor, por mais inexperiente que seja, teria a audácia de transmitir valores que ainda não foram engolidos pela grande massa. Seria imprudência, e fracasso. Exemplo disso é o tema já citado do lesbianismo, que na novela Torre de Babel (1998) não emplacou. Hoje, seis anos depois, os valores já se modificaram.

As personagens usam nossas roupas e falam nossas gírias. Debatem assuntos atuais e discutem fidelidade. Sempre há um casal divorciado; filhos de divorciados. Há também as românticas com as mais belas fantasias; os rebeldes com suas ironias. O mocinho bem educado; o mau-caráter, traidor. Os bem-sucedidos também fazem parte dessa novela e há nela os pobres e miseráveis. O caos social, a crise na comunidade. O ápice da violência; o ápice da felicidade.

A novela da vida é tão igual. Chega a ser irônico, e ao mesmo tempo patético, tão triste realidade. O que se vê na novela é o reflexo da sociedade; consumista como ela só.

                                        

criação: lisandro staut