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Comunicação pacifista
Jairo Souza
Primavera de 1917. Primeira Guerra Mundial. Um soldado alemão é capturado por agentes secretos ingleses e com ele duas fotografias. A princípio, os retratos não passavam de cenas dramáticas comuns à guerra. Em uma delas estavam registradas cenas de cadáveres humanos, vítimas de algum conflito bélico. Em outra, pedaços de cavalos sendo enviados à fábricas de sabão alemãs. Ambas, com suas devidas legendas.
Dramaticidade, nada mais? Para o general inglês Charteris, na realidade, tratava-se de uma generosa oportunidade. No
Departament of Information, Londres, o oficial substitui as legendas. "Cadáveres são enviados para uma fábrica de sabão", inicialmente na foto dos cavalos, passou para o retrato dos corpos humanos. Em pouco tempo a manipulada informação foi distribuída pela rudimentar imprensa contemporânea.
Seu público-alvo? Os chineses. Estes estavam politicamente irresolutos a
apoiar os aliados contra as tropas alemãs. Contudo, após saberem o que os alemães, supostamente, faziam com cadáveres, decidiram-se a entrar no conflito.
Após a guerra, especialistas de propaganda e contrapropaganda da época concluíram que a profanação de cadáveres pelas tropas alemãs
chocara profundamente os chineses e seu culto aos mortos. A notícia era a arma, a China o objeto, a Alemanha a vítima.
Compromisso com a verdade
Deste a antiguidade, a comunicação foi sinônimo de poder. Na velha Grécia, gênese da democracia, a sociedade costumava discutir seus interesses comuns em praças. Ao longo do tempo, percebeu-se que os indivíduos que comunicavam melhor suas idéias segmentavam a opinião pública.
Nomes como Demóstenes, considerado maior orador grego, ganharam destaque na arte chamada retórica. Platão, Sócrates e Aristóteles, conhecedores da dimensão do poder da comunicação, empenharam-se em disseminar que tal poder deveria ser usado para fins benéficos, compromissado exclusivamente com a verdade.
Contudo, nos séculos XX e XXI, a comunicação esqueceu-se de tais conceitos. O que dizer de Adolf Hitler, considerado por alguns o maior orador do século XX? O qual, demonstrando-se perito conhecedor das técnicas da comunicação conseguiu, por meio do poderio do rádio, dos impressos e de inflamados e eloqüentes discursos, convencer seus compatriotas arianos de que sua raça era superior e a chave para um mundo de progresso e estabilidade.
Seguindo o modelo hitlerista, Joseph Goebbels manipulou igualmente a
nação alemã, fazendo crescer ainda mais o sentimento nacionalista e
xenófobo. Sob a camuflagem de sua propaganda "comunidade do
povo" (Volksgemeinschaft),
Goebbels excitou as multidões em seus discursos flamejantes.
Heresias conceituais
Será que eles conheciam bem os grandes filósofos gregos? Obviamente que sim. Contudo, seus conceitos de "bem" e de "verdade" estavam bem distantes do sentido original. O pior é que Hitler e Goebbels não foram os únicos a
disseminar "heresias conceituais".
Após o 11 de setembro, a mesma mídia que hoje cobra a paz - mediante a iminente guerra entre Estados Unidos e Iraque - foi a que cobrou austeramente uma posição do presidente Bush impelindo-o a declarar guerra ao destroçado Afeganistão.
Movida por um patriotismo doentio e por um ódio mais que sadio, a mídia se
esqueceu do velho conceito grego acreditando que uma nova guerra, com outros milhares de inocentes sacrificados, seria a solução para a dor americana.
Sabe-se que a tecnologia pós-guerra beneficiou diretamente os veículos de comunicação. Foram os conflitos que, em grande parte, permitiram a explosão dos
mass media. Foi assim com a televisão, a internet... Porém, este foi - se é que houve - o único benefício resultante das guerras.
Não só o conflito bélico e político devem ser condenados, mas o conflito capital travado entre badaladas redações e poderosas agências publicitárias, as quais, ao visarem compulsivamente o lucro, esquecem-se do compromisso com a verdade e com a ética.
Acabam assim por assassinar a inocência dos infantis mergulhando a sociedade em valores vulgares. Ah... Se os filósofos gregos estivessem conosco!
criação: lisandro staut |
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