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Mártires do jornalismo investigativo

Fabiana Amaral

No próximo dia 2, o assassinato do jornalista Arcanjo Antônio Lopes do Nascimento, o famoso Tim Lopes, completa um ano. O codinome "Tim" surgiu por todos o acharem parecido com o cantor Tim Maia. Mas, até para assinar as reportagens, ficava melhor, como sentenciou o jornalista Samuel Wainer, que dirigia a revista Domingo Ilustrado, por onde Tim passou.

Gaúcho de Pelotas, Tim Lopes passou por diversos veículos de comunicação, especializando-se em jornalismo investigativo. Estava na Rede Globo, para a qual fez várias denúncias sobre o crime organizado no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Sua última matéria, "Feira das Drogas", fez-lhe conquistar o ódio mortal dos bandidos dos morros cariocas.

O final da história é conhecido por todos, depois da exaustiva cobertura da Rede Globo em cima do assunto. Tim foi pego em pleno ofício. A carnificina que se seguiu, comandada pelo traficante Elias Maluco, não é digna de narração. Para começar com a maldade, atiraram-lhe nos pés, abortando qualquer possibilidade de fuga. Seguiu-se um estúpido show de violência e tratamento subumano, com direito a espancamento e exibição pública, culminando com o "cozimento" de Tim num vale cheio de pneus e outras tantas e irreconhecíveis vítimas das barbáries, apelidado de microondas.

Os pedaços de Tim Lopes ficaram 33 dias dentro de pneus carbonizados até serem reconhecidos pelo exame de DNA. A partir de então, começa um período em que a mídia - entenda-se Globo - se derramou sobre o assunto do jornalismo investigativo e da beatificação de seu repórter. Reconhecidamente mais famoso morto do que vivo.

Todos os noticiários esgotaram seus arquivos sobre Tim Lopes, enobrecendo suas ações, mostrando sua família, defendendo-o de qualquer possível injúria. Tornando-o, enfim, herói do jornalismo investigativo, uma espécie de ícone que permanecerá na história ao se referir a mártires da imprensa.

Tradicionalíssimo, o Jornal Nacional dedicou toda uma edição ao caso, com flashbacks, depoimentos de amigos e profissionais, sobre a pessoa e o assunto. Várias sonoras com especialistas em violência urbana e um comovente editorial em memória do jornalista, com direito aos olhos rasos de lágrimas de William Bonner, aplausos da redação e um minuto de silêncio.

Sensacionalismo velado

É bem verdade, e não se pode negar, que o caso tem sua importância, mesmo porque denota uma hostilidade quanto ao fato de estar a mídia incidindo sobre a sociedade e aqueles que, de alguma forma, possam prejudicá-la. Todavia, a alta exposição do assunto por parte da Rede Globo deixou premente o uso do acontecimento para um certo sensacionalismo. Chega a ser audacioso afirmar tal coisa, mas quem acompanhou o caso não terá dúvidas de sua veracidade.

O caso Tim Lopes rendeu louros à Globo, que tornou o assunto praticamente único por algum tempo. Tudo bem que o fato de ser um jornalista da casa colaborou. Outras emissoras não tinham tanta liberdade para explorar o assunto. Mas, algumas que o fizeram, trouxeram a público algumas discussões bastante pertinentes sobre o jornalismo investigativo no Brasil.

Uma das primeiras coisas a serem levantadas foi o fato da necessidade do jornalista se colocar na linha de frente nesta guerra urbana, sobretudo no Rio de Janeiro. Pode parecer devaneio, mas algumas considerações são necessárias. Podemos começar com o aspecto do jornalista buscar o perigo. E isso acontece com certa freqüência e naturalidade no meio.

O jornalista acaba se colocando como o salvador da pátria ignorando que também morre quando leva um tiro. Esquece-se que pode ser odiado quando mete o bedelho onde não é chamado e que na maioria das vezes é odiado e não idolatrado. Essa noção de realidade, que alguns juram ter escapado a Tim Lopes por ocasião dos sucessos em denunciar o crime organizado, poderia evitar a morte prematura de muitos jornalistas com arremedos de herói.

É claro que neste tópico também entra o espírito aventureiro e a própria vaidade de certos jornalistas, mas isso não cabe julgar. O que deveria ficar mais claro é que jornalista reporta a notícia, mas não é a notícia.

Se alguns pensassem mais neste princípio básico do jornalismo, teríamos mais informações que shows nos noticiários. Mas utopia é outra sessão. Que fique claro, porém, não se tratar especificamente do Tim, mas que seu caso tipifica alguns exemplos.

Quem é quem?

O jornalismo investigativo que se faz no Brasil, não é exatamente tão primoroso como o que é feito nos Estados Unidos, onde até mesmo alunos de faculdade (os da Universidade de Nova York, por exemplo) conseguem tirar um preso do corredor da morte por meio de aguçadas investigações.

Não desmerecendo totalmente o que se faz na América do Sul, o fato é que, em se tratando de imprensa tupiniquim, os casos de jornalismo investigativo se referem, na maioria das vezes, a bandidagem do submundo do tráfico. Coluna policial. Não é o caso de excluir essa categoria, mas se vê como jornalismo investigativo estereótipos do tipo Aqui e Agora ou Brasil Urgente e Cidade Alerta

Para Ricardo Noblat, no livro Jornalismo é...,"jornalismo de investigação não é só aquele que precede a elaboração de reportagens de fôlego. Jornalismo é investigação sempre - quer ele resulte na renúncia de um presidente da República ou no fechamento de um buraco de rua que atrapalha o trânsito". 

Porém, um fator que não deixa o termo jornalismo investigativo seguir mais eficientemente é a mistura com cargos e funções. Vamos entender isso.

Em países subdesenvolvidos, existe algo - passível também em países do primeiro mundo (com menor propagação, claro) - chamado suborno, propina, picaretagem ou outros termos que o leitor quiser aplicar ao conceito. É a inversão de valores e funções dentro do jornalismo e dentro de órgãos do governo, mais especificamente da polícia.

Não adianta tentar romantizar o cotidiano do jornalismo, pois já não existe, ou sequer existiu. O fato é que se o jornalista investigativo quiser informações terá de que se macular com as agruras da corrupção. Acaba sendo vítima de seus informantes criminosos e de seus "protetores" policiais.

Chega-se ao cúmulo de só conseguir informações - até seguras, é verdade - com bandidos e vagabundos, como inclusive reza a praxe informal do ramo, mas, ao mesmo tempo, só conseguir acesso às fontes e locais mediante "favores" com policiais experimentados na área. Olhando e analisando friamente a questão, é de deixar os mais puritanos estarrecidos. Afinal de contas, quem é quem nessa história?

No livro de Percival de Souza, Narcoditadura, sobre o caso Tim Lopes, ele deixa bem claro certas "regrinhas" desse ramo e é assim que funciona se quiser ficar vivo (
leia a resenha). Não que os jornalistas sejam todos corruptos - boa parte o é - ou não divulguem o que de fato acontece, mas divulgando um caso importante, certamente encobrem muitos outros. É uma das leis de guerra.

Não existe exatamente o que chamamos de amizade nesses acordos, mesmo porque existe uma rusga tremenda entre jornalistas e policiais, que ficam como leões-de-chácara de órgãos oficiais. Não sai da lembrança dos jornalistas a morte, no início da década de 1970, do jornalista Vladimir Herzog, e tantos outros que foram torturados e mortos nos porões do DOI-Codi, no período militar. A noção de crime organizado que temos hoje, era a existente nos porões da ditadura.

Necessidade de revisão

O que importa, na verdade, é reconhecer que Tim Lopes, apesar da morte traumática, não foi o único caso, nem no Brasil, nem em qualquer parte do mundo. O problema, entretanto, vem da noção errada que se tem quanto à divulgação do que acontece no lado mais escuro das cidades.

Quando, por ocasião da identificação do corpo de Tim, falou-se que foi por causa dele que se soube o que ocorria nas favelas cariocas ou que era por meio deste tipo de jornalismo que se sabia da podridão e decadência da humanidade, algo ficou latente. Esqueceram de mencionar o fato de que não é necessário expor a cada minuto roubos e furtos para mostrar que o homem é desonesto. Que não se faz necessário mostrar tanta desgraça para que não esqueçam que o mundo é mau.

Embora o trabalho do jornalista investigativo seja de muita importância na hora de pressionar as autoridades no combate à criminalidade, raramente isso acontece com eficiência, pela máfia que se sabe existir. Não é o fato de colocar o crime na tevê que vai informar à polícia que ele acontece. Ela já sabe disso. E não é só isso o jornalismo investigativo.

Vale repensar as reais responsabilidades do jornalismo investigativo no Brasil. Considerar o fato de que da maneira como está sendo conduzido pode inclusive ser visto como um braço do crime organizado. Não que a generalização seja o correto.

O caso Tim Lopes, completando um ano, pode fornecer bases para análises futuras e ponderações de como a mídia exacerbou na divulgação de sua morte e supervalorização de sua atuação. Um ano depois, a imprensa não mudou muita coisa, não ficou mais madura, não melhorou no jornalismo investigativo, nem mesmo valorizou seus profissionais. Mas deixou vários exemplos do que não fazer, novamente. Agora é esperar para ver como serão as coberturas do caso, no seu aniversário, e quem será a carcaça da vez, sobre a qual os urubus midiáticos se atracarão.

                   

criação: lisandro staut