|
|
|
editorial
| debate |
imprensa |
mídia
cultura | perfil |
nostalgia |
opinião
cotidiano
| olho vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores | próximas
edições | inicial
Iraque,
novo Vietnã?
Allan Novaes
"As ordens que recebi foram para matar tudo o que se mexesse. Se estivesse, respirando, urinando ou defecando, era para matar." [Robert
van Buskirk, tenente e chefe de operação clandestina para exterminar desertores estadunidenses durante a
guerra do Vietnã.]
A declaração acima, obtida em reportagem conjunta entre a
revista Time e a rede de televisão CNN, retratada em matéria da revista
Veja (17/6/98), é uma das inúmeras manifestações da imprensa internacional, em especial a estadunidense, com o intuito de revelar os bastidores da
guerra do Vietnã. Após o término do conflito, em 1975, apuraram-se fatos e mais fatos sobre as feridas purulentas da guerra - que o governo Reagan (com a conivência da imprensa) tanto tentou esconder - e inúmeras matérias denunciando as atrocidades da invasão norte-americana e da hipocrisia da cobertura jornalística.
Certamente, reportagens de cunho investigativo sobre a Guerra do Vietnã continuarão a surgir de tempos em tempos, como gritos espasmódicos da opinião pública contra a barbárie do conflito. Essas matérias funcionam como uma tentativa de pedido de desculpas pela empreitada militar mais vergonhosa da história dos Estados Unidos e de sua correspondente e parcial cobertura jornalística. É como uma válvula de escape da sociedade estadunidense: ela parece sentir-se menos culpada ao denunciar os horrores das batalhas e das mortes.
Toda essa enxurrada de reportagens que denuncia os crimes da guerra e a ética jornalística durante o período de 69 a 75 apóia-se sobre dois momentos. O primeiro deles, do qual os jornalistas dos Estados Unidos se envergonham, refere-se à adesão da imprensa estadunidense, ao que o cientista político Daniel Hallin, em seus estudos sobre a cobertura da
guerra do Vietnã, chama de esfera do consenso.
Nesse parâmetro de conduta, os jornalistas e a sociedade concordam entre si. Fazem parte dessa esfera os temas que não são passíveis de discussão, cuja obviedade da concordância social elimina qualquer possibilidade de controvérsia. Hallin diz que na esfera do consenso, os jornalistas vêem-se desobrigados a cumprir procedimentos básicos da ética jornalística, como ouvir os dois lados da história. Essa conduta jornalística está presente em assuntos quando o interesse nacional está em questão - circunstância mais visível em época de guerras.
O segundo momento, do qual os jornalistas dos Estados Unidos se orgulham, está ligado à pressão que a imprensa, juntamente com a opinião pública, exerceu sobre o governo Reagan para acabar com a invasão no Vietnã - o que conseguiram no início dos anos 70. Contudo, o que parecia um despertamento tardio da imprensa estadunidense é, aos olhos de Hallin, apenas fachada. Para ele, a imprensa não deixou de ser parcial quando declarou oposição à
guerra do Vietnã. Para falar a verdade, Hallin acredita que a crença na oposição da imprensa à guerra é equivocada.
Controvérsia legítima
Além da esfera do consenso, a controvérsia legítima é outro parâmetro de conduta da ética jornalística. Nela, a neutralidade e o equilíbrio são virtudes indispensáveis; é preciso ouvir não só os dois lados da história, mas todos os que forem envolvidos - o exemplo mais notável é a cobertura das eleições de 2002.
Para Hallin, no primeiro momento do conflito a imprensa apoiou a empreitada de Reagan (em clara adesão ao princípio da esfera do consenso), enquanto o movimento contra a guerra, assim como os interesses dos vietnamitas do norte, foram deixados de lado. No segundo momento, quando a imprensa veste a camisa do movimento antibelicista, a política governamental encontra um adversário no campo das idéias.
Dessa forma, contrastando a visão do governo e da opinião pública, os jornalistas estadunidenses estariam cumprindo fielmente o princípio de imparcialidade da controvérsia legítima, certo? Errado. Embora a imprensa dos Estados Unidos tenha admitido ampliar sua visão sobre a guerra no segundo momento, ela não deixou de negligenciar a cobertura e análise dos comunistas e dos próprios vietnamitas. A
frenesi da guerra fria impossibilitou uma cobertura completa e neutra pela imprensa estadunidense.
Na atualidade, a história poderá se repetir. Considerando a atual guerra ao Iraque como a prática de uma política de ataques preventivos, motivada pelo terrorismo do 11 de setembro, será constatado que a imprensa estadunidense - e toda aquela que dela beber - terá muito do que se envergonhar novamente.
Assim como no primeiro momento da guerra do Vietnã a imprensa apoiou os Estados Unidos, o mesmo ocorreu por ocasião da queda das torres gêmeas. Esse foi o primeiro momento.
O segundo iniciou-se: o combate às tropas de Saddam Hussein. E para que a hipócrita cobertura jornalística do segundo momento da guerra do Vietnã não se repita, é necessário ter cautela no levantamento de pautas, apuração de dados e redação de matérias.
Bush versus Saddam
Embora a onda de pacifismo que acometeu a imprensa possa transmitir uma imagem de equilíbrio e nobreza - a exemplo do que ocorreu quando a imprensa se uniu à opinião pública no segundo momento da guerra do Vietnã - é importante lembrar: as aparências enganam.
No contexto atual, a parcialidade e o equilíbrio podem se perder em dois extremos: ao se levantar a bandeira do antiamericanismo, arremessando tomates contra o "ditador" Bush, ou ao amaldiçoar
Saddam, tratando-o como o "tirano" de Bagdá, a personificação do mal. Ambas as visões extremadas, fruto da ótica maniqueísta, comprometem a aplicação dos parâmetros da controvérsia legítima.
Se no futuro, após o término dessa guerra em andamento, a imprensa não quiser investir em reportagens-denúncia para deflagrar os podres dos bastidores da guerra no Iraque como pedido de desculpas para o mundo, há de se respeitar as máximas do jornalismo: neutralidade e equilíbrio.
Para que a guerra do Iraque não se torne um novo Vietnã, os jornalistas terão que abdicar das propensões ideológicas e mesmo lógicas. Deixar-se levar pela onda global do antiamericanismo e culpar os
Estados Unidos pela instabilidade internacional não parece ser o mais coerente, assim como deixar de levantar informações sobre as motivações de Saddam é quebrar o preceito de ouvir os dois lados. Afinal de contas, mesmo o "ditador e torturador de criancinhas" merece ser ouvido. Pelo menos no jornalismo.
criação: lisandro staut |
|