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O melhor lado da moeda
Fabiana
Siqueira
Todos sabemos que a história é apenas uma questão de ponto de vista.
Portanto, os feitos do jornalismo pelo Brasil podem ser encarados como heróicos
por alguns e vergonhosos por outros. Tentemos então, encontrar pontos
menos controversos desta longa história.
A imprensa chegou ao Brasil na bagagem da família real portuguesa quando
esta veio refugiar-se dos ataques franceses a Portugal. Mas não tinha
absolutamente caráter comunitário, pois jamais podia falar contra a
coroa. Porém, mais tarde, quando dos primeiros gritos de independência,
a imprensa foi fundamental para fomentar o desejo de liberdade na colônia.
Já no Brasil imperial, os pasquins contribuíram muito para dar voz a
diversos grupos sociais. Eram jornais de formato crítico, com características
panfletárias que refletiam as contradições sociais e políticas e
influenciavam no andamento dos acontecimentos.
Durante o período republicano, os jornais passaram a defender a República
e a abolição da escravatura, chegando a 74 o número de periódicos
neste sentido. Machado de Assis chegou a dizer da imprensa nesta época:
“Houve uma coisa que fez tremer a aristocracia mais do que os movimentos
populares, o jornalismo.”
Para defender a liberdade de expressão e os interesses da classe jornalística,
surgiu em 1908 a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), com a
participação de apenas oito jornalistas. Depois de um turbulento período
de perseguições políticas e mortes, a ABI hoje é defensora da
liberdade de imprensa e do diploma de jornalismo, além de divulgar livros
escritos por jornalistas.
A imprensa anarquista foi responsável por dar vazão aos sentimentos e
realizações da classe operária. Os jornais anarquistas lutavam contra o
trabalho infantil e o excesso de trabalho feminino, divulgavam peças
teatrais e programas culturais apresentados pelos trabalhadores e
reivindicavam direitos do proletariado. Em 1934, Getúlio Vargas atendeu
aos gritos trabalhistas veiculados pela imprensa e outorgou a Carta do
Trabalho, que sintetizava as reivindicações do povo.
Um sentimento novo surgiu na imprensa durante a ditadura. Impedidos de
divulgar a barbárie política da então conjuntura nacional da época, os
jornalistas sentiam-se amarrados e lutavam como podiam pela liberdade de
imprensa. Muitos perderam a vida por não obedecerem aos programas de
censura do governo, outros foram exilados em países distantes ficando
longe da família, amigos e da pátria pela qual "guerreavam". A
imprensa que conseguiu driblar a censura foi fundamental para a queda da
ditadura militar no Brasil.
Após a abertura política, a imprensa assumiu um caráter mais
empresarial, é verdade, mas não deixou (pelo menos não totalmente) de
defender os interesses do povo brasileiro. Apesar do escândalo Collor,
cujo erro manipulador a imprensa pôde corrigir em tempo, o jornalismo
sofreu grandes transformações. Esta mudança pôde ser percebida nas últimas
eleições presidenciais, quando a imprensa agiu da forma mais imparcial
possível, evitando ser alvo de novas críticas sociais como sempre
aconteceu em ano eleitoral.
Por meio da história podemos perceber a importância da
imprensa como incentivadora da liberdade, dos direitos do povo, da
conscientização política, do fim das injustiças sociais. Embora
amplamente criticada pelo posicionamento patronal que adquire em muitos
casos, a imprensa sempre foi responsável de alguma forma pelas grandes
mudanças no cenário nacional. Este talvez seja, não apenas o outro, mas
o melhor lado da moeda quando se trata de imprensa.
criação: lisandro staut