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A proclamação da Imprensa

Fabiana Amaral

O Brasil é rico por muitos vieses. Contudo, algo marcante para quem procura saber mais a respeito do País, é analisar a história sob a ótica do jornalismo. Este observou momentos importantes de nossa história de pertinho, apesar de ausente nos primórdios desse gigante. Óbvio é, caro leitor, que isto não se dá à toa.

Demorou um pouco para o Brasil proclamar a Imprensa. Enquanto o Brasil era colônia, os compatriotas de Camões não tinham muito interesse em estabelecer uma imprensa a divulgar idéias que não fossem muito coerentes com seus interesses. No Brasil, pairavam as trevas da ignorância - não que tenha mudado muito com a chegada dos prelos.

Porém, os empolados e atrapalhados portugueses tiveram que estabelecer morada na colônia tupiniquim e, junto com eles, toda a tipografia que existia em Portugal. Isso em 1808, quando se estabelece a Imprensa Régia, no Rio de Janeiro. Mas com a chegada da imprensa, o controle que se fazia pela ausência da mesma passou a ser maciçamente expresso por meio da alienação dos novos meios. Essa era a característica própria da dominação.

Em 10 de setembro deste mesmo ano, é fundado a Gazeta do Rio de Janeiro, que mal passava de boletim oficial das atividades da família real. Desde cedo os jornalistas aprenderam a "chupar" texto; as notícias internacionais que preenchiam as parcas quatro páginas do periódico vinham de Portugal e Londres, que por meio das notícias tinham a mais bela visão do explorado Brasil. O material, que jamais deixava insinuar mais tenra contradição, dava conta de um Brasil pacífico, rico, próspero e bem administrado. Tal qual.

Mas é claro que sem uma boa polêmica não poderia haver uma boa imprensa. Foi assim que surgiu o primeiro jornal, independente dos babados lusitanos. Há quem discorde, mas... O fato é que Hipólito da Costa, brigado com a corte portuguesa e exilado em Londres, fundou o Correio Braziliense, que, na verdade, surgiu três meses antes da Gazeta do Rio de Janeiro, em 1.° de junho.

O Correio de Hipólito era mensal e possuía 140 páginas. No lugar de notícias, seu conteúdo era preenchido com acalorados artigos que tratavam da independência do Brasil e assuntos relacionados à política brasileira. Será que precisa dizer porque tinha que ser rodado noutro país? A abertura e descontrole dos portos é que facilitavam a proliferação destes jornais e outros tantos panfletários que invadiam o Brasil, com graves e agudas críticas à Coroa.

Nem tão livre assim

A censura já existia. Bem antes da imprensa até. Dos jornais produzidos no Brasil, que em sua maioria eram de amigos e puxa-sacos dos portugas, quando não deles mesmos, todos passavam pela aprovação de uns tais condes de Linhares e Galveias, que pertenciam à absurda Junta Censora da Coroa. 

Informação de verdade e jornalismo que mal e parcamente se parece com o de agora só aparece em 1821. Era o Diário do Rio de Janeiro que deixou de lado a sangrenta e baixa discussão doutrinária para noticiar o cotidiano dos mortais fluminenses. Com um misto de sensacionalismo, que predominava, também tinha anúncios de venda de escravos, jumentos e convites para bailes e leilões. A coluna social e caderno de cultura também faziam parte do periódico.

O Diário do Vintém - como ficou conhecido, pelo baixo preço -, ou Diário da Manteiga, porque anunciava a cotação da manteiga, até que teve vida longa. Durou até 1878 e com seu estilo omisso aos partidarismos e brigas políticas nem sequer noticiou a independência. Notícia, aliás, que só foi dada 13 dias depois do ato - e não teve a apoteose registrada nos livros escolares -, no jornal O Espelho, também da capital.

Nesse período, a discussão que pairava na imprensa era, claro, a independência do Brasil. A censura não existia oficialmente, todavia não era seguro testar a veracidade disso. João Soares Lisboa, dono do Correio do Rio de Janeiro que o diga. Foi o primeiro jornalista punido por abuso de liberdade de imprensa, em 1822. Outros tantos, quando não expulsos do País eram impedidos, fisicamente de exercer a profissão. Como Luís Augusto May, redator do apimentado A Malagueta. Ele apanhou tanto que ficou com as mãos permanentemente aleijadas.

A grande vedete do período de consolidação do Império foi a imprensa dos pasquins, que com o uso de caricaturas e aguerridos discursos provocam o riso dos leitores e o mau-humor dos governantes da nação. Esses jornais, não raras vezes, partiam para a agressão pessoal rebaixando o máximo possível a moral dos dirigentes políticos. Mas com a estabilização do Império, na metade do século XIX, esses jornais, sem razão de ser, deixam de existir.

A imprensa reflete o País que dá mostras de pretensão republicana e abolicionista. O conservador Jornal do Commercio consolida seu alicerce, mas a despeito dos bons artigos, o que mais chama a atenção do escasso público são os talentos literários que despontam no cenário nacional, como José de Alencar.

Diga ao povo que público

Em meio a divergências políticas e outras tantas, vão surgindo, em poucos anos, inúmeros jornais e revistas. Junto com esse fenômeno, surgem os órgãos de defesa dos interesses dos açoitados e devassos jornalistas. O soteropolitano Cipriano Barata é um deles.

Desde cedo envolvido com a imprensa panfletária e revolucionária, Barata foi um dos primeiros a levantar a bandeira da liberdade de imprensa. Segundo ele, "toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário aquela sociedade ou povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro".

A despeito de existirem jornais que agrediam o governo, muitos outros surgiam com o justo propósito de contrabalançar o cenário. E no mesmo nível. O digníssimo dom Pedro I que o diga. A coragem de manifestar-se abertamente não era exatamente seu forte, e nem sua posição o permitia. Então, sob a sombra de pseudônimos como O Inimigo dos Marotos, Piolho Viajante, O Anglo-Maníaco, O Espreita, O Ultra-Brasileiro, O Derrete Chumbo a Cacete, entre tantos outros, ele destilava todo o veneno polêmico e irreverente.

Diferente da excessiva preocupação com o estético que existe na atual era da imagem, a imprensa brasileira nos seus remotos primórdios não se preocupava em esconder a cara atrás de nomes pomposos, simétricos ou formais. Quem pegava o jornal ou revista sabia, pelo título, o que encontraria. Alguns exemplos clássicos são: O Palhaço da Oposição, O Grito dos Oprimidos, O Burro Magro, O Brasil Aflito, O Caolho, O Torto da Artilharia, O Soldado Aflito, O Crioulinho, entre outros.

Eram engraçados e até suscitavam polêmica, mas esses jornais não duravam tanto. Vida longa tinham os áulicos e mais conservadores, pela simples lógica de que quanto mais atirassem, menos tiros levariam.

Os jornais e jornalistas que fizeram parte desta época não só mexeram com o seu contexto, mas marcaram decisões posteriores e movimentos póstumos. É o caso de João Batista de Líbero Badaró, que fundou O Observador Constitucional e foi assassinado em São Paulo, em 20 de novembro de 1830. Esse é um típico caso de personalidades que se tornam mais importantes mortas que vivas.

Vamos mudar o mundo

Tomando ares de adulta, a imprensa brasileira vai aprendendo a fazer jornalismo com jornalistas. Isso não pode ser catalogado de melhor ou pior, mas é uma fase interessante, para dizer o mínimo. 

A onda de jornais republicanos que surgem, já no final do século XIX, denota uma tendência para o idealismo utópico. Não que não devessem sonhar, mas os jornais davam a clara idéia de que mudariam o País, se lhe deixassem. Os jornais mais conservadores assumem posturas mais rígidas, com cara de senhor de terno escuro, sabe? Nessa época surge mais um pequeno senhor: A Província de S. Paulo, em 1875 que, não tarde, muda para O Estado de S. Paulo. Ícone do conservadorismo.

Após o estabelecimento da República, o jornalismo segue a onda e passa a ser encarada com mais seriedade. Nesse período, em meados de 1900, a imprensa vai deixando de se caracterizar por uma pessoa para consolidar a fase empresarial. Agora não é mais só Fulano ou Cicrano quem briga, mais o jornal tal e a revista tal.

Com o advento das cores na imprensa, não demorou para a novidade ganhar ares de imponente. Surge no Rio de Janeiro a revista precursora das noticiosas semanais que conhecemos hoje. Jorge Schimidt é o pai da Careta, lançada em 6 de junho de 1908.

O jornalismo era tido como paixão e por muito tempo foi marcante o fato de não haver jornalistas ou correspondentes fora. Principalmente no período anarquista. As matérias eram enviadas de toda parte por colaboradores. Eram pessoas que viam a imprensa como proteção e para lá mandavam reclamações de abusos e denúncias mil. Fosse denúncias de abuso de mulheres e crianças no trabalho ou outras do gênero.

Forte e submissa

Essa fama foi crescendo e os governantes foram se dando conta de que a história do Brasil não poderia mais ser escrita sem o aval da imprensa. Getúlio Vargas que o diga. Criou departamentos especiais de imprensa que mais cuidavam de subornar jornais e jornalistas que qualquer outra coisa. Tratou de usar e abusar do poder do rádio, que abrigou a Hora do Brasil.

É bem por esse período que começam as coerções mais sistematizadas contra a imprensa brasileira. A ovelha negra não poderia andar a solta, sem cabrestos bem firmes. E, por meio de leis e medidas, a imprensa e seus redatores sofrem represálias.

Mas isso só serviu para mostrar que brasileiro dá mesmo jeitinho para tudo. Em meio ao festival de censuras, entram em cenas também os veículos com carinha de anjo e fogo do capeta.

Com a imprensa reprimida e o risco do povão desconfiar, o jeito foi jogar porcaria em suas mãos para entreter. Surgem então publicações como a revista Carioca, voltada a assuntos relacionados à música, cinema e rádio. Que diferente de hoje, não? Faziam ressaltar idiotices e artistas indignos do título para manobrar a massa.

Entretanto, com arte e habilidade, alguns jornalistas pulavam a cerca, como Samuel Wainer, que driblava a censura no semanário Diretrizes. Ele fundou a revista em 1938 em plena Ditadura Vargas com a pretensão de impedir a marcha nazista pelo mundo. Não conseguiu isso, mas deu o que falar, principalmente depois de lançar o jornal Última Hora, que com o dinheiro do conde Matarazzo avançou na tiragem e nos cutucões no presidente Vargas, agora eleito para o segundo tempo.

Isso em 1951. Dois anos depois a famosa e conceituada Time publicava artigo elogioso e espantado com o veículo que despontava com um time de repórteres de primeira linha, somado à qualidade técnica (impressão colorida e enormes fotografias). Esse jornal foi o primeiro a publicar fotos coloridas de jogadores de futebol na primeira página.

A revista O Cruzeiro foi outra que causou estardalhaço. A começar pelo dono. Assis Chateaubriand ajudou a modelar a história do Brasil nas páginas da revista que nasceu na década de 1930 e faleceu 45 anos depois. Essa história está registrada nas inovadoras e atraentes reportagens longas que marcaram O Cruzeiro e esta fase da imprensa.

Quebrando e construindo paradigmas

Na dura fase da farda nasceu mais uma revista, a Realidade, mas logo descobriu que o gênero generalista já não funcionava mais. As revistas começam a se adequar à realidade de que o leitor queria algo mais segmentado e suas páginas passam a contar com parte da história.

Muitos outros veículos foram surgindo e muitos deles morreram nos porões da ditadura. Com o surgimento da tevê, o Brasil vê sua história ganhar contornos nem sempre louváveis. A imprensa tem ares de competitividade mais agressiva. É a luta pela dominação massiva. Visível a quase todos. A imprensa não mais é parte da história brasileira, mas faz acontecer certas histórias. Coisas familiares como o movimento Diretas Já, impeachment, as eleições então... nem se toque no assunto.

Mas perdeu muito da credibilidade que tinha lá nos idos tempos das fraudas. Na vida adulta a imprensa brasileira, bem como sua pátria perdeu os sonhos e a aura inocente dos xingos aguerridos. E junto também foi a paixão devota de outros tantos. Paulo Francis, citado no livro Grandes Pecados da Imprensa, com sua mordacidade habitual garante que nem na data do jornal se pode confiar. "Se possível confirme-a no calendário mais próximo."

Segundo Nelson Werneck Sodré, em seu clássico História da Imprensa no Brasil, "a grande imprensa brasileira opera, na fase atual, uma tarefa que nunca antes desempenhou: a de deformar a realidade ou a de escondê-la".

E mais, às vezes, a história é bem diferente da notícia. É, a imprensa virou mocinha. Saiu da barra da saia da mãe e proclamou sua independência, junto com sua prostituição. Tal qual o Brasil.

                   

criação: lisandro staut