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Liberdade da imprensa

Katianne Jouguet


Desde que foi instaurada a Imprensa Régia no Brasil, em 1808, os veículos de comunicação eram dominados pela corte portuguesa. Não havia liberdade de expressão nem notícias de cunho jornalístico. As pessoas recebiam informações pessoais do rei, como se o jornal fosse um "romance de folhetim". Logo, o impresso a Gazeta do Rio de Janeiro, de quatro páginas, publicava uma novelinha. 

Do século XIX ao XXI não mudou muita coisa. A diferença é que hoje a liberdade de imprensa facilita a prática de grandes imperícias na mídia. A população alienada desde os tempos da monarquia portuguesa, continua ignorante aos fatos noticiados pelos meios de informação. Não deveriam ter decretado liberdade de imprensa, mas sim a liberdade da imprensa.

Justiça seja feita. Houve jornais que realmente lutaram pelo direito de expressão. O impresso Sentinela da Liberdade, do pernambucano Cipriano Barata, não escondia as mazelas do poder. De acordo com Barata, "toda e qualquer sociedade onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela sociedade ou povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja debaixo de que pretexto for, é povo escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro".

Isso aconteceu com a maioria dos veículos de comunicação. No decorrer da história brasileira, tais meios sofreram censura prévia e se tornaram escravos dos poderosos. A dominação, neste ínterim, se dá no modelo de pirâmide. A base - a massa - é dominada pela imprensa que está sob o domínio do poder político. Essa pirâmide histórica é inserida nas decorrentes épocas políticas do Brasil. A dominação é uma questão enraizada.

Jornais e revistas que não se submetiam aos interesses do governo não tinham vida longa. Sofriam censura e seus idealizadores eram cassados e muitas vezes, assassinados. Foi o caso de Libero Badaró, fundador do Observador Constitucional.

Por sua vez, os veículos de comunicação conservadores faziam sucesso e cresciam suas audiências. A imprensa conduzia a sociedade ao pacifismo e a satisfação com a situação político-econômica. Segundo Machado de Assis, "houve uma coisa que fez tremer a aristocracias mais do que os movimentos populares, o jornalismo".

A credibilidade da mídia aumentava paulatinamente. O poder de convencimento que exercia sobre a sociedade era impressionante. 

Subordinação voluntária

Hoje, esse poder é muito mais abrangente. Não há mais censura ditatorial, como no período militar de 1964. Dez anos de subordinação ao governo ou resistência aos seus ditames. A imprensa agora é livre. O governo não mais comanda. Há liberdade de expressão! Há liberdade de expressão?

Engana-se quem acha que tal existe ou, alguma defesa da ética jornalística na imprensa. Os interesses apenas mudaram de cadeira. O jornalismo se tornou uma empresa. Tudo vale pela audiência. Proprietários de jornais se curvam aos interesses mercantis e políticos. Agora não porque são pressionados, mas porque querem. O idealismo perdeu seu espaço.

De acordo com Carlos Alberto Di Franco, "o jornalismo, como qualquer negócio, não existe para perder dinheiro (...). No entanto, ética e lucro nas empresas, também nas companhias de comunicação, não devem ser realidades antagônicas". Ele acrescenta que "a mídia, numa sociedade dominada por esquemas cartoriais, assume significativa parcela de responsabilidade". ("Jornalismo e bom humor", O Estado de S. Paulo, 25/11/02).

Responsabilidade para com a população na integralidade dos fatos é o que falta à imprensa. Inúmeros foram os atos antiéticos cometidos pelos veículos de comunicação no Brasil. As alterações que estes trouxeram à história político-econômica brasileira não foram ínfimas. As Organizações Roberto Marinho que o digam. Assim como os Civita, nas eleições presidenciais de Fernando Collor de Mello.

O partidarismo vigente em diversos veículos de mídia não se restringe apenas a Globo e a revista Veja. Não faz muito tempo que Vargas, no Estado Novo, incorporou a então poderosa Rádio Nacional. Esta, devido à sua influência, aumentou o populismo do ditador Getúlio.

Televisões, rádios e impressos. Todos dominaram e dominam a sociedade. Interesses, mesquinhos ou não, deveriam ser atendidos. Fossem do governo e políticos ou de donos dos veículos. 

A opinião pública nem sempre é bem-vinda. O que importa é a audiência. A liberdade de expressão da imprensa é unilateral. Atende aos interesses de uma minoria somente.

O jornalismo voltado em defesa à cidadania é apenas retórico. A escolha de notícias que serão divulgadas transforma a sociedade num fantoche manipulado por todos. Ninguém sabe até que ponto uma notícia é verdadeira. Conteúdos esdrúxulos são difundidos pela mídia. O povo virou escravo, pois não consegue se desvencilhar de informações que cada vez o tornam mais cativo.

                                        

criação: lisandro staut