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Testemunha
ocular
Ágatha Lemos
Muitos fatores são importantes no desenvolvimento de um país. Também são vários os motivos que justificam a hegemonia de uma nação. Além de economia estável, investimento em pesquisa e tecnologia, moeda forte, etc., um outro elemento contribui, seguramente, para a autonomia de uma pátria: o sistema de comunicação.
A mídia não só noticia, anuncia ou denuncia. Ela funciona ainda como uma fábrica de imagens positivas, tornando, comumente, os países desenvolvidos na "terra prometida" para a periferia global.
Ao mesmo tempo, os que possuem uma imprensa eficaz, em suas diversas formas, podem, por meio do monopólio da informação real, criar dependentes em território nacional e internacional.
Diante disso, é relevante analisar a relação imprensa-Brasil a fim de que sejam compreendidos os porquês de uma sociedade vacilante.
A imprensa séria, com capacidade de discernir entre o verídico e fictício e tornar esta dicotomia clara ao público-alvo; que luta pela defesa do patrimônio nacional, como diz Fernando Segismundo (presidente da Associação Brasileira de Imprensa); que educa por meio da informação; que denuncia crimes de indivíduos comuns, mas também de grupos organizados pertencentes ou não às classes elevadas; que promove a democracia brasileira e divulgue a política construtiva; e que critique, opine e acima de tudo sugira. Sem dúvida, este é o tipo de imprensa que já ajudou, ajuda e ajudará o Brasil a desenvolver e a superar seu atrofiamento social.
A história afirma que quando a imprensa agiu assim, teve dois resultados antagônicos: anistia e exílio, sendo este último a exposição do contra-senso de governantes ilegais.
Segue-se um breve histórico da imprensa brasileira:
:: Brasil colonial
Gazeta do Rio de Janeiro (1808 a 1822) - Jornal de quatro páginas. Sua pauta incluía a publicação de atos oficiais, notícia sobre a saúde dos príncipes europeus e informações sobre a
família real. Este jornal estava sob a administração portuguesa e, portanto, não falava em democracia e não fazia críticas. Não podia ir contra a religião, o governo e aos bons costumes. As notícias revelavam um Brasil onde não havia reclamações ou queixas.
Correio Braziliense (1808-1822) - Mensal, de 72 a 140 páginas. Falava sobre política, comércio, arte, literatura e ciências. Discutia as questões que afetavam o Brasil, Portugal e Inglaterra. Foi criado por Hipólito José da Costa, exilado na Inglaterra pela Inquisição Portuguesa. Pretendia atacar os defeitos da administração no Brasil, a corrupção e imoralidade e criticava os monopólios portugueses e ingleses. Defendia o livre comércio com outras nações e o abolicionismo. Era contrário aos ideais da independência.
:: Brasil imperial
Diário do Rio de Janeiro (1821 a 1878) - Notícias do cotidiano: furtos, assassinatos, diversões, espetáculos, observações, meteorológicas, correios, anúncios de venda de escravos, leilões, compras, vendas, achados e aluguéis.
Sentinela da Resistência (1823 a 1835) - Publicado todas às quartas-feiras. Defendia a independência com mudanças radicais e era contra a escravatura.
Crítica ao poder. Criado por Cipriano Barata, um dos pioneiros da liberdade de imprensa.
Pasquins - Vários e sem periodicidade. O Palhaço da Oposição, O Grito dos Oprimidos, O Burro Magro, O Brasil Aflito, O Caolho, O Torto da Artilharia, O Soldado Aflito e
O Crioulinho são apenas alguns nomes. Possuíam característica panfletária e linguagem violenta. Eram usados pelos partidos da época: Direita Conservadora, Direita Liberal e Esquerda Liberal. Entre 1832 e 1833, 14 periódicos sustentavam o governo e 21 faziam guerra aberta.
:: Brasil republicano
Diário de São Paulo (1865) - Inaugura a primeira máquina de impressão em grande formato. Neste período, apareceram revistas e jornais com várias linhas. Alguns abordavam as inquietações dos jovens, outros falavam da reforma judiciária e eleitoral, de abolição da escravatura, extinção do recrutamento militar e Guarda Militar. A reforma da imprensa, a literatura e as preocupações nacionais também eram assuntos abordados.
:: Brasil na Era Vargas
Revista O Cruzeiro (1928-1975) - Resenha do noticiário nacional e internacional da semana com farto material fotográfico, reportagem sobre fauna e flora brasileiras, colunas social e política, cinema, rádio e teatro. Ficou marcada pelas grandes reportagens. O veículo teve a benção de Getúlio Vargas, então governador do Rio Grande do Sul.
1945 - O Estadão, inaugurado em 1875, volta a ser dirigido por seus donos após terem sido exilados. Foi logo ocupado pela polícia novamente por continuar atacando ao poder vigente. Seus assuntos estavam sempre carregados de ataques a Getúlio.
Última Hora (1951) - Patrocinado por Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro e pelo conde Francisco Matarazzo. Investia em crônicas, no cotidiano do presidente, em notícias quentes e reivindicações populares. Tornou-se um jornal popular, como queria Getúlio.
:: Brasil militar
Revista Realidade (1966) - Trazia informação, diversão, seriedade, honestidade e entusiasmo. Após o AI-5, todas as abordagens de grandes temas, análises de fatos para leitores lúcidos estavam sob censura. A revista é tida com menos interesse porque o público passa a buscar informações mais fragmentadas. A televisão resumia tudo e impunha velocidade nas informações e a aceitação da imagem, da recepção imediata.
Revista Veja (1968) - Paisagens suíças e toda semana se falava sobre os que barbarizavam o país. Foi extremamente censurada, chegando a publicar fotos de demônios no lugar das matérias abortadas.
O Pasquim (1969) - Publicava textos leves, irônicos, cartoons que fizessem rir como alívio ao regime militar.
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Outros dados importantes, desvinculados de algum veículo específico também precisam ser ressaltados:
1821 - Fim da censura prévia. Os jornais procuravam mobilizar a opinião da colônia contra a dominação portuguesa. A imprensa era doutrinária; a linguagem, violenta. Vários jornalistas defendiam a independência enquanto outros procuravam combatê-la.
1822 - Soares Lisboa é o primeiro jornalista punido por abuso de liberdade de imprensa.
1837 - Começa a ser usada a caricatura.
Com a organização urbana começa a surgir um jornalismo mais conservador e a imprensa abolicionista começava a crescer. Surgem também jornais com idéias republicanas.
Foi neste período que os ideais republicanos conquistaram a imprensa. Ao virar empresa, a imprensa fica sob o domínio do Estado e do capital. Com a chegada dos colonos europeus que substituíram os escravos, começa a nascer a imprensa operária, ou anarquista, no início do século XX.
Ainda na imprensa da República, é lançada a revista Careta, ilustrada e vinculada à atualidade com charges, caricaturas e literatura.
1908 - Fundada a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) com a finalidade de defender a liberdade de expressão e os interesses da classe jornalística. O jornal da ABI defendia o diploma de Jornalismo e divulgava livros de jornalistas. Surge também a imprensa anarquista, com idéias e ações que rejeitavam a dominação exterior ao homem e propondo a reconstrução da vida em comum sobre a base da vontade individual autônoma.
1935 - É decretada censura à imprensa. Constituição de 37 regulamenta censura à imprensa que seria exercida pelo Estado, por meio do DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda, estruturado em moldes nazistas. Este controlava a imprensa, as rádios e emitia listas de assuntos proibidos.
1938 - Inaugurada a Hora do Brasil, hoje Voz do Brasil.
No Estado Novo, os jornais tinham duas opções: resistir, correndo o risco de serem confiscados ou transformarem-se em órgãos de propaganda da Ditadura. A entrada do Brasil na 2.ª Guerra Mundial acarretou mudanças, pois em respeito à União Soviética forma suspensas as propagandas anticomunistas. Os jornais tiveram liberdade de se posicionar a favor dos aliados, da democracia, contra as ditaduras fascistas.
1968 - É decretado o AI-5. Com ele, a censura se estabilizou. Nos primeiros anos, ela visava mais à divulgação de atos terroristas, divisão nas forças armadas e no governo. Depois passou a esconder corrupção, torturas, violências policiais e até epidemias. Os proprietários dos meios de comunicação tiveram duas posturas: curvar-se diante das ameaças do governo ou resistir ao arbítrio. A maioria dos órgãos de imprensa procura mostrar que estava sob censura.
1972 a 1975 - A censura federal envia mais de 300 comentários comunicados aos grandes jornais do Brasil. Notícias e comentários políticos são proibidos, principalmente sobre a sucessão de presidentes, manifestações estudantis, abertura política, choques entre policiais e subversivos, denúncias da igreja contra atentados aos direitos humanos, críticas à política econômico-financeira do governo, entrevistas de ex-ministros e outros temas.
1982 a 1985 - O presidente Figueiredo anistia os exilados políticos e conclui a abertura, acabando com o período negro do Brasil. A censura da imprensa pela política havia acabado, mas permanecia a econômica, imposta pelos anunciantes dos meios de comunicação. O maior censor volta a ser o dono do meio de comunicação.
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Este breve relato omitiu muitos nomes, veículos e episódios devido à grandeza do todo. No entanto, fica claro que em todo o tempo da história da imprensa brasileira o interesse do governo em estar ligado de alguma maneira aos meios de comunicação.
Nestes quase 200 anos da imprensa no Brasil, são indiscutíveis o avanço e desenvolvimento tecnológico que hoje, inclusive, oferecem instantaneidade virtual. Passíveis de discussões são as pautas, os monopólios e oligopólios e, sem dúvida, a pequena demanda pública diante de toda produção midiática do País; quem a imprensa brasileira alcança, quem dela se utiliza como meio confiável de informação.
A importância do jornalismo brasileiro não é avaliada apenas nas resoluções de grandes investigações, mas também na constituição do entendimento dos indivíduos das variadas classes. É por isso que o jornalismo cultural tem seu valor, proporcionando análise, crítica, idéias.
A importância está ainda em sua nacionalidade a fim de que se produza em cima da realidade local e divulgue as notícias de interesse universal, fundamentadas pelo relato de uma empresa jornalística brasileira. Evita-se, assim, a reprodução de fatos pré-elaborados pelos países envolvidos nos acontecimentos.
O objetivo de uma imprensa deve estar em funcionar como uma testemunha ocular, com todos os sentidos aguçados. São olhos que vêem fatos, ouvidos que ouvem diálogos, mãos que tateiam provas, nariz que reconhece odores e finalmente voz que proclama verdades que favoreçam a emancipação de um povo.
A história que se escreverá da imprensa de hoje e de amanhã, com certeza, terá censura e irrealidade em seus registros como a história de ontem comprova. Mas será a sociedade vigente que estabelecerá a verdadeira referência quanto ao progresso ou o raquitismo de nossa imprensa brasileira.
* Fonte histórica: Texto compilado pelo professor Dirceu Fernando Lopes - ECA/USP.
criação: lisandro staut |
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