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Campos de guerra

Alex Gonsalves

Há muito que se percebeu o quanto as coberturas das guerras eram manipuladas. Os países detentores dos meios de comunicação mais portentosos sempre ganham as guerras - pelo menos, isso era o apresentado. Exagero? Observe.

Na época da Guerra Fria, os Estados Unidos controlavam e mantinham as agências de notícias. Estas cediam apenas as matérias favoráveis a eles; as que continham relatos de derrotas dos americanos eram eliminadas, às vezes até com seus respectivos produtores.

A Guerra do Vietnã é outro exemplo típico. Por todos os meios de comunicação ocidentais o que se lia, ouvia e assistia era sobre a vitória dos soldados americanos sob os vietnamitas. Centenas de filmes foram produzidos pela indústria da manipulação americana, onde eram apresentados os vietcongues como verdadeiros monstros e os soldados americanos como mocinhos, que choravam ao ver crianças indefesas e mulheres desamparadas por culpa de seus inimigos. 

Um processo lento, que dura até hoje, vem tentando mostrar uma versão diferente: quem ganhou a guerra foram os vietnamitas.

Saddam, o vilão

Na Guerra do Golfo, Saddam Hussein era o vilão. Na procura de amparar e ajudar o inofensivo Kuwait, os Estados Unidos aparecem com sua imagem de protetor dos desamparados e oprimidos. Verdadeiro motivo: controle do petróleo. A CNN, com sua videoguerra, encarregou-se de transmitir ao mundo a ideologia norte-americana, a fim de que tudo fosse passivamente compreendido.

No desastre do World Trade Center, logo se pinta a imagem do perigoso Bin Laden numa associação - forçadíssima, por sinal - ao vilão maior, Saddam Hussein. Dessa vez, imperou o sensacionalismo, catalogando o atentado como a pior ação terrorista da história. Memória fraca.

Agora, nota-se uma postura um tanto quanto diferente. Como Bush não está entre os presidentes mais espertos que a "nação americana" já teve, a mídia dá voz a ex-aliados que sentem despertar a antipatia à manipulação americana. 

O papa João Paulo II, por exemplo, tem aparecido constantemente afirmando que as guerras não resolvem problemas, como numa citação da revista Época (10/2/03) de fevereiro. Na mesma edição, Nelson Mandela disse: "Bush quer jogar o mundo num holocausto. Os Estados Unidos só estão interessados no petróleo do Iraque"

Manipulação disfarçada

Tudo isso está gerando um processo de autodetonação da imagem americana. Mas o que acontece? A mídia mudou? Está autônoma?

Quanto mais disfarçada a manipulação, mais eficaz. A mídia protege os aliados, mas não explicita demais certas ações. A falta de tato do presidente norte-americano é notável quanto ao caso do Iraque. Isso não pode ser omitido, pois comprometeria a credibilidade diante do povo. O que se faz então? Fala-se mal de Bush aqui e acolá, e discorrem-se matérias falando do que realmente interessa: o vilão Saddam será destruído.

Por que a mídia é manipulada ainda hoje? Porque ainda são os americanos os detentores dos meios de comunicação mais poderosos. São eles os donos das agências de notícias que geram e transmitem informações para os meios de comunicação espalhados pelo mundo. 

A principal função da guerra é gerar renda à indústria da guerra, que patrocinou Bush e agora quer retorno. A guerra é pelo domínio hegemonia norte-americana, a obsessão de Bush pelo petróleo, que não suporta ver potenciais recursos de posse de outros que não seja ele mesmo.

Isso a imprensa não mostra. Mas mostra que Saddam quer dominar o Oriente Médio, mostra seu teatro democrático, seus perigosos descendentes e descreve suas sessões de tortura. Por quê? Basta comparar o potencial de comunicação de um e de outro lado.

                                        

criação: lisandro staut