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Na trincheira do conflito
Fabiana Siqueira
Prato cheio para a imprensa, o conflito
entre Estados Unidos e Iraque reporta à construção imagética feita pela imprensa sobre outras guerras. De maneira sutil, ou mesmo escancarada, a imprensa não apenas noticiou a guerra, mas também lutou na linha de frente, promovendo deliberadamente o morticínio.
Entrincheirados nas mais importantes guerras, jornalistas descomprometidos com a ética cavaram a sepultura de milhões ao longo da história. Pode parecer mentira, mas, em uma guerra, a imprensa é uma das armas mais letais.
A primeira cobertura jornalística de guerra não contava com o poder da imagem. Foram as palavras e descrições dos jornalistas e também alguns desenhos que contaram ao mundo os desdobramentos da guerra entre o
império otomano e a Rússia czarista. Comandada por interesses ingleses e franceses, a chamada Guerra da Criméia durou de 1854 a 1856 e contribuiu para a inserção gradativa da imprensa nas frentes de batalha.
Já na Primeira Guerra Mundial, o avanço da tecnologia permitiu uma cobertura mais pessoal da guerra, através da fotografia e do cinema. É certo que alguns dos países envolvidos não permitiam a entrada de jornalistas estrangeiros em seus campos de batalha, portanto a informação chegava ao resto do mundo carregada de interesses pessoais. Cada país queria determinar um rumo diferente para o conflito, de acordo com seus próprios desígnios e esta tarefa era, basicamente, dos repórteres.
Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) entrou em cena um novo conceito de cobertura jornalística em confrontos: a guerra psico-ideológica. A manipulação da informação não se dava somente nas frentes de batalha, mas principalmente nas redações. Alguns jornais mais liberais como o
New York Times não aderiram ao movimento.
Gerenciadora de conflitos
Quando o mundo descobriu o poder da imprensa como gerenciadora de conflitos, o acesso dos repórteres ao centro do confronto ficou menos restrito. Durante a Segunda Guerra Mundial surgiu a cobertura radiofônica ao vivo, dando à guerra um caráter bastante verossímil, pelo menos em tese. Os repórteres começaram a ser tratados como soldados, pois usavam uniformes e tinham livre acesso aos comandantes. Para isso, a imprensa pagou um preço muito caro: nada seria dito contra as tropas aliadas, omitindo assim, muitas verdades da guerra.
Veio então a televisão, que precisava de uma guerra para noticiar. Nada melhor do que a do Vietnã para ostentar a pressuposta supremacia americana. Até que o horror da guerra passou a ser desprezado pelo mundo, causando a desistência americana.
A partir de então, as guerras passaram a ser concebidas como espetáculos. Muito do que se ouve, assiste e lê nos noticiários é mera produção jornalística para favorecer um dos lados em disputa ou para acrescentar emoção ao combate.
Quanto à Guerra do Afeganistão, os ataques terroristas e a Guerra do Iraque, a palavra de ordem em comunicação é saturação. Na falta de novas e determinantes notícias satura-se o leitor ou telespectador com análises e prognósticos maçantes. Colunistas transformaram-se em estrategistas da guerra, e a solução final para o conflito parece estar mais nas mãos da imprensa do que do governo americano.
Se o confronto armado representa a incapacidade humana de administrar diferenças, o que se dirá da imprensa que conduz a guerra? Em combate, verdade e mentira são muito relativas, ainda mais porque quem as determina é a imprensa, armada até os dentes.
criação: lisandro staut |
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