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Complexo de Matrix

Fernando Torres


Já se tornou cansativo remeter a postura do jornalista Tim Lopes à do super-homem. Em tempos digitais, é mais inteligente associar o mais recente mártir do jornalismo investigativo ao herói high-tech Neo, da trilogia Matrix.

A figura de Tim Lopes quase dispensa apresentações. É de conhecimento público seu incrível fato para a notícia e sua garra peculiar para compor matérias, características que lhe renderam a conquista do Prêmio Esso de Telejornalismo (juntamente com Cristina Guimarães), com a matéria "Feira das Drogas", também em 2002.

Contudo, poucas vezes veio à tona o discurso de que Tim arriscou-se mais do que devia, muito mais do que a profissão exigia. O cão perdigueiro sofria de vaidade, mal compulsivo de que padece a maioria dos jornalistas. No dia do crime, Tim dirigia-se à favela Vila Cruzeiro (RJ) em busca de informações para compor uma nova matéria a respeito do tráfico de drogas e sexo entre menores durante bailes funk, uma espécie de suíte para a reportagem premiada.

Ah, a vaidade! Depois de receber o prêmio, Tim deixou-se ser entrevistado, fotografado, filmado. Tornou-se uma figura pública, algo impensável para o jornalista investigativo. Ao saberem que outra matéria do mesmo naipe estaria sendo composta, o traficante Elias Maluco e sua gangue não hesitaram: deram cabo ao jornalista, torturando-o antes de forma facínora e cruel.

Nesse ponto, Eduardo Faustini, sucessor de Tim no jornalismo investigativo da Rede Globo, acerta. O novo farejador evita dar entrevistas, abomina fotografias e não mostra o rosto nas reportagens. Essa cautela, insuportável para a maioria dos telejornalistas, tem explicação: ele quer viver.

E mais: Faustini pretende continuar prestando serviços à sociedade. Em declaração à revista Imprensa (outubro/2002) ele diz que sua grande vontade é "terminar a matéria que Tim não conseguiu terminar".

A declaração de Faustini confirma que o jornalista não deve fazer seu trabalho nas coxas, mas deve tomar precauções fundamentais para sua segurança. Que os jornalistas encerrem as reportagens com louvor, ótimo; que as reportagens encerrem os jornalistas com terror (e nostálgico louvor), inadmissível.

Tim Lopes morreu porque estava no lugar errado, na hora errada. Morreu porque julgou, em sua louca paixão pelo jornalismo, que era Deus. Constatou, a altíssimo preço, que estava errado. 

Com certeza, o jornalista perdigueiro seria muito mais útil à sociedade se estivesse vivo, se continuasse a narrar os escombros do tráfico. Aí sim seria herói. Sem efeitos especiais.

                                        

criação: lisandro staut