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Presidência. Há vagas!

Davi Basso


Ninguém na história da Presidência é mais folclórico que Fernando Collor de Mello. Travessuras ou heroísmos à parte, ele era a oportunidade que os empresários estavam procurando. Em toda sua história, nunca a imprensa mostrou seu partidarismo tão escrachado. Numa era de incertezas, o povo descobriu que "os testas" da mídia se colocaram acima do cidadão de bem.

Mas, como diz o ditado popular, muita água já rolou desde que Collor foi candidato. Não só na cascata da Dinda, mas também nas Ilhas Caimã, no confisco da poupança e até na compra do legista. Num episódio ímpar, em que seu colega de profissão prometeu entregar o diploma, caso o laudo da morte de Paulo César Farias - o PC - fosse mesmo apurado. O que fica de tudo isso? Para o povo, quase nada; para os donos do poder, uma mancha no passado.

Como alegar isenção total frente à notícia, depois de uma manipulação vergonhosa do famoso debate eleitoral entre Collor, o caçador de marajás, e Lula, o sapo barbudo comunista?

Se a imagem exposta destes dois candidatos não foi esta durante todo a campanha, só a minha TV no mundo tinha programação exclusiva. Imagem à parte, o que levou Collor ao maior cargo do Brasil? O que fez com que o Brasil inteiro falasse nos descamisados e nos marajás? A este ponto, é propício perguntarmos quem tem tamanho poder para colocar jargões na boca de milhões de pessoas. Já que uma palavra não surge em nossa língua senão com severos anos para a transformação, teria a mídia influenciado à campanha?

Depois daquele debate presidencial, ninguém duvida. Numa época em que era preciso um ícone pós-ditadura para consolidar a força democrática, Lula parece uma escolha inadequada. Não fosse assim o tão conhecido sapo barbudo e comunista teria outra alcunha. Partindo daí, tudo gira em torno de um só candidato, o único representante direto da aristocracia: Fernando Collor.

Que dizer do marketing gratuito dos jornais e revistas mostrando o preferido fazendo suas caminhadas? E pousando atrás de um quadro na capa da revista Veja (3/88) com o título "O Caçador de Marajás"? Neste quadro podia se ver um soldado empunhando sua espada para o ataque. Fora as belas fotos de Collor, já como presidente, numa biblioteca guardando um livro intitulado Creio na Justiça e na Esperança.

Impeachment

Detentora de mais de 50% da audiência à época, a Rede Globo, além de manipular o debate eleitoral (mesmo "sem querer" como defende Mário Sergio Conti, autor de Notícias do Planalto), foi a última emissora a entrar na campanha pelo afastamento do então presidente. O próprio livro não esconde a amizade de Collor com o então proprietário da emissora desde sua candidatura. O almofadinha, como ficou conhecido após o afastamento, ganhava na época de sua candidatura, reportagens especiais sobre os funcionários fantasmas de Alagoas e de como o então prefeito (outro Collor) estava resolvendo o problema da roubalheira.

O similar se deu com a revista Veja, principal revista de informação do País. Entregando capas e matérias exclusivas sobre o trabalho de Collor, ela também apoiava o candidato mediante encontros com o próprio Civita, proprietário da editora. Entretanto, deve-se salientar de que todo apoio dado não era por mera preferência nominal, e sim por compatibilidade de visões, algo que o presidente costumava salientar com seus encontros.

Decorrida esta fase de apoio, a revista colaborou enormemente com o desenrolar do processo de cassação. Publicou em primeira mão a entrevista feita com o irmão de Collor, Pedro, onde revelava entranhas do poder executivo e jogava ainda mais lama no ventilador presidencial.

A IstoÉ, por sua vez, colaborou com diversas matérias para o afastamento do presidente e, principalmente, de seu tesoureiro, Paulo César Farias. Como é o caso da reportagem de capa intitulada "Ele complica a vida do governo", em outubro de 1990. Embora o estopim do processo tenha sido a Veja, a capa da IstoÉ com o motorista foi um "fechamento" para o caso.

No caso dos jornais, a Folha de S. Paulo era um dos periódicos diários que mais atrasou em relação às primeiras matérias. Confundiu nomes e ficou completamente dependente da agenda do presidente. Enquanto o País entrava em uma recessão, o governo foi se reunir em Roma. Os jornais deram maior ênfase à viagem do presidente do que à recessão. Quem deu a dica foi, o ombudsman Caio Túlio Costa, em 7 de janeiro de 1990.

Na somatória poucos caíram nos contos de Collor. Já o acusaram de oportunista, mas nunca uma história de oportunismo teve tanta oportunidade para acontecer. Graças à imprensa.

                                        

criação: lisandro staut