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A investigação do norte e a do sul
Victor Drummond
Investigar, esclarecer, apurar. Eis os verbos mais usados no jornalismo investigativo. Uma das vertentes da profissão de maior engajamento social. O jornalismo brasileiro absorveu muito do jornalismo norte-americano em relação aos enfoques dados nas matérias. Em ambos, há uma supervalorização de personalidades e a publicação dos fatos sem uma análise profunda.
No 6.º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, a ex-ministra da Indústria, Comércio e Turismo, Dorothea Werneck, salientou esse tipo de jornalismo realizado pelo Brasil:
"Os jornalistas têm é que mostrar o que vem depois deste fato, quais implicações ele trará para a
sociedade."
É um tipo de jornalismo bem diferente do jornalismo europeu, que tem uma abordagem mais pedagógica e uma interpretação mais crítica e intelectualizada dos fatos. Se o Brasil e os Estados Unidos possuem esse pé de igualdade nas características do jornalismo como um todo, quando falamos em jornalismo investigativo esses últimos saem ganhando."
Há vários fatores que contribuem para isso. O que ocorre é uma espécie de glasnost na relação entre governo, mídia e sociedade norte-americana. Existe uma transparência na forma como o Estado se relaciona com a imprensa. Já no Brasil enfrentamos os terríveis lobbies governistas firmados com jornalistas que possuem acesso aos palácios e festas governamentais (não que nos Estados Unidos isso não exista).
A ex-ministra Dorothea Werneck afirmou que a única função dos releases
liberados pelo governo é trazer estatísticas, informar sobre os últimos projetos e iniciativas realizadas pelo Governo e apontar para eventos futuros. Os
releases do seu Ministério até se limitavam a essas funções. Mas é meio difícil que os outros ministros façam apenas isso. Até mesmo matérias compradas devem ser comuns.
Liberdade de imprensa
É complicado no Brasil levar avante um jornalismo investigativo sério, apesar de existirem profissionais competentes e que o levam a sério. A legislação norte-americana facilita o trabalho dos repórteres nesse sentido, dando liberdade para publicarem o que quiserem.
Isso não quer dizer que a imprensa dos Estados Unidos não possua padrões. A diferença é que essa liberdade já existe há um bom tempo. Exemplo claro foi o escândalo de Watergate, publicado pelo jornal
Washington Post.
Voltando ao Brasil, podemos afirmar que a possibilidade de se investigar algo e publicá-lo antes se tornou real somente com o fim do regime militar. Mais precisamente depois das eleições diretas de 1989.
Antes disso, muita coisa foi encoberta. Muito crime cometido por quem estava no poder passou impune. Não havia uma fiscalização por parte da imprensa. Ela foi presa em uma gaiola por todos os anos do regime militar. Controle, manipulação, vigilância. Como é possível desenvolver um jornalismo investigativo com todas essas correntes aprisionando os repórteres?
Representação mundial
Um outro fator importante para que os Estados Unidos caminhem um pouco na frente em relação às suas investigações é que eles possuem a maior associação de jornalismo investigativo do mundo, o
Investigative Reporters and Editors (Repórteres e Editores Investigativos), com mais de quatro mil membros de 27 países.
Com base na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Missouri, o IRE promove conferências e distribuiu prêmios, dirige
workshops de treinamento e oferece recursos sobre metodologia investigativa, liberdade de informação, reportagens com assistência do computador, entre outros. Essa troca de experiências é importantíssima, pois é por meio dela que os profissionais podem aprimorar suas técnicas e descobrir novas maneiras de agir perante o crime.
Existem outros centros bem organizados que contribuem ainda mais para o amadurecimento do jornalismo deste país. Só para citar mais alguns, existe o
Center For Investigation Reporting (Centro de Reportagem Investigativa).
Fundado em 1977, em São Francisco, com sede em Califórnia, o CIR é uma organização de reportagem dedicada à cobertura independente e em profundidade de questões sociais. O grupo trabalha com importantes programas jornalísticos de televisão, jornais e revistas, publica manuais de reportagens e dirige workshops em técnicas investigativas.
Os Estados Unidos trabalham também em parceria com o Center For Public Integrity (Centro para Integridade Pública), e o
International Consortioum Of Investigative Journalists (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos).
Com sede em Washington DC, o Center for Public Integrity, grupo sem fins lucrativos especializado em "jornalismo de serviço público", trabalha com organizações jornalísticas mundialmente. Entre seus programas está o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, uma rede de mais de 80 repórteres em 40 países. O Consórcio oferece um prêmio anual de 20 milhões de dólares.
Está aí mais um fator que colabora para o desenvolvimento deste jornalismo: a motivação. Uma boa premiação pode fazer que muitos profissionais arrisquem fazer algum trabalho na área de investigação. Isso sem falar que nas faculdades de jornalismo dos Estados Unidos os alunos possuem a especialização em investigação. Repórteres como Philip Meyer e Steve Weinberg têm contribuído para desenvolver boas metodologias para a prática acadêmica. Isso é pouco comum em nossas grades acadêmicas.
Novidade
Não diria que o Brasil deixa a desejar no jornalismo investigativo porque é pobre em pautas. Há todo um contexto histórico por trás. É apenas uma área nova para nossos jornalistas que foi descoberta há pouquíssimo tempo. É até uma injustiça querer fazer comparações com os Estados Unidos.
O impeachment de Collor foi um de nossos marcos. O caso do juiz Nicolau seguiu o exemplo. O afastamento de ACM da vida política para que seu mandato não fosse cassado também foi uma das grandes vitórias da imprensa. Mais recentemente, o caso dos telefones grampeados no qual a mesma raposa esteve envolvida. Ficamos sabendo disso por meio do jornalismo investigativo, que está dando seus passos dentro de nossa realidade.
Falando em evolução do jornalismo brasileiro, vale dizer que existe a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Trata-se de um grupo de jornalistas brasileiros interessados em trocar experiências, informações e dicas sobre reportagem, principalmente investigativas. Mais um grande passo para que essa vertente se firme como algo sério e mereça credibilidade.
A Abraji tem promovido encontros com freqüência para trazer aprimoramento aos jornalistas interessados neste ramo. Agora em maio, por exemplo, ela organizará um seminário sobre técnicas de cobertura do crime organizado, que acontecerá em Londrina. É uma boa forma de se recuperar o tempo perdido.
Realmente, o jornalismo investigativo é uma grande forma do indivíduo desenvolver-se como profissional. Ele precisa apurar diversas fontes, ter transparência com as mesmas, apresentar todos os elementos de uma história para o público para que ao final, ele chegue a uma conclusão. O repórter torna-se praticamente um professor, que conta um fato, sempre mostrando para os alunos, a "verdade" acerca da história.
Conversando com um outro professor, discutimos por que a imprensa norte-americana não fala dos seus "Beira-Mares" da vida. Os Estados Unidos são o país que mais trafica drogas em todo o mundo. Onde está a punição para este crime organizado? Cadê a imagem destes patifes tornando-se pública através da imprensa?
Percebe-se então, que este jornalismo investigativo nem está tão na frente no Brasil assim. Se eles fossem tão bons de verdade, os repórteres mergulhariam mais a fundo no mundo do crime organizado. Costumo acompanhar as notícias do
New York Times. Nunca vejo nenhuma matéria falando sobre o narcotráfico deles. Será que não existe? Ora! Não tem nenhum bobo aqui.
Em entrevista para esta revista, o jornalista Marco Uchôa, do Fantástico afirmou que "a dificuldade que se enfrenta aqui é convencer o seu chefe, o seu editor de uma investigação"
(leia a entrevista na íntegra). É uma questão de amadurecimento, de entender que a investigação é necessária, pois é por meio dela que se desenvolve uma consciência social em busca de melhorias e soluções para os crimes.
criação: lisandro staut |
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