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Profissão perigo: O Dom Quixote da mídia

Alhandra Andrini

O mundo tem enfrentado crises entrelaçadas, como a queda de superpotências e a ascensão de alguns países. A evolução tecnológica, biológica e outros campos do conhecimento humano pareciam subjugar um passado de discórdia e sofrimento. O medo da guerra exposto mundialmente pela mídia demonstra que, apesar do tempo e existência, o homem continua arraigado em sua "vida selvagem".

Contudo, existe uma guerra individual sendo travada, em que as pessoas acuadas, "protegidas" em suas celas urbanas, com portões e câmeras eletrônicas, guarda-costas e cães treinados, temem exercer sua liberdade na selva de pedra que se tornou a sociedade moderna.

Diante destes conflitos - e sob a expectativa humana, surge uma ilustre figura, levando ao conhecimento público a origem de incuráveis mazelas sociais: o jornalista investigativo.

Exposto sob a mira de um fogo serrado, o repórter investigativo tem sido os olhos de uma justiça cega, cuja balança não pende para defesa dos fracos, mas sim para o interesse dos mais fortes.

Enquanto as atenções estavam centradas na guerra e suas conseqüências no Oriente Médio, no seio de nossa sociedade, a guerra do narcotráfico, a prostituição infantil, o crime do colarinho branco e outros crimes, não se deflagraram em sua rotina.

Num mundo individualista, onde o vil metal parece exercer um poder hipnótico sobre indivíduos, não é espanto algum quando o ladrão de galinhas recebe justiça. Enquanto os que desviam verbas e concessões gigantescas tornam-se impunes, afrontando o bom senso.

São poucas as pessoas que procuram exercer uma função tão perigosa, investigando, expondo a injustiça, o descaso e até mesmo dando e requerendo soluções das entidades responsáveis. Os programas de top show, com seus repórteres investigativos - quando não sensacionalistas - demonstram o poder que a mídia tem ao representar o povo. Alguns consideram os mesmos um gerador de cargas negativas, porém é necessário que a massa tenha conhecimento de sua realidade.

O caso Tim Lopes, que durante investigações sobre abuso de menores e tráfico de drogas num baile funk, foi descoberto, seqüestrado e morto por traficantes liderados por Elias Maluco, é um grande exemplo do risco que o repórter investigativo está exposto.

Um exímio profissional, que ao subir o morro se infiltrando no narcotráfico, considerado um câncer social, acabou cutucando uma ferida que parece não querer cicatrizar. O resultado do profissionalismo? Sua morte.

Outro caso que chocou a sociedade brasileira foi o crime do comendador João Arcanjo Ribeiro, sobre a morte do jornalista Sávio Brandão. O repórter vinha denunciando, ao longo de dois anos, a contravenção com o jogo do bicho, máfia da cobrança, narcotráfico e contrabando de máquinas caça-níqueis e jogos eletrônicos, confirmando o poder do submundo do crime organizado.

O repórter investigativo num ponto de vista ético, não precisa ser um dom Quixote de la Mancha em sua incessante luta contra os malfeitores. O importante é fazer a diferença.

Nenhum movimento ou manifestação começou com grandes decisões, e sim com pequenas. Qualquer decisão é um ato para não precisar remediar um futuro câncer social. Tarefa difícil para um "dom Quixote", que não deve entender muito de medicina.

                                        

criação: lisandro staut