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Admirável comunicação do mundo novo
Fernando Torres
Na década de 1930, Aldous Huxley publicava o clássico Admirável Mundo
Novo. A obra profética imaginava uma sociedade sem valores, dividida por castas intelectuais, organizada tecnologicamente e incapaz de pensar por si só. O cerne da vida ocorreria dentro de laboratórios, onde
seriam produzidas mensagens subliminares a fim de programar as ações dos terráqueos. Este cenário imaginado por Huxley se passa no século XXI.
Muita calma nessa hora. Não é porque chegamos à modernidade que nos tornamos robôs ou temos nossa vida ditada por eles, como previu Arthur Clarke, outro mestre da ficção científica, em
2001 - Uma Odisséia no Espaço. Ainda existe pensamento livre em nossa sociedade. É oportuno, porém, refletir
sobre o conteúdo que estamos consumindo, nas técnicas de transmissão de mensagens e qual o real valor da tecnologia para nossa sociedade.
A análise do futuro da comunicação pode ser feita sob duas óticas: a estereotipada, repleta de termos informatizados e tecnicistas, ou a instrumental, que se abstém de divagações e restringe-se ao palpável, posicionando-se o mais próximo possível da grande massa. Propomo-nos a efetivar a segunda opção.
Comecemos pelo meio de comunicação mais badalado, a internet. A rede, que deu os primeiros passos em 1957 e popularizou-se em 1993, com o uso das páginas
World Wide Web (www), deu asas ao jornalismo instantâneo. Jornais como o
New York Times, San Jose Mercury News e The Wall Street Journal foram os pioneiros na edição online. No Brasil, os diários iniciaram o trabalho em 1995, com destaque para
o Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e
O Estado de Minas.
De lá pra cá, a comunicação via web só cresceu. Até setembro de
1997, contabilizavam-se 4.295 jornais online ao redor do mundo. Em apenas cinco anos, a internet alcançou o número de receptores que a televisão demorou quase 15 anos para contabilizar.
O grande trunfo da internet é a instantaneidade da notícia e a sensação que ela causa ao receptor. A modalidade deve crescer nos próximos anos, mas ainda está em fase de experimentação. Todavia, com o jornalismo instantâneo, vêm de brinde a superficialidade da notícia e o acúmulo de informações.
Leão Serva, diretor de jornalismo do provedor IG, acredita que este excesso de informações provoca uma espécie de paradoxismo da desinformação-informada, isto é, o indivíduo tem algum conhecimento sobre vários assuntos, mas não domina nenhum.
"O consumidor de notícias hoje se vê enredado em um cipoal de notícias e meios que tira a sua capacidade de avaliação e compreensão das informações e possivelmente anula a sua capacidade de produzir signos interpretantes necessários para o acompanhamento de todas as notícias", escreve ele em seu livro
Jornalismo e Desinformação.
Mídias interligadas
Críticas à parte, é inegável que a internet leva vantagem sobre os outros
media por seu ecletismo. Ao mesmo tempo em que não há limite para a quantidade de texto e imagens inseridos, a
web pode abusar de recursos de som e imagem. Dessa forma, as mídias tradicionais tramitam uma interligação com a rede.
"Os meios de comunicação de massa constituem apenas uma pequena parte de uma indústria da informação que é cada vez mais dependente das ferramentas de distribuição da internet", declara Wilson Dizard Jr., autor do livro
A Nova Mídia (leia
resenha).
Ameaçados, jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão decidiram unir-se ao "inimigo". Pularam para a
web, isto é, passaram a ser divulgados por ela. No caso do rádio, alguns chegam a dizer que a internet se transformou em rádio, claro que em outro formato.
Há rádios que foram criadas especialmente para a internet, como a Rádio Manguetronic, primeira rádio online brasileira, datada de abril de 1996. A dobradinha com a internet proporcionou ao rádio inúmeras possibilidades, entre elas um arquivo para ser acessado pelo receptor. É a chamada programação
on demand.
Contudo, cerca de 60% das emissoras virtuais tocam apenas música. O radiojornalismo em si ainda não saiu da praia. Esta é ainda uma fraqueza no sistema; ao contrário do que se apregoa, o número de portais radiofônicos recheados de
hiperlinks é mínimo.
Logicamente, existem radiojornais virtuais de destaque, como a RadioClick CBN, que comporta textos, gráficos e imagens, ainda que o som tradicional possa ser compreendido sem o auxílio destes.
No quesito televisão, além dos telejornais online, o próprio telejornalismo incorpora as técnicas imediatistas da
web. Frases telegráficas, agilidade, vocabulário ainda mais próximo do coloquial e notícias sem aprofundamento fazem parte das regras do telejornalismo do novo milênio.
Modelo dessa tendência é o jornal Leitura Dinâmica, da Rede TV!, apresentado por Rita Lisauskas. Transmitido no fim da noite, o programa engloba notícias de todos os interesses de forma rápida e dinâmica. Entretanto, a impressão que se tem é que, ao encerrar o telejornal, nada foi retido. Mais uma vez, percebe-se a superficialidade da informação.
Segmentação
A comunicação caminha para um cenário em que cada veículo interessa a um público específico. Aficionados em noticiários podem assistir seus canais de notícias, simpatizantes de esportes radicais têm suas revistas especializadas, bem como mulheres garantem seu espaço personalizado nas mídias.
A segmentação seria, por assim dizer, uma das principais tendências da comunicação: a massa não seria mais massa. Com a institucionalização das revistas especializadas, canais múltiplos na TV a cabo, bancos de dados portáteis,
blogs, etc., o modelo maciço de comunicação começa a se desfazer.
"As publicações de massa estão perdendo leitores para outros produtos impressos que atraem os interesses particulares e cada vez mais reduzidos de públicos segmentados", confirma Dizard Jr., já citado.
Exemplo gritante dessa tendência é a indústria de TV a cabo, que, só nos Estados Unidos, movimenta mais de 40 bilhões de dólares ao ano. Se, por um lado, a programação segmentada atende aos interesses específicos de sua platéia, por outro, afrouxa as relações sociais do mundo real.
Em geral, o público da TV a cabo perde-se diante da multiplicidade de canais, tornando-se individual. A tradicional reunião familiar em torno do televisor dissolve-se em prol de uma programação diversificada. Sendo que a maioria dos lares que possui transmissão a cabo tem mais de um ponto de recepção, os telespectadores isolam-se em ambientes diferenciados. Soma-se a este fenômeno a indisponibilidade de horário dos membros familiares.
A decomposição pode ser visualizada sob dois prismas: o positivo revela uma busca incessante por produtos culturais diferenciados, em geral de nível superior ao proporcionado pela TV aberta; o negativo aponta o fim de hábitos tradicionais, como reuniões familiares, visitas entre amigos e o consumo de literatura. Em suma: reduz-se a possibilidade de convivência social, substituindo-a por uma programação televisiva segmentada.
Abra os olhos, Gutenberg!
Mas não é só de mídia eletrônica que gira o mercado de comunicação. Apesar de terem perdido o fôlego de seu período paleolítico, os jornais diários ainda possuem sua fatia de consumidores. Por ora, Gutenberg sobrevive; mas deve ficar de olhos bem abertos.
"Os jornais continuarão sendo uma importante presença na mídia americana por muito tempo. Contudo, para sobreviver em longo prazo, terão de adaptar seus estilos de produção editorial à nova concorrência", sentencia Dizard Jr.
Ricardo Noblat, no livro A Arte de Fazer um Jornal Diário, lista algumas regras que o jornal diário deve seguir nos próximos anos. Entre elas, destacam-se a renovação freqüente de pautas, humanização e profundidade das notícias, prévia de futuros acontecimentos e investigação. O jornalismo investigativo, aliás, é uma das grandes apostas para o jornalismo do futuro.
A segmentação não existirá para os jornais diários. Pelo contrário, os repórteres deverão ser cada vez mais capacitados a tratar de temas gerais e relevantes para toda a população. Quanto à temática, é provável que as editorias que mais crescerão nos jornais são as de Tecnologia, Comportamento e Religião, em detrimento das de Política e Economia.
Exemplo de mudanças nessa linha é o norte-americano USA Today, lançado em 1982. Allen Neuharth, seu criador, idealizou um jornal repleto de notas simples e coberturas mais voltadas ao sensacionalismo e entretenimento. Não emplacou.
O jornal só começou a dar lucro em 1993, quando abandonou o jornalismo light
e converteu-se às informações substanciais, dando a seus leitores o real sentido dos fatos. Hoje é consumido por cerca de dois milhões de pessoas, a maior circulação dos Estados Unidos.
No Brasil, tal "conversão" se deu com o Correio Braziliense. A reforma gráfica e editorial começou em fevereiro de 1994, persistiu em abril de 1996 e se aperfeiçoou em julho de 2000. Sua mais recente modificação ocorreu em abril deste ano. Por lidar com o jeitinho brasileiro, o
Correio encontrou mais espaço para a mistura do jornalismo clássico com o entretenimento. O pecado foi perdoado em nome da criatividade - e do inquestionável sucesso.
Menores e melhores
Mesmo pertencendo ao núcleo da mídia impressa, nem tudo o que diz respeito aos jornais se aplica às revistas. No caso delas, a segmentação é inevitável. A tendência é surgirem cada vez mais revistas populares, voltadas às classes C e D, pois estas têm acesso reduzido à
web. Como o conteúdo exigido é predominantemente baixo, os veículos deverão ter seu
status quo notavelmente reduzido.
As palavras-chave são interpretação e imagem. O editores de revistas deverão buscar a todo o custo um novo sentido dos fatos, colocando-os em um contexto mais amplo.
Quanto ao predomínio imagético, as revistas tendem a ficar cada vez mais parecidas com a televisão: a imagem
predominará cada vez sobre o texto. É a consagração do visual em detrimento do intelectual.
Chegou-se à conclusão de que por melhor que fosse o conteúdo, o leitor não tinha tempo para digerir todas aquelas informações. Pesquisa realizada pela Editora Abril confirmou que apenas 7% dos leitores
da revista Veja liam o periódico de capa a capa. Assim, as revistas do futuro serão mais finas e mais completas. Isso significa filtrar ainda mais o que entra na pauta e o que sai. A tendência já pode ser comprovada atualmente. Basta comparar o número de páginas das edições
de Veja deste ano com as de 1998 e 1999.
O que há de bom no mundo novo?
As tendências da comunicação carregam consigo o mérito de transformar as relações clássicas de fazer mídia. Resta determinar se elas são predominantemente positivas ou monstruosas para o cenário da comunicação.
No campo da informação cibernética, destaca-se Pierre Lévy, que assume uma posição neutra. Em
O Que é Virtual, Lévy defende que antes de criticar a era virtual, os teóricos deveriam "estudá-la, pensá-la, aprendê-la e, principalmente, compreendê-la". Para ele, ainda é muito cedo para emitir verdades absolutas.
Nicholas Negroponte, autor de A Vida Digital e professor de Tecnologia da Mídia no Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT), é um dos otimistas. Segundo ele, as novas tecnologias da comunicação unirão as características sensoriais da televisão com a praticidade e profundidade de um jornal. "Cada vez mais individual, mais adequado ao perfil do usuário", comemora.
Nem tudo, porém, é só entusiasmo. Leão Serva, já citado, enxerga o mal: a perda do poder individual. Conforme ele, as informações como são apresentadas hoje "ameaçam criar a definitiva submissão do consumidor ao capital, pois, ao preencher sua vida como alvo de uma metralhadora de signos, o consumidor se submete a um Grande Irmão".
A idéia acima aproxima muito do ambiente imaginado por Huxley. No entanto, é impossível prever com destreza o que terá de bom e ruim o mundo novo. Nem mesmo se será admirável. Provavelmente, só 3001 revelará.
criação: lisandro staut |
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