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Tim Clark Kent Lopes
Delton Unglaub
"É com um profundo sentimento de pesar e, ao mesmo tempo, de revolta e indignação que a TV Globo comunica: a polícia confirmou oficialmente que o repórter Tim Lopes, um de seus jornalistas mais premiados, foi de fato brutalmente assassinado durante a realização de uma reportagem sobre bailes funks nos subúrbios do Rio de Janeiro."
Carlos Henrique Schroder,
diretor da Central Globo de Jornalismo
A morte do jornalista Tim Lopes chocou a todos, pois atingiu a liberdade de expressão e o jornalismo investigativo. Jornalistas como Tim Lopes são eficazes instrumentos de defesa que uma sociedade pode recorrer. Eles se tornaram mais confiáveis que a polícia ou a Justiça. Um tipo de super-herói.
Diariamente, jornalistas em todo mundo são vitimas de atentados e, freqüentemente, a Cruz Vermelha Internacional é chamada para ir
em socorro de jornalistas em situações de risco. A história da imprensa mundial registra inúmeras atrocidades contra jornalistas. Anualmente, relatórios de organizações como a Sociedade Interamericana de Imprensa e os
Repórteres Sem-Fronteiras informam sob repórteres desaparecidos ou mortos.
Tim Lopes foi à noite a um lugar perigoso, equipado de câmeras e gravadores, fazer uma matéria que todos sabiam (inclusive os bandidos) que iria ao ar. Será que o crachá da TV Globo daria superpoderes contra seus "inimigos" e o deixariam à vontade para filmar tudo o que quisesse? Seria diferente em outra emissora?
Em certos lugares, nem mesmo a polícia arrisca investigar, preferindo atuar somente com a colaboração de informantes. A comunidade acreditava que a imprensa, em particular a TV Globo, fosse mais eficiente que os policiais. Não há nada de errado nisso, desde que o repórter se arrisque conscientemente.
A repercussão do assassinato de Tim Lopes reforçou a imagem do jornalista-herói, mas esta repercussão só ganhou tais proporções por ter sido elevada pela Rede Globo ao patamar dos super-heróis dos quadrinhos, como nas estórias de Clark Kent. Este divide seu tempo tentando salvar o mundo como super-homem e ser jornalista ao mesmo tempo. Vale lembrar que até mesmo ele morreu nos quadrinhos.
No dia de seu desaparecimento, Tim se encontraria com seu motorista. Sem ter idéia do que iria acontecer, disse ao motorista que se atrasaria porque ainda não considerava encerrado o seu trabalho. Então, marcou um novo encontro e desapareceu. No dia seguinte, uma equipe de policiais encontrou, no alto do morro, fragmentos de corpo carbonizado ao lado de pedaços de fita de oito milímetros.
Raquel Paiva e Muniz Sodré, no texto "Torpeza e os anacronismos perigosos", publicado no site
Observatório da Imprensa (26/6/02), comentam sobre o papel desempenhado por Tim Lopes: "Tim Lopes era prioritariamente um repórter investigativo, isto é, um representante do 'olho público', virtual herói da velha imprensa".
Para eles, a ampla divulgação da morte de Tim intimidou a imprensa investigativa, ou seja, a espetacularização em cima do fato causou má repercussão. "Jornalismo investigativo só adquire sentido pleno quando suas revelações repercutem transitivamente na sociedade política (Estado e seus aparatos) e na sociedade civil, da qual a imprensa costumava ser, em termos gramscianos, um intelectual orgânico. Repercussão transitiva é aquela que leva a uma ação transformadora", escrevem eles.
Investigação anônima
Todavia, a morte de Tim Lopes não impediu a proliferação completa do jornalismo investigativo. Eduardo Faustini, um jornalista da linhagem de Tim Lopes na Rede Globo, foi o grande vencedor do 9.º Prêmio Líbero Badaró. Recebeu o Grande Prêmio e o prêmio na categoria Telejornalismo, pela reportagem "Denúncia São Gonçalo".
O trabalho exercido pelo jornalista anônimo pode prestar uma valiosa contribuição ao telejornalismo e a sociedade, se este perseguir a denúncia com disciplina e rigor. O jornalismo investigativo é um trabalho solitário.
Repórteres como Faustini são provas que o jornalismo investigativo deveria ser mais valorizado. O limite da sensatez foi ultrapassado, tornando necessária uma reação da sociedade devido ao crescimento da violência no País.
Em 8 de janeiro de 2002, o Jornal do Brasil perguntou a Tim Lopes como garantir a liberdade do exercício do jornalismo investigativo e equilibrá-la à exposição inevitável do repórter investigativo. Ele respondeu que "tornar-se vulnerável aos bandidos urbanos comuns é uma gravíssima ameaça à liberdade de imprensa".
Eduardo Faustini confirma essa premissa. Em bate-papo no chat Psiu, o repórter declarou que "o jornalismo investigativo não pode ser exposto. Tim Lopes era assim, ele morreu porque estava sozinho e sem a polícia. Mas é assim que tem que ser".
No caso de Tim Lopes, torna-se evidente que ele foi assassinado pelo medo do poder das imagens, por parte dos criminosos, (o bom jornalismo investigativo); e pela subestimação do crime organizado, que sabia da presença e do objetivo de Lopes.
criação: lisandro staut |
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