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Ficção
em realidade
Katianne Jouguet
Deturpar a realidade e apresentá-la em forma de ficção é o que a mídia faz para sustentar a audiência. As novelas são os meios mais eficazes de manipulação e transmissão de novas ideologias. Ao retratar o cotidiano, elas sutilmente inculcam no espectador a aceitação irreflexível de valores dantes inaceitáveis. Atualmente, o homossexualismo, a falta de respeito para com os pais e idosos, a banalização do sexo, a incompatibilidade de idade entre os casais, a violência, entre outros, tornaram-se temas normais e de influência.
A sociedade irremediavelmente absorve tudo; copia tudo o que vê. Muitos dizem que as novelas são o retrato do cotidiano. Na realidade, o cotidiano que é o retrato das novelas. Portanto, as influências que estas exercem na população são palpáveis. E, infelizmente, mais negativas que positivas. Desde a época dos romances de folhetins, as tramas de ficção têm exercido um poder de repercussão que vem crescendo paulatinamente; sobretudo com a criação das telenovelas.
De acordo com Mauro Alencar, consultor da Rede Globo e autor do livro A Hollywood Brasileira - Panorama da Telenovela no
Brasil, "ela [a novela] conseguiu substituir os enlatados americanos e acho que, quando há bastante emoção, ainda é possível se parar o País para assistir ao último capítulo de uma novela".
Para atingir esse auge de aceitação, as novelas passaram por vários estágios e reformulações no decorrer dos anos. A televisão brasileira não foi a primeira a empregar esse gênero "cultural". Em 1830, o Brasil importou da França os romances de folhetins nos impressos. Diariamente, capítulos de obras literárias de outros países eram publicados. Os folhetins não retratavam o cotidiano brasileiro; eram muito distantes da realidade. Passaram-se cerca de dez anos para surgirem os romances nacionais.
Filho do Pescador, de Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, estréia como precursor do gênero.
O intuito dos folhetins era, inicialmente, incentivar a crítica dos leitores à situação política vigente e proporcionar enriquecimento cultural. Com o tempo, o folhetim se tornou mais leve. Seu conteúdo passou a ter característica de entretenimento. Era preciso manter a assiduidade do leitor. Logo, o jornal precisava de audiência. Ocorreu, então, a mercantilização da cultura a partir do século XIX.
Tudo pelo lucro! O que antes tinha o objetivo de resgatar as raízes históricas torna-se um veículo comercial. Com o tempo, os folhetins acabaram. Porém, serviram de base para o gênero das novelas em outros veículos.
Som e imagem
Em 1940, o rádio começa a investir nas radionovelas e adquire grande sucesso de audiência. Destaca-se, nesta década a radionovela
Direito de Nascer (1951), transmitida pela Rádio Nacional. Tamanho foi o seu impacto que, em seu horário de transmissão, as ruas esvaziavam.
As radionovelas tiveram seu auge, mas sumiram. Houve também o tempo das fotonovelas, que foram consideradas uma espécie de literatura marginal. Vingaram mesmo as telenovelas. A sofisticada televisão uniu o som da caixa preta e a imagem dos periódicos.
A telenovela avançou tanto, que parece que a prioridade maior das emissoras de televisão é sua transmissão. Principalmente na Rede Globo, a que mais produz e a que domina esse gênero na atualidade.
É importante ressaltar que a Globo não foi a pioneira na produção de tramas de ficção. A primeira telenovela a ir ao ar no Brasil foi
Sua Vida me Pertence, em 1951, na extinta TV Tupi. Ela era transmitida ao vivo, às terças e quintas-feiras - à época, não havia videotape.
Nos anos 60, as novelas ainda eram parecidas com as radionovelas e com as novelas mexicanas, sendo muito superficiais à realidade brasileira. Era preciso inovar; as tramas deveriam se aproximar da modernidade. A TV Tupi, em 1969, começa a transmitir a novela Beto Rockfeller, que marca o início de mudanças radicais nas tramas televisionadas.
Em 1970, Janete Clair começa a produção de novelas na Globo, ao lado do seu marido Dias Gomes. Pouco depois, a emissora atinge liderança absoluta, desbancando a Tupi. Janete Clair, escreve vários sucessos e se torna a maior novelista do Brasil. A partir desse momento, a Globo enfrenta concorrência com o SBT, Bandeirantes e com a falida Manchete. Em alguns destes períodos, ela perdeu a guerra; na maioria das vezes, ganhou. Hoje, a Globo, se consolidou como maior emissora na produção de novelas.
Reflete ou influência?
O monopólio desse mercado noveleiro é que preocupa. A sociedade se torna fortemente influenciada por apenas um veículo.
"A telenovela participa das decisões públicas como um processo de eleição política
(Eu Prometo - 1983/1984) ou deposição de um presidente da República
(Anos Rebeldes - Globo, 1992); é capaz de absorver e difundir manifestações populares
(Quem Ama não Mata - Globo, 1982) ou estimular a indiferença geral à política
(Que Rei Sou Eu? - Globo, 1989); pode igualmente interferir no cotidiano durante a exibição dos chamados 'momentos decisivos'." (Cláudio Cardoso de Paiva,
Estética de massa, Tecnologia das Imagens e Ficção brasileira, Universidade Federal da Paraíba.)
O objetivo principal da novela, não deveria ser apenas de entreter, mas de cultivar ou proliferar a cultura brasileira. Mas não é isso o que acontece. A sociedade é iludida pelo ócio transmitido nas tramas de ficção. O mundo de fantasias, muitas vezes, é almejado pelo telespectador. As personagens são ricas, namoram homens bonitos, não trabalham, etc. Monta-se uma estrutura enorme, gastam-se milhões. É preciso se aproximar ao máximo do real. Afinal, as novelas retratam o cotidiano.
Retratam o cotidiano ou mudam o mesmo, induzindo a população a mudar? Mazelas, tidas como novos valores, são lançadas ao público, que age como uma esponja. O rompimento dos preconceitos precisa acontecer. Não há mais uma questão de princípios.
A sociedade é moderna; as pessoas devem ser modernas. O que era escândalo; era escândalo. A novela faz muito bem o papel de eliminar o senso crítico das pessoas. Manipulação sutil e que gera audiência é o que a mídia anseia. A banalização da cultura gera lucro. Então, que continue a produção de novelas!
criação: lisandro staut |
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