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Bem-aventurada é a mídia

Fernando Torres

O espírito natalino e o aroma dos pães sem fermento instigam as pautas de diversos veículos de comunicação. Não, não falo de verbas publicitárias, nem da venda de perus e ovos de Páscoa. Refiro-me ao tratamento especial que a mídia dá à figura de Jesus durante os feriados religiosos.

Nesse período, é de lei a exibição de películas que narram a trajetória de Cristo - embora estas sejam anuviadas por filmes de duendes e coelhos. Da mesma forma, missas e cultos carismáticos e evangélicos exaltando a divindade abundam nas transmissões radiofônicas e televisivas.

Mas os campeões de abordagem são os periódicos mensais e semanais. Dezembro de 2002, aliás, foi rico em análises "jesuíticas". As revistas Superinteressante, Veja, Galileu e Cult, cada uma a seu modo, deram capa a um Jesus visivelmente distinto.

Este ano, a Páscoa influenciou as revistas da Editora Globo. A edição desta semana de Época (14/3) traça conjecturas a respeito dos familiares de Jesus; Galileu aborda a polêmica do Santo Sudário.

Isso sem falar na internet, grande refúgio do líder máximo do cristianismo. Como quase tudo na web, mistura-se o sacro com o profano, isto é, o bem com o mal. Mas Jesus está lá, presente em mais de um milhão e 500 mil sites.

Divulgação gratuita

Como se vê, é grande o leque de canais de comunicação - ressalte-se, sem qualquer fim evangelístico - que falam a respeito de Jesus. Líderes religiosos e afins deveriam alegrar-se com essa divulgação gratuita, mas, ao contrário disto, demonstram-se insatisfeitos. Alegam que a mídia produz inverdades e banaliza a imagem de Cristo.

Segundo o evangelho de Lucas (capítulo 19, verso 40), o próprio Jesus afirmou que as pedras falariam em prol da propagação de sua mensagem, caso seus discípulos se calassem. Bem, num cenário em que líderes religiosos parecem estar cada vez mais preocupados com o recolhimento das salvas, a mídia parece cumprir esse papel.

A pauta sazonal de Veja (25/12/02), por exemplo, incluiu ao fim de seus quatro tópicos (37 páginas, incluindo os anúncios publicitários) 35 frases ditas por Jesus retiradas dos Evangelhos. Ora, para uma revista com fins estritamente comerciais, tal atitude é indiscutivelmente louvável, até mesmo por parte dos críticos mais ferrenhos.

"Veja deu uma capa que se confunde com as clássicas 'folhinhas', como são conhecidos os calendários católicos. Parece mais um folheto missionário", opina o escritor Deonísio da Silva, em artigo do site Observatório da Imprensa (25/12/02).

A Super (dezembro/2002), por sua vez, contraria trechos da narrativa bíblica - como o local de nascimento de Jesus -, mas, como já foi dito, seus objetivos não são evangélicos. Quanto aos aspectos que mexem com a fé, como a divindade e a transcendência dos milagres de Jesus, a revista não se manifesta. "A ressurreição é uma questão de fé e não de história", diz a revista.

A reportagem se baseia em 11 obras de renomados historiadores. Entre elas, destacam-se O Jesus Histórico e Jesus, Uma Biografia Revolucionária, de John Dominic Crossan, Um Judeu Marginal, de John Meier e Jesus - Esse Grande Desconhecido, escrito por Juan Arias. Se as informações fornecidas por eles não conferem, já não é problema da Super; o trabalho jornalístico de divulgação científica foi feito.

A Cult (dezembro/2002) aprofundou-se não especificamente na personagem, mas nas diversas leituras do cristianismo. Com teor filosófico e científico, dissecou as filosofias de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Blaise Pascal, entre outras. O periódico também abriu espaço para a discussão da mística transcendental de Simone Weil, caracterizando-se como excelente fonte de pesquisa para teólogos e intelectuais.

E o que dizer dos filmes sobre a vida de Jesus, verdadeira contraposição à violência e sexualidade jogadas dia-a-dia aos telespectadores? Por maiores que sejam as fantasias dos cineastas, as películas clássicas remontam ao tempo das belas artes e da cultura, como o irrepreensível Jesus de Nazaré, do diretor italiano Franco Zefirelli, exibindo anualmente pela Rede Record. Deve-se lembrar que, por visar um público tradicionalista, a TV aberta não ousa exibir filmes hereges e polêmicos, como Corpus Christi ou Je Vous Salue Marie.

Quanto aos programas de auditório e cultos carismáticos televisionados que se utilizam da figura de Cristo; cada um o faz de acordo com a sua crença, indiscutível do ponto de vista aqui tratado.

Obviamente, os mass media não possuem a aura sagrada outorgada aos Evangelhos. Porém, é vital que a exposição de Jesus na mídia não é tão vulgar como alguns querem que seja. Pelo contrário, apresenta facetas indiscutivelmente positivas. Até mesmo bem-aventuradas, ousaria dizer.

                                        

criação: lisandro staut